Old School Nerds

Old School Nerds

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Moon

Brilhante filme é sci-fi como poucas. O mais próximo de 2001 que temos em 4 décadas.

Há tempos circulava na internet o plot e uma ficha cinematográfica de Moon, curioso filme com Sam Rockwell, um cartaz fantástico(um dos melhores do ano) e um orçamento, de certa forma, ridículo: 5 Milhões de dólares. Moon então foi falado em alguns festivais e estreou nos Estados Unidos e foi recebido com frieza pelo público. Ganhou apenas 4 milhões e meio, não podendo nem pagar marketing. Mas, após ver Moon, é um fato mais que compreensível essa bilheteria baixa. O primeiro filme do talentoso Duncan Jones, filho de David Bowie, é fantasticamente... cult. É o novo 2001 em quesitos de direção de arte e narrativa. Lenta, contemplativa, poderosa e sem entregar muitas surpresas, a narrativa de Moon é de fácil compreensão, porém difícil para o público se entregar a ela e ver o filme. O marketing ridículo que a Sony deu ao filme também é notável. Aqui no Brasil, estreará direto em DVD e o pior: o teor do filme impossibilita MUITAS locadoras de não o comprar, deixando ele disponível apenas lá no exterior e aqui, para download. Além do que, Moon sofre do mesmo mal de Fonte da Vida: ele é mal vendido. Tão mal vendido que acredito que algumas pessoas foram ao cinema esperando um Star Trek. Mas, nada disso impossibilitou Duncan Jones e Sam Rockwell de fazerem um dos mais bonitos trabalhos dos últimos anos e, porque não, a sci-fi mais inovadora em 40 anos?

A trama, de uma simplicidade tocante e uma temática atual e verossímel, conta a história de Sam Bell(Sam Rockwell), um operário que trabalha na Lua, numa espécie de Estação Espacial. Ele colhe Helium-3 para sua empresa, a Lunar Industries, uma gigante da energia que, com essa energia da Lua, abastece 70% do Planeta. Mas, lá na Estação, Sam não vê a hora de voltar pra casa. Seu contrato de 3 anos com a empresa está acabando e ele está perto de seu sonho. Mas, coisas estranhas começam a acontecer e GERTY(a voz icônica de Kevin Spacey), seu amigo robô, o tranca dentro da Estação para segurança. Mas, depois de um pequeno plano, Sam consegue burlar a segurança de GERTY e faz uma descoberta. No mínimo, intrigante. E isso o deixa cada vez mais paranóico e doente.O desenvolvimento dessa trama é interessante porque introduz um suspense psicológico, sem se esquecer do sci-fi competente. E aqui cabe uma dica: Não espere reviravoltas, não espere um filme comum de suspense e não espere, DE JEITO NENHUM, um filme com ação.

Nos quesitos técnicos, Moon surpreende demais. Um filme que recebe o orçamento de 5 milhões é um drama ou um filme independente underground sobre algum tema forte. Mas, Duncan Jones é mais que isso, ele é corajoso. Com poucos recursos, ele faz uma direção impressionante, lembrando Stanley Kubrick. Takes parados, contemplativos, que exploram o ambiente sem esquecer dos atores. Se o mundo do cinema fosse justo, Duncan merecia figurar, pelo menos, nos 10 nomes a serem lembrados pro Oscar. Talvez não indicado, mas pelo menos lembrado. É um diretor a ser acompanhado daqui pra frente, sem dúvida. A edição de Nicholas Gaster é normal, o ponto fraco do filme. Ela se baseia na mania dos anos 70: Aquela imagem que vai entrando enquanto a outra some ao fundo. É apenas na média, mas não atrapalha a mensagem do filme. A fotografia de Garry Shaw é inspirada, valorizando os tons brancos do ambiente e a superfície lunar, feita a base de maquetes. Mas, dois fatores do filme merecem ser destacados o máximo possível. O primeiro é a direção de arte de Hideki Arichi e Josh Fifarek, que é sensacional. Os cenários criados pela dupla são curiosos, críveis e fabulosos. A predominante cor branca da estação, os aparatos eletrônicos e as roupas de Sam impressionam pela beleza. GERTY também é uma criação competente dos artistas, sendo verossímel e interessante. O segundo ponto é a trilha sonora, do genial Clint Mansell. Mas uma vez ele cria um trabalho memorável, um dos 20 de sua lista. Bem trabalhada e com seu ritmo neo-clássico, a trilha de Mansell é fantástica pro filme e fantástica sem ele, aquela típica trilha que você compra o CD.

Em atuações, Moon é um caso notoriamente curioso. Sam Rockwell é praticamente o único ator do filme e é o único com relativa importância. Claro que tem GERTY também, mas o adorável robô não vale. O resto dos atores só aparecem por pequenas telas, vistas da estação Sarang, a na Lua. Voltando a Rockwell, o ator britânico arrebenta. Seu jeito esquisito, como se não estivesse nem aí pra nada, é explorado pela metade. Quando virem o filme vocês entenderão porque. Mas na outra metade, ele começa uma atuação espetacular, de uma forma meio bruta até, trocando por um cara mais violento, enérgico. A atitude calma muda. Já Kevin Spacey faz seu trabalho de forma breve. Sua voz em GERTY é intrigante, dando uma áurea confortadora e misteriosa sobre a máquina.

Em roteiro, Moon é impressionante. O trabalho de Nathaniel Parker sobre a ideia de Duncan Jones é tocante. Um debate psicológico que usa um contexto muito atual pra ilustrar o mundo perfeito que o ser humano criou com a tal tecnologia. Um grande reflexo disso são os dois primeiros minutos do filme, de tirar o fôlego. Existe até a possibilidade do espectador gostar menos do filme comparando-o aos primeiros minutos. Um rápido e brilhante modo de explicar o mundo. Outra sacada de roteiro boa é não dizer em que época estamos. Com isso, a liberdade de efeitos é maior, podendo criar coisas mais inverossímeis com explicações críveis. Curiosamente, pela falta de verba ou por ser desnecessário, o filme não se excede e é peça de convencimento como poucas, mostrando uma Lua verdadeira e aparelhos que não são difíceis de acreditar. Já nos diálogos, travados por Sam Rockwell e GERTY, há uma precisão interessante. O tom de humanidade que o roteiro impõe a GERTY é inovador e bem executado. A própria criação do personagem é uma mais-valia para o filme. E, se todos podem ter uma certa desconfiança sobre GERTY ser igual a HAL 9000, de 2001, ela é coerente porém inválida. GERTY tem muito mais emoções e é ligado emocionalmente com Sam, o que mostra uma bonita relação de amizade. Por criar criativos personagens e excelentes situações, o roteiro de Moon é um grande destaque.

Já que o orçamento de Moon é baixo, se esperaria um filme bem feio, mal-feito. Mas, incrivelmente não é. A já citada direção de arte se soma a uma criatividade enorme. Se dentro de Sarang o visual é lindo, fora dela não está devendo nada. Apesar de ser claramente uma maquete, o solo lunar é muito rico em detalhes e é decente, bem-produzido. E, além disso, existem efeitos especiais no filme. Alguns são de uma riqueza impressionante(como a Terra vista no espaço ou a escavadeira na Lua), mas outros são fracos, meio toscos até(como a nave saindo da estação), o que lembram o quanto o filme é barato. Mas é incrível o que se pode fazer com tão poucos recursos.

Estranho, filosófico, pesado e bem científico, Moon é uma sci-fi como poucas. Não tem o entretenimento e diversão de Star Trek, não tem os magníficos efeitos de Avatar, mas tem a simplicidade de roteiro de um 2001 ou Solaris. Isso deve conquistar a todos que esperam um filme científico bem politizado e diferenciado. Uma grande prova de sua didática em relação ao mundo é o já citado primeiro minuto, o que certamente fará o espectador ficar até o final no filme. Um filme difícil, que merece mais ser visto que muito blockbuster por aí. Um trunfo de Duncan Jones. Que seu próximo projeto lance logo e nos cinemas.

***** 5 Estrelas

Funny People


Uma auto-reflexão adulta de Judd Apatow.

Judd Apatow é atualmente uma das maiores referências de comédia no mundo. Criador de o Virgem de 40 Anos e Ligeiramente Grávidos , é de um diferencial ótimo . Não é de um humor refinadíssimo como o dos Cohen, mas tem sua inteligência cômica, deveras melhor do que o humor dos Wayans. Apatow praticamente "criou" um estilo novo de comédia : Aquela que utiliza refêrencias pop em massa, junta gags de vários tipos e arranca boas risadas. Tanto produzindo quanto dirigindo, ele ajuda a trazer ótimas obras para o público. Porém, desta vez, Apatow dá um passo além do costume, criando Funny People ( Do insípido título nacional " Tá Rindo do Que?"o qual me recuso a colocar.)

Funny People,não é, antes de mais nada, um outro Ligeiramente Grávidos, e não chega perto da qualidade de Segurando as Pontas. É um humor inteligente cheio de referências como de costume, mas passa longe de ser apenas uma comédia. É um drama, sobre os comediantes e humoristas, com muitos gags e tiradas cômicas. Uma auto -reflexão de Judd Apatow, que parece abrir para todo o público a vida real dos comediantes, desde aqueles que fazem Stand-up até os que realizam filmes idiotas e discerebrados.

A história é sobre George Simmons ( Adam Sandler ) um comediante famoso por estrelar filmes de comédia idiotas e sem graça ( De certo modo parecido com Sandler ) que descobre, num dia que vai no médico, que tem uma doença praticamente incurável , e tem pouco tempo de vida. Amargurado, Simmons volta as suas origens- a comédia em pé - e num dia em que visita uma dessas sessões acaba conhecendo o novato no humor Ira Wright (Seth Rogen), e começa a apostar no rapaz, crendo que seja seu herdeiro no mundo cômico. Além disso, Simmons também procura reencontrar seu grande amor ( Leslie Mann) hoje em dia casada com um australiano (Eric Bana).

Como de costume, também entram na massa do bolo Jonah Hill e Jason Schwartzman, a eterna dupla que interpreta colegas de quarto nerds de Ira. As partes mais engraçadas são dessa fantástica dupla, que apenas de estarem no set de filmagem já nos fazem sentir vontade de rir. Porém, boas piadas são também oferecidas tanto a Sandler quanto a Rogen, que conseguem atuar bem , sem ir muito além do feijão-com-arroz. As piadas, com referencias múltiplas, entram dessa vez com uma fluidez ainda melhor, já que as personagens envolvidas são profissionais da comédia. Então, qualquer tirada engraçada em qualquer lugar faz ainda mais sentido de existir , saindo de quem sairam. Já as refêrencias se encaixam com um algo a mais. Como George é uma celebridade, existe a brecha para várias outras celebridades entrarem no filme também. Vai desde Ray Romano até Eminem - e a cena em que os dois estão juntos é uma das mais engraçadas da película. E os filmes de George também tem uma pitada de conhecidos. Re-do é uma referência silenciosa ao idiota O Pequenino, dos Wayans, e os outros filmes são refêrencias a toda gama de babaquices já criadas em Hollywood.

Misturar drama e comédia não dá um resultado ruim, definitivamente, e falar de um comediante fadado a morte é algo bem engraçado e interessante a principio. Porém, não é da cinematografia de Apatow criar histórias muito com muitos diferenciais(A não ser por Segurando as Pontas, que escreveu ao lado de Seth Rogen e Evan Goldberg). O drama de Simmons é bom, e dá ao filme um tom mais adulto.Entretanto, isso é até um ponto, pois o último ato parece não ter muito sentido no todo, por reunir poucos gags e ter menos relevancia na história. Esse ato se estende até uma altura desnecessária e faz o filme ter uma duração que simplesmente não precisava. Outro problema são os pequenos vácuos que ocorrem entre as piadas do filme. Esse é um dos problemas de Apatow, estender muito o fio a história, quando o ideal seria deixar o filme mais curto e enxuto, e consequentemente mais engraçado.

É preciso reconhecer, entretanto, o talento de Judd Apatow na direção. Sua linguagem cinematográfica não extrapola nada, mas devo dizer que o cineasta está muito longe de ser só mais um. Nada de um estilo artístico, mas ele nos passa tudo com uma competencia acima do nível, conseguindo transmitir tudo o que queria, sem nenhuma dificuldade e com a mão firme.
E, se o cineasta enfrenta dificuldades em criar histórias inovadoras , ele não tem problemas nas descrições de seus personagens. Mesmo que a parceria de Seth Rogen, Jonah Hill e Jason Schwatzman continue se repetindo, nunca serão as mesmas características. Os diálogos serão sempre diferentes , o mundo em que se encontram também, e de comum só terão o fato de serem colegas de quarto. E esse fator favorável em relação a personagens permite que suas comédias continuem sendo feitas, mesmo que a história peque.

Mas no todo, Funny People não se sai mal , com certeza. Abrir ao mundo a vida real dos piadistas compensa de certa forma um ou outro escorregão no roteiro, e o drama adulto até a metade do filme é muito interessante. Suas gags são ótimas, e só precisam serem mais unidas por uma duração menor. Assim talvez, ele almeje mais dinheiro e um poucomais qualidade da próxima vez.

3 Estrelas ***

domingo, 17 de janeiro de 2010

Onde Vivem Os Monstros

Crescimento e imaginação fabulosa em obra muito corajosa.

Em 1963, o escritor Maurice Sendak criou uma típica obra infantil. Aquelas do tipo em que crianças leem, que apresentam uma frase e um grande desenho por página. Uma obra que poderia cair como mais um livro educativo de formato panfletário. Mas Onde Vivem Os Monstros não era isso. Escondia algo a mais, e mais profundo. E de primeiro olhar, esses detalhes que mostram o crescimento de uma criança criativa e mal-criada, podem não ser vistos. Mas na adaptação de 2010, é simplesmente impossível não captar as referências, compostas com qualidade máxima e muito aumentadas do livro, de forma maravilhosa.

Afinal, o objetivo dessa adaptação nada mais é do que captar os sentimentos levemente velados na obra literária e expo-los em tela, aumentando os quadros e situações do livro. E , definitivamente, esse objetivo é alcançado. O filme é belíssimo, e conta sua história de forma completamente diferenciada. Acompanhando a formação da obra original, o longa se constrói com uma estrutura completamente diferente das produções normais. Algo que poderia dar problema a produção nas bilheterias, se ela já não tivesse com problemas suficientes no mesmo quesito devido a seu todo do roteiro. Afinal, Onde Vivem Os Monstros é uma obra que dialoga sobre a infância, as invencionices das crianças - não das crianças modernas, mas das mais antigas, que trabalhavam mais seu cérebro do que o controle de TV ou video-game - mas tudo de forma muito adulta e artística.

Porém, se nas bilheterias a produção corre perigo, é só por aí. A história além de ser interessantíssima no modo de ser contada, é costurada com muita destresa. O menino Max, na história, é um garoto com imaginação muito fértil. Brinca com sua fortaleza iglu, manda nas cercas da casa e se auto - entitula seu rei, e foge para seu abrigo na cama quando o chão jorra falsa lava. Mas um dia, quando seus ânimos se exaltam e ele desobedece sua mãe, é castigado, e mandado para seu quarto sem jantar. Ele então foge , entra num barco e viaja até uma ilha distante e descobre que lá vivem criaturas, monstros selvagens. Lá, Max fala que era um rei, e se torna rei das criaturas, dando regras que ele proclama e tendo sua liberdade.

A história conta toda essa aventura de Max com os monstros, mas tem na verdade um fundo de filme de crescimento e rebeldia juvenil. Muitos de filmes com esses temas já surgiram, mas esse tem sua didática diferenciada já que mostra todo o aprendizado de Max direto na sua fonte , na sua mente. A história em si, é uma grande metáfora, já que todos os monstros na verdade são as facetas de Max. Mas não é preciso usar mais metáforas na sua execução. Tudo é mostrado com clareza na frente de nossos olhos. Um exemplo : Numa das sequencias iniciais, Max se decepciona com sua irmã, destrói o quarto dela por raiva, explode e põe todo seu lado selvagem pra fora. Logo depois, recolhe seu ímpeto, e sua racionalidade o faz refletir que ela é a irmã dele, e se amam. Ao conhecer o Monstro Carol (o ótimo James Gandolfini) , que representa seu lado impetuoso e selvagem, Max retorna a essa lição. Não é preciso usar mais metáforas disfarçadas, já que vemos sua mente de perto, e seu amadurecimento e relacionamento com os monstros ocorre explicitamente. E é esse um dos diferenciais de Onde Vivem Os Monstros : sua didática reta, que espeta o público de maneira que muitos outros filmes não fariam. Além disso, o filme exibe várias homenagens á infância. Como em Toy Story, porém o filme da Pixar vai na fase mais tenra da idade. Onde Vivem vai mais no fim da infância, onde a imaginação extrapola qualquer limite , mas siginifica um rompimento, uma rebeldia de uma mente que quer ser escutada , mas ainda precisa amadurecer.

E o relacionamento de Max com os monstros é de beleza fenomenal. Todo o movimento tomado tem um porque e explicação, e é desenvolvido vagarosamente, mas não é uma perda de ritmo, já que todo o filme é mantido assim, nesse estilo calmo. A descoberta de sua responsabilidade e muitas outras descobertas acontecem junto com as criaturas, que são ao mesmo tempo figuras infantis, mas servem de parâmetro para eventos que ocorrem na fase adulta. As atuações dos atores travestidos de monstros( muito simpáticos, até mais que os azulões de Pandora) são fenomenais e dão mais valor ainda ao filme.

Spike Jonze, por sua vez, nos premia com uma direção sublime. Não erra a mão, e prova que pode carregar dois tipos de direção: a de drama e a de ação ( mesmo que essa seja pouca). Opta por um estilo "câmera na mão", onde ela treme como num filme caseiro . Nas poucas cenas de ação, ele acompanha sem muitos cortes, mas com muita correria e captando todos os atores. Já os efeitos visuais não são algo para se contemplar isoladamente,- apesar de serem muito bons- mas para se misturar com a história.

A trilha sonora e a fotografia são também de esmero aplaudível. Karen O. cria uma trilha própria para o filme, e que se destaca com louvor. Um filme sobre criança pede uma trilha agitada, melodiosa e com sons que remetem a criança cantando. E é isso que a trilha nos trás. Já a fotografia de Lance Acord coloca de cara um tom muito belo, e não oscila muito nas paletas - Nos desertos e áreas descampadas um tom amarelo , nas florestas, um verde claro delicado - Muito elegante e nada over.
Enfim, é preciso dar o crédito ao estúdio Warner Bros. Depois desse filme e de muitos outros trabalhos corajosos - Como Watchmen - o estúdio parece entrar num outro patamar, e sai da loucura por dinheiro que o resto do mundo se encontra ( como os caras da Fox). É, em outras palavras, um estúdio idependente, só que com muito dinheiro , ou quase isso. Digo isso não por que esse é um filme pesado ou com censura alta. É simplesmente um filme que dialoga sobre a infância, mas não é destinado ás crianças. É algo artístico, um cult que teve um orçamento de 100 milhões. Onde Vivem Os Monstros simplesmente é um filme único, sem nenhum atrativo para o público alienado que leva seus alienadinhos para ver Alvin e os Esquilos 2.

O retorno nas bilheterias, como disse anteriormente, pode ser um fracasso total, mas os produtores devem pelo menos se orgulhar do grande material que tem em mãos. Uma homenagem aos bons tempos de criança que todo o adulto já passou. Merece ser visto , e sentido tanto com seu cérebro quanto com seu coração.


5 Estrelas *****

domingo, 10 de janeiro de 2010

Sherlock Holmes


Um novo velho Holmes.

Os clássicos livros de Sir Artur Conan Doyle marcaram o mundo, com dois dos mais conhecidos personagens da cultura mundial de todos os tempos: O detetive Sherlock Holmes e seu ajudante, John Watson. A frase " Elementar meu caro Watson " é uma das mais conhecidas das muitas já proferidas. Na década de 40, vários livros de Doyle foram fielmente adaptados para o cinema, e as características dos personagens, as aventuras vividas, todas, foram mudadas muito pouco, quase nada. O filme de 2009, entretanto, não se prende a adaptar e reproduzir com fidelidade as já consagradas aventuras do século IXX. O objetivo é criar novos personagens, transformar as histórias mais paradas em aventuras , com muita ação. Fazer de um personagem sério como Sherlock Holmes um herói de blockbuster, pegando suas caracteríscas mais "agitadas" - como a prática de boxe, conhecimentos em artes marciais - misturando com um pouco do persoangem original e dando origem à um novo Holmes, preparado para satisfazer os bolsos dos produtores e entreter milhões de espectadores.

Ora, cobrar fidelidade à obra original seria pedir um gosto doce de um prato de macarronada. Aqueles que reclamarem por conta disso, estão por fora do contexto do filme. Não é apenas mudar por mudar. É recriar um personagem sob a ótica de um cineasta talentosíssimo. Guy Ritchie - que surgiu fazendo filmes de gângster e se estagnou por ali, não evoluindo para nenhum outro gênero - tem técnica de sobra e é um diretor clipeiro, ágil, contemporâneo. Por isso, acredito que há uma semelhança entre Sherlock Holmes e o novo Star Trek. Mesmo que a qualidade dos dois seja muito díspar, os dois tem o mesmo objetivo : Recriar um universo consagrado.
As mudanças já são observadas nas características dos dois personagens principais. O Sherlock original era um inglês sério, com um semblante calmo, o padrão do detetive. O novo é muito mais descontraído, descabelado, age muito mais em lutas, e está muito mais moderno. Ainda há, claro, suas ótimas características clássicas, como o fato de ser extremamente detalhista e dedutor. Inflando essa faceta do personagem, ele se torna muito mais cool e bastante interessante. Watson, por sua vez, que era um ajudante mais atrapalhado , agora é quem de certo modo segura a coleira de Holmes. Um novo olhar sobre os personagens, um olhar por sinal, interessantíssimo.

Na trama do filme , a dupla consegue capturar Lord Blackwood, um criminoso que sacrificava jovens mulheres, e sendo preso, ele é condenado a morte. Mas ele misteriosamente ressucita, e começa a por em ação um plano mais perigoso. Enquanto isso ocorre, Holmes se depara também com uma antiga ladra , Irene Adler(Rachel McAdams), que entra em seu caminho diversas vezes durante a investigação.

O roteiro de diálogos e falas é sublime. São falas rápidas, inteligentes do modo ágil que são aplicadas. Outra marca de Ritchie, que apesar de não escrever o roteiro, já falou que deu uma mudadinha no que estava no script junto com os atores . O roteiro estrutural em si, é interessante por um lado. A história não é contada no início da carreira da dupla. Muito pelo contrário, ela começa num período de ruptura , já que Watson está perto de seu casamento , vai se mudar de casa e parar de se aventurar com Holmes.

Entretanto, o resto não vai muito além do comum. Toda a base da história, que se alicerça em geral num mistério, não é a das mais inovadoras. Tudo bem, isso já era de se esperar, mas alguns escorregões na hora de desenvolve-la são feios . Não há um certo mistério em si. Há um vilão, que precisa ser detido, custe o que custar. O mistério está nas artimanhas que o vilão usa para se safar. Mas essas artimanhas já são, para aqueles que conhecem as desculpas dadas em filmes, conhecidas. Pelo menos eu, já sabia. Outro problema é o roteiro explicadinho demais, pelo próprio protagonista. É uma das marcas de Holmes, sem dúvida, mas na situação do filme, fica meio artificial. Além disso, o modo como Holmes detecta as pistas e como as revela não são convencionais, e não caem bem, principalmente num filme que tenta estampar a "modernidade" na cara. Já o resto, é muita ação, aventura e todo o resto. Meio dispensável nesse sentido.

Na direção, Ritchie demosntra segurança, e não perde em momento nenhum as rédeas do filme. Dirige muito bem, com alguns takes mais diferenciados, e alguma lembrança distante de seu hip-hop montage já usado em Snatch.Em alguns momentos, utuliza uma câmera mais padrão, como nos cortes das cenas de ação. Mesmo assim, em um outro corte nessas cenas, ele poe bons takes em locais interessantes. A câmera lenta, utilizada em duas ou tres sequencias do filme, é realmente interessante, visualmente ótima. Mas parece que virou moda usá-la depois que Zack Snyder fez, já que até James Cameron usou em seu Avatar.

A parte técnica me surpreendeu um pouco. A trilha do genial Hans Zimmer está estranha, mais enlatada até, escancaradamente inferior ao trabalho que fez em Batman por exemplo. A fotografia é boa, só peca nos momentos de maior escuridão. De resto, nos introduz numa Londres bem suja, e contribui na modernizada que o filme pretendia.

Sherlock Holmes perde muito, portanto, ao tentar fazer dinheiro e não disperdiçar essa chance por nada. A trama tem de ser explicada, uma continuação tem de ser feita, e tudo isso reduz o filme praticamente a um caça-níqueis de ação, que tinha muito mais potencial para ser desenvolvido. Sobram a direção e as boas atuações de Downey Jr. e Law. Mas Sherelock Holmes ainda tem utilidades fora da tela. Coloca o talentoso Guy Ritchie fora do seu carma criminoso, em outra atmosfera, agora testando orçamentos altos.

3 estrelas ***

domingo, 27 de dezembro de 2009

Psicopata Americano

Christian Bale e como ser carismático matando gatinhos.

Em 1991, um escritor chamado Bret Easton Ellis lançou um dos livros mais polêmicos da História. American Psycho horrorizou a todos, que o chamaram de doente, perturbador, ousado e inovador. A crônica com jeitão de filme indie chocou pois colocava um executivo rico, bonito, galante e... assassino. E um dos piores, daqueles que tem praticamente uma "Síndrome de Matar". Depois de Psicopata, Bret continuou escrevendo romances psicodélicos porém mais brandos. E eles foram adaptados pro cinema depois de Psicopata Americano. Curiosamente, com exceção desse, todos os romances de Bret foram adaptados pro cinema por Roger Avary. Em 2000, a Universal e a Lionsgate anunciaram que financiariam os 7 milhões de dólares de orçamento para a corajosa adaptação, que seria Rated R e ainda tinha um teor alto demais pra um filme comercial. Mas, graças a Lionsgate, corajosa disitribuidora, Psicopata Americano foi lançado nos cinemas com toda a sua violência e maluquice.

Na trama, Patrick Bateman(o brilhante Christian Bale) é um executivo de Wall Street. Vive num bom apartamento, tem uma conta bancária enorme, roupas de grife e todas as mulheres que ele precisar. Mas algo naquele mundo de aparências não o satisfaz: Ele não suporta seres melhores que ele e os destrói de forma insana e cruel. Patrick satisfaz seu vazio com um simples hobby: Matar todos que ele odeia. Quando ele comete mais um de seus crimes, ele começa a ser perseguido por Donald Kimball(Willem Dafoe), um detetive astuto e competente.
O interessante da trama é que o comportamento de Bateman é tão perturbador que no desenvolver da história, ele começa a afetar as outras pessoas, coisa que Bateman disfarçava com um cinismo incrivelmente engraçado. Seu mundo de aparências consegue provocar risadas nos apreciadores do humor negro. Essa trama tecnicamente policial se esvai ao longo do filme, que se demonstra um grande debate sobre a futilidade humana e seus delírios mais perturbados.

Nas partes técnicas, Psicopata Americano é excelente, apesar de tudo ser ofuscado pelo roteiro magistral e a atuação muito competente de Bale. A direção de Mary Harron é muito boa, até surpreendente. Sem fazer nenhum movimento espetacular ou uma tomada sensacional, Mary faz um trabalho bonito e acima da média. Mesmo sem colocar uma ferrenha identidade em sua direção, ela inova ao deixar os atores trabalharem e os filmar com elegância. Melhor assim do que tentar inovar e dirigir mal, como Stephen Sommers. A edição do filme também é bem curiosa, por mesclar momentos de delírios e realidade com precisão, sem deixar o público se situar na trama com clareza. Momentos que fariam um filme implodir, mas aqui colabora por ser um filme de psicopata. A fotografia de Andrzej Sekula é soberba, um primor. Com tons brancos na maior parte do filme, com tons sombrios em momentos mais dolorosos mentalmente. Competente fotógrafo, eu gostaria muito de saber onde está Sekula, afinal esse já é seu segundo trabalho magnífico, depois de Cães de Aluguel. A triha sonora de John Cale é bonita também, com tons clássicos orquestrados e uma seleção de músicas muito acertada. Mas, apesar da beleza, não há o que se surpreender com Cale. Num filme elegante e que retrata os ricos como Psicopata, era de se esperar uma trilha assim.

As atuações do filme são um fator importante afinal,teor pesado da produção, o protagonista devia ser um titã para segurar o papel. E devo dizer que Psicopata é feliz em sua escolha de elenco. Christian Bale se mostra um ator de primeira, demonstrando porque que ele foi escolhido pra ser o Batman. Ele arrebenta a cada cena difícil, fazendo o espectador acreditar mesmo sobre ele ser maluco. Os boatos que ele seria esquentado e destemperado com certeza vem de espectadores desse filme. E isso já bastaria pro filme ser excelente, mas as outras atuações conseguem ajudar o filme a se tornar um marco. Justin Theroux está canastrão ao extremo e atua com um profissionalismo enorme como Timothy Bryce, um dos amigos riquinhos de Bateman. Josh Lucas também convence como Craig McDermott, outro amigo de Bateman. Reese Witherspoon nada acrescenta á trama. Seu papel, o de noiva socialite/patricinha de Bateman é extremamente obsoleto. Reese atua como seu papel em Legalmente Loira, mas menos engraçado.
Jared Leto, o Paul Allen, não pode fazer muita coisa pelo seu tempo de tela pequeno. Willem Dafoe não se demonstra o excelente ator que é, mas atua bem para o papel do detetive. Afinal, ele não tem muita relevância na trama. Outro destaque bem positivo é Chloe Sevigny, no papel da secretária de Bateman. Sua atuação é natural e precisa, o que já basta para a trama. E é esse desprendimento com coadjuvantes que faz com que Bale seja um dos trunfos do filme. Apesar da boa escolha, o elenco secundário não precisar oferecer nada. Desde o primeiro frame está claro: O Filme é de Christian Bale.

O roteiro adaptado por Mary Harron e Guinevere Turner é inteligente, arrojado e, incrivelmente, engraçado. A cada frame, a escancarada crítica ás futilidades e desejos desnecessários da High Society se torna melhor. Em um determinado segmento do filme, Bateman está reunido com seus amigos e eles começam a discutir com seriedade... os cartões de cada um. Sim, aqueles cartões com seu nome e telefone. E, por inveja do cartão de um dos seus amigos, Bateman o mata por esse simples motivo. É o que motiva os invejosos a todo momento, mas elevado ao extremo. E o roteiro também é competente em demonstrar as partes de delírio de Bateman. Ver ele matando por prazer é algo fora do comum, que só poderá satisfazer os com o estômago forte. Em uma sequência, Bateman, no limite de sua loucura, pega um gato e tenta enfiar no caixa eletrônico. Quando uma mulher o vê e tenta repreende-lo, ele saca uma pistola e mata a mulher. Depois, sai andando normalmente. As audiências em massa não aguentariam mesmo algo desse jeito.
Por todo esse arrojo e humor negro da maior qualidade, o roteiro consegue ser o carro-chefe da produção. E somado a atuação de Bale, tudo fica interessantíssimo.

Com um nível de psicopatia acima da média, Psicopata Americano se demonstra um dos filmes mais estranhos da História. E um dos mais competentes, também. Juntando ele a Oldboy, temos uma lista de filmes que serão apreciados pelos amantes do bom cinema e das maluquices em geral. Recomendado para todo mundo que quer sair um pouco do Cinema comercial, do famoso blockbuster. Corra para uma locadora ou baixe em algum site. Esse filme deve ser visto até mesmo mais de uma vez.

Com certeza, será melhor que ver uma diversão descartável.

***** 5 Estrelas

sábado, 26 de dezembro de 2009

Clube da Luta

David Fincher faz uma epopéia lisérgica sobre o que é ser homem.

Existem alguns filmes que surgem em determinadas épocas e simplesmente revolucionam toda a indústria . Vão além do que era de costume ser feito no cinema e fazem um show tanto no visual como no seu roteiro. Laranja Mecânica, no início da década de 70, continha cenas de nudez completa, violência em demasia e uma temática que criticava o governo de forma aberta. A frente de seu tempo, sem dúvidas. Pela década de 80, teve Videodrome, que foi um real loucura, no bom sentido. Crítica a fome dos vídeos de da TV, uma ótima premissa. Na década de 90, uma década fraca e acomodada, a não ser pelo surgimento de Quentin Tarantino e outros eventos, não poderia deixar de ter sua obra lisérgica que modificaria a indústria e se tornaria cultuada. Surgiu, no final do ano de 1999, Clube da Luta.

Adaptado da obra de Chuck Palahniuk, Clube da Luta conta , após uma seqüência de créditos das mais estilosas já feitas, a saga de um jovem(que não é nomeado) empregado numa empresa automobilística (Edward Norton) que sofre de insônia pesada , e, para resolver esse seu problema, precisa ir a sessões de grupos de auto-ajuda de pessoas com câncer terminal(?!!). Quando vai, dorme como uma criança. E seguimos uma boa parte do filme ouvindo o narrador sem nome contar sobre sua vida. E, na maioria dos espectadores, ocorre o auto-reconhecimento. O personagem de Norton é o retrato, sem nenhuma caricatura, do homem daquela época da década de 90, que existe até hoje. Um espécime estressado, pressionado pelo chefe, que não consegue dormir nem relaxar, que é pressionado pelas mídias a comprar e comprar cada vez mais, e vê o foco de sua existência nos seus bens materiais.

Então, numa dessas viagens que seu trabalho exigia, dentro de um avião, ele conhece Tyler Durden (Brad Pitt) , um vendedor de sabão que era tudo o que o personagem de Norton não era : Calmo, relaxado, inconseqüente e completamente desligado das posses. Realizava coisas que o protagonista nunca pensara em fazer...Desde de ser um garçon que urina nas refeições até um editor de filmes que põe mensagens “subliminares”neles. Depois desta viagem onde se conhecem, quando o narrador volta pra seu apartamento, descobre que o mesmo explodiu. Então pede para ficar por um tempo na casa de Tyler. Lá, aprende , ou melhor, reaprende a ser um homem de verdade. Com muito mais desleixo e um espaço para um item essencial pros homens : a violência . É assim, começando apenas com uma pequena luta dos dois, que surge o Clube da Luta . Um lugar onde o importante não era vencer o adversário. O objetivo era liberar toda a fúria do homem moderno que foi aprisionada por convenções urbanas, a vida agitada e estressada, que praticamente “capou”os homens do mundo .

É nessa base de história que o roteiro se afixa. O redescobrimento do homem através do extravasamento de adrenalina e raiva . Como colocado no próprio filme de maneira genial, os homens dessa era são os esquecidos da história. Não tem um Guerra Mundial a enfrentar , não há pontos de escape para o lado animal masculino. Com o Clube da Luta, todo esse lado selvagem é posto pra fora, servindo de ajuda psicológica sem igual. Esse Clube, não deixa de ser o apoio emocional dos homens, assim como os grupos de auto-ajuda de pessoas de câncer eram no início do filme. Mas até quando esse apoio é benéfico e a partir de onde ele começa a extrapolar?

Como há um excesso de informação e referencias no filme, acredito que seja impossível adquirir tudo de uma só vez. É preciso, pelo menos, uma segunda assistida ao filme para que se possa digerir todo o bom conteúdo colocado em tela de forma completa.

Tecnicamente, Clube da Luta vira mais sensacional ainda. É fato que é um filme importantíssimo para a história do cinema em geral. A começar, pela sua direção. Algo de outro mundo. David Fincher foi a muito a frente de seu tempo ao escolher uma direção tão rápida , tão ágil. Um estilo completamente contemporâneo que é avançado até hoje. Seus takes que só contem efeitos especiais são tão bons quanto os outros com atores normais. Ele acompanha todo o acontecimento “de computador” como ninguém jamis fez. Ótimo.

Outra coisa explêndida é a trilha do filme, da dupla Dust Brothers. Uma música vibrante, moderna e com estilo ótimo. Dá o tom exato do filme, em momentos cômicos e dramáticos. Pra acompanhar o trabalho de música, a fotografia sublime de Jeff Cronemweth. Faz o estilo sujo e iluminado por diversa luzes da cidade grande. Sujo e urbano, algo maravilhoso e dificilmente repetido. A edição do filme também é ótima. Acompanha o ritmo acelerado da direção. Em atuações, o filme não deve nada. Helena Bohan Carter faz seu papel de maneira interessantíssima, e mostra que tem talento. Mas o espaço é mesmo de Edward Norton e Brad Pitt . O primeiro é engolido pelo personagem e o segundo dá vida a uma personagem completamente nova, e é o destaque. Como Pitt não ganhou o Oscar até hoje, não sei.

Clube da Luta é avançadíssimo e abalou os pilares dos anos 90. Tanto por sua história lisérgica, visual belíssimo ou direção magistral. É um filme muito a frente de sua década, de seu século,e merece ser admirado por gerações infinitas.

5 Estrelas *****

sábado, 19 de dezembro de 2009

Full Metal Jacket

A Estrutura do Exército sob o olhar de Stanley Kubrick.

Após o grande conflito que foi A Guerra do Vietnã, Hollywood não podia fechar os olhos para a grande fonte de material que aquele evento tinha. Uma guerra muitas vezes dita como sem sentido, sem efeito direto, que ia ser contada de diversas maneiras através dos anos, com Platoon, Apoclipse Now, entre outros. Em 1987, surge Full Metal Jacket, um filme sobre a guerra do Vietnã, todos os seus preparativos e detalhes, sob o comando de ninguém menos que Stanley Kubrick.

Com o talento de observar e contemplar o assunto , Kubrick nos dá uma das melhores obras de guerra já feitas, mas vai além . Não se encarrega apenas de mostar a guerra, pois tem outra missão : Mostar com riqueza de detalhes gigantesca, toda a máquina do exército americano, a Corporação dos Marines , cada engrenagem de lá e suas características durante um período em que funcionou intensamente, transformando jovens comuns em máquinas de morte e guerra.

O filme divide-se, portanto , em dois segmentos . O primeiro mostra com virulência e realidade o treinamento dos soldados, o que eles passam e o que aguentam. O segundo, a Guerra em si, o terror e estranheza que ela causava nos soldados. O primeiro segmento inicia-se de maneira rápida, sem a menor enrolação. Vai direto ao ponto de apresentação do instrutor de treinamento Sargento Hartman(R.Lee Ermey) aos seus soldados, após um rápido conjunto de cenas que mostram os jovens homens tendo a cabeça raspada, passando pela primeira transformação para o treinamento. Na apresentação ao sargento, os soldados começam a "experimentar" a vida no quartel. Nada de brincadeiras, obedecer ás regras , demonstrar seriedade e competência, respeitar o instrutor, e saber, que naquele estágio, não passavam de nada a não ser dejeto de anfíbios. A partir daí, vemos os pequenos detalhes do dia-a-dia do quartel, que vão desde o modo de ganhar os apelidos até os rituais de dormir com o fuzil. De fato, não poderia haver outro diretor a fazer isso melhor do que Stanley Kubrick. No espaço, muitos anos antes, no filme 2001, Kubrick demonstrava o apreço quase obcessivo a densidade negra do espaço, sem necessidade de falas, ou efeitos megalomaníacos. Em Full Metal Jacket, Kubrick vai acompanhando o desenvolvimento desses futuros Marines, sem pressa alguma, degustando cada etapa do duro treinamento. Treinamento esse, que são colocados o soldadados Hilário (Mathew Modine), Cowboy(Arliss Howard) e Pyle (Vicent D'Onofrio) . Após essa transformação duríssima em máquinas de combate, o filme trata de mostrar os soldados na guerra,no campo de batalha, onde por vezes sentem uma descrença no motivo do conflito e até uma certa frieza adquirida com a forte preparação.

O mais interessante na trama foi o modo de comparar os dois segmentos. No treinamento quase sobre-humano, em que os soldados eram pressionados ao máximo, cobrados a decorar os movimentos com destreza perfeita, ter uma displina mais que ultra-rígida, onde algumas pessoas simplesmente não suportam, e surtam. Essa é o que torna Full Metal Jacket tão especial e diferenciado. Se um ano antes Oliver Stone fez um filme que mostrava uma "guerra" entre oficiais dentro de um pelotão, Kubrick agora mostra um "Holocausto" criado nos quartéis com o objetivo de criar homens acima da média, que matam com a mesma facilidade que respiram. É aterradora a situação pscológica que alguns soldados enfrentam dentro do próprio quartel. E assim, quando chegam na guerra, não tem muita dificuldades, nem muita emoção. Parecem que vivem sem pegar o verdadeiro peso da situação. Todos ficam já "vacinados" após a vivencia nos quartéis. E esse é o mais intrigante : A experiência que nos é compartilhada nos quartéis é mais amendrontadora, até, do que nas próprias batalhas reais. Mas a guerra sempre prega peças, e estar imune a tudo se torna impossível. Nesse filme, o ritmo só cai durante o segundo segmento, mas isso ajuda a formatar a idéia geral da trama que era preciso ser passada.

A direção de Kubrick aqui é tão explêndida quanto de costume. É sem dúvida o diretor mais visionário que já existiu, fato. E ele realiza seus takes maravilhosos com simplicidade incrível. Usar os trilhos para acompanhar um ator que anda calmamente por um dormitório enquanto discursa pode se tornar algo fora do normal com o registro contemplativo /observador de Kubrick. Observar uma cena onde um esquadrão adentra um território com as táticas de sempre fica muito mais interessantes quando se coloca uma câmera baixa, imediatamente atrás dos atores.Mostras o modus operandi metódico do exército passando excessivamente pelo meio de suas rígidas filas de soldados é mostrar com imagens, algo que talvez palavras não fossem sufucientes para mostrar. A trilha sonora foi muito bem composta pela filha do diretor, Vivian Kubrick. A trilha montada tem músicas próprias da época, como a que abre o filme, e outras mais agitadas, que dão o tom do filme muito bem. A trilha composta tem tons de suspense ótimos, que realmente tocam no espectador.

As atuações são também soberbas . Mathew Modine interpreta bem e merece menção. Vicent D'Onofrio arrebenta em seu papel, que talvez seja um dos mais difíceis de se realizar no filme. Mas o destaque vai para R.Lee Ermey. Esse militar que nem era ator, estava no filme como consultor para como se treinar os soldados, e após fazer uma demonstração pessoal em um vídeo, o diretor Stanley Kubrick ficou impressionado e resolveu contrata-lo para o papel. E vemos no filme que Kubrick fez o certo. O realismo não podia ser maior. Ermey não pisca em cena, olha com firmeza inimitável para os atores, grita e age como o Sargento Hartman de maneira única. Apenas sua atuação já vale o filme. Foi até injusto receber uma indicação para o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante. Deveria ser indicado logo ao Oscar!

De maneira sublime e quase irretocavelmente, Full Metal Jacket nos transmite a sensação de realismo da guerra como da visão de um soldado. Pelo menos até hoje, foi o mais próximo que um filme já chegou, nos introduzindo de vez no real universo militar. Vemos cada etapa da preparação de um matador, desde seu treinamento até sua ação nos campos vietnamitas. O motivo da guerra, não importa mais durante ela. Ela é mais dura do que qualquer um poderia pensar,mais do que qualquer um poderia se preparar.Sair vivo dela já é, para muitos, um alívio.

5 Estrelas*****