Old School Nerds

Old School Nerds

sábado, 13 de fevereiro de 2010

O Lobisomem


Remake demonstra bom resultado, com forte importância nos dias de hoje.

Ná década de 40, surgiram nos cinemas a fase dos ‘‘Monstros da Universal’’. Os vampiros, lobisomens e toda a gama de personagens gore tiveram seu apogeu nas telonas, e suas obras são, hoje em dia, considerados clássicos, e servem de base para a concepção de todos os personagens em questão. Entretanto, apesar da existências desses clássicos, várias obras bem recentes conseguiram desfigurar a cultura dos mosntros . Sim, pois sub-produtos como Crepúsculo nada mais são do que uma grande e feia cicatriz na face sangrenta de vampiros e lobisomens.

Não só por seu modo de contar história completamente avesso a boa e velha tradição, essas obras deturpam as características dos consagrados personagens . Ora, os lobisomens do filme Crepúsculo nada mais são do que grandes lobos, que surgiram a partir de mocinhos que adoram tirar a camisa. Graças a Deus, a história do cinema agora nos dá um alívio . Nessa geração onde reboots e remakes são concretizados aos baldes, a Universal decidiu ressuscitar seus velhos monstros, e o primeiro a ser lançado é O Lobisomem.

Logo ao ser confirmado, o longa gerou óbvia ansiedade. Com o elenco poderoso e competente contratado, as expectativas aumentaram muito. E tudo ia muito certo para a produção de Lobisomem. A única supresa negativa na espera pelo filme de Joe Johnston foi um problema na hora de editar o longa. Uma complicação na hora de definir qual seria o design do personagem (como ele se moveria) e alguns problemas na hora de monstar o longa fez os produtores recorrerem ao mestre da montagem(Walter Murch). Isso tudo 5 semanas antes da estréia mundial.

Entretanto, nenhum desses problemas é perceptível,e não atrapalha o andamento de Lobisomem. A trama, baseada na Inglaterra Vitoriana, conta a história de Lawrence Talbot(Benício Del Toro), um ator de teatro que retorna a mansão de seu velho pai (Anthony Hopkins) após o desaparecimento de seu irmão Ben, que era casado com a bela Gwen Conliffe( Emily Blunt). Quando chega, Lawrence recebe a notícia de que seu irmão foi encontrado já morto, em condições misteriosas. Ao tentar desvendar o caso, Lawrence se depara com a criatura e é mordido, dando continuação a estranha maldição que sua família sofre.

O roteiro não é uma pérola em criatividade no geral – A história é basicamente a clássica, e não poderia se esperar algo muito revolucionário aí – mas gera situações interessantes com seus personagens e consegue prender o espectador com um vigor e tanto. Isso se explica principalmente pela falta de enrolação que o filme nos mostra. Nada é introduzido pra encher a linguiça e ganhar tempo, como no ruim e recente Atividade Paranormal. A cada sequencia que desenvolve de maneira boa os seus personagens, há sequencias com o bicho, mutilando aos montes. Nada é colocado em excesso – a criatura aparece moderadamente na tela, pelo menos – e nada também falta. O único problema com o roteiro são algumas derrapadas nos clichês. Frases feitas e algumas passagens mais regurgitadas - principalmente com a personagem de Blunt – tiram uns pontos do filme.

A direção de Johnston é boa, mas não vai muito além disso. Captura tudo sem confundir o espectador, tem seus momentos mais modernos e estilosos. Mas isso são por alguns momentos. No resto, Johnston opta por um estilo mais padrão. Na ação, aliás, o diretor se mostra também muito a vontade, criando cenas ótimas . O filme, em si, poderia até ser comparado com a atuação do diretor – Nos envolve e nos faz apreciar, prova que é acima da média, mas não merece nota máxima.

A fotografia também agrada bastante, e merece uma comparação com outro filme que retrata a Inglaterra Vitoriana, mas de maneira mais moderna. Sherlock Holmes , que tem uma forografia ótima, e só deixa a desejar nos momentos de maior escuridão. O Lobisomem, por sua vez, tem um ponto melhor. Sua paleta, apesar de bela, é normal, não busca cores muito diferentes do tradicional. E não decepciona nos momentos escuros. Consegue mostrar tudo o que acontece nessas situações.

A edição é competente, prova de que a mão salvadora do experiente Walter Murch conseguiu consertar o que havia de pendente e dar qualidade vistosa no quesito. Já a trilha trabalha normalmente. Aumenta em momentos-chave de susto, e só. As atuações de Del Toro e Hopkins também contribuem muito. Talentosos, conseguem dar uma profundidade aos seus persongens e seguram de forma impressionante.

No final das contas, O Lobisomem se destaca por reeditar um clássico de maneira muito competente. Sua principal importância porém, é trazer a cultura dos monstros DE VERDADE de volta. Ver um homem-lobo estripando pessoas nos dias de hoje é sensacional. O Lobisomem pode não ser o filme gore de sua vida– e passa longe disso - mas ve-lo nos cinemas da atualidade é de um luxo imenso.

4 Estrelas **** Nota - 7,o

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Guerra ao Terror

Kathryn Bigelow ressurge. E como uma das melhores.
A diretora Kathryn Bigelow foi muito famosa na transição dos 80's pros 90's, com Caçadores de Emoção, cult-sessão da tarde estrelado pelo saudoso Patrick Swayze e Keanu Reeves. O filme era um descartável exercício de diversão e Bigelow nada fazia para ser reconhecida pela direção, tudo bem normal. Era mais famosa até por ser esposa do pré-Oscar James Cameron. Logo depois de Caçadores, Bigelow não fez mais nada de importante mesmo. Mas em 2009, ela apostou numa produção independente com orçamento de 11 Milhões, sobre a guerra no Iraque. Logo depois de estrear, Guerra ao Terror foi ganhando uma repercussão incrível e enorme, sendo elogiado por todos. Aqui no Brasil, o filme lançou primeiro em DVD(a Imagem Filmes deve estar se mordendo agora) e passou batido. Mas, depois de tanto hype, o filme chega aos cinemas aqui. E com um status enorme: Senão bastasse ter sido glorificado por sites respeitados como o Rotten Tomatoes(que deu 97%), Guerra já vinha ganhando prêmios importantes pelo mundo todo e, em 2 de Fevereiro, foi indicado a 9 Oscar. Era Kathryn Bigelow voltando ao estrelato e agora agraciada pela crítica. Mas fica a dúvida: Guerra ao Terror é tudo isso mesmo? Vale a pena?

A resposta é mais que clara: Sim. E vale torcer por ele para vencer o Oscar porque é o que tem mais chances, ao lado do bom Avatar.

A trama, contada de forma pouco vista e nada convencional, acompanha um grupo de soldados no Iraque. Eles estão lá para andar de quarteirão em quarteirão com o objetivo de desarmar bombas, conter pequenas ameaças armadas ou apenas ficar explodindo armamento desnecessário. Até que esses 3 soldados vão desarmar uma bomba comum e acabam se deparando com um terrorista, que dispara ela, matando um deles(Guy Pearce). Assim, um substituto chamado William James(Jeremy Renner) entra no lugar para comandar a equipe, também formada por Sanborn(Anthony Mackie) e Eldridge(Brian Geraghty). Enquanto eles realizam suas atividades até completarem seu turno no exército, cada um deles vai demonstrando seus medos e ambições.
A narrativa do filme se desenrola assim, com um desenvolvimento diferente e que entrega mais construção de personagens e situações do que uma trama de suspense propriamente dita. Nisso, a rotina da guerra é valorizada e as reviravoltas que os estúdios e massa tanto anseiam, não aparecem. O foco aqui é no realismo.

Tecnicamente, Guerra ao Terror é impressionante para seu parco orçamento. A direção de Bigelow, indicada ao Oscar, é alucinante. Lembrando o jeito de Paul Greengrass, Kathryn filma a ação com cortes bem rápidos e bem utilizados. E tudo isso num estilo bem de guerrilha, com a tensão sempre lá em cima. Curiosamente, apesar dos cortes serem rápidos, a direção de Bigelow é fácil de acompanhar, com uma direção de atores excelente. Até nas parcas cenas fora da Guerra, ela dirige bem. Aqui, ela foi merecidamente reconhecida porque essa é uma das 3 melhores direções do ano, talvez a melhor. Agora, fica a espera por um próximo trabalho dela. A edição de Chris Innis e Bob Murawski auxilia de forma precisa o estilo agressivo de Bigelow filmar. A agilidade imposta é soberba e merece ser premiada esse ano. Ela é um dos grandes atrativos visuais do filme(e não são poucos). Alguns cortes rápidos que a edição introduz são soberbos. Como o filme não tem uma fixa estrutura narrativa, a edição coloca com perfeição transições de tempo grandes, como quando uma bomba é desarmada. O corte pula para outro frame com agilidade pouco vista esse ano.
Outro primor, digno de uma premiação(apesar de Eric Steeberg ter feito um trabalho melhor em 500 Dias com Ela) é a fotografia. Barry Ackroyd fez um trabalho fabuloso, fotografando a guerra como ninguém. Os tons mais amarelos, valorizando o ambiente quente e desértico é fabuloso, extraindo imagens pós-modernas com arrojo e segurança. Aqui, a fotografia é bem parecida com a de Trent Opaloch em Distrito 9, outra peróla em quesito fotografia. Merecidamente, Ackroyd ganhará esse Oscar.

Um fator estranho desse filme, curiosamente, foi indicado ao Oscar: A trilha sonora. Marco Beltrami e Buck Sanders resolveram valorizar o realismo aqui e deixaram a mixagem de som e edição trabalharem, construindo trilhas minimalistas e em poucas oportunidades, visando apenas fortalecer a tensão do filme. Mas, todos agraciaram a trilha de forma bem esquisita, afinal, a trilha pode até ter qualidade quando exigida, mas ela é MUITO pouco exigida. Enfim, é um ponto positivo pro filme como um todo, mas isoladamente é bem estranho(ainda mais pela indicação). A edição de som e a mixagem do filme são fantásticos e os pontos mais profissionais do filme(com exceção da direção). Empolgantes e bem realistas, eles ajudam o espírito do filme. A direção de arte também é boa, mas perde em relação aos outros quesitos técnicos. Apenas um pouco acima da média, fazendo o habitual em filmes de Guerra.

As atuações de Guerra ao Terror são muito dignas. Jeremy Renner, antes ator coadjuvante de filmes médios, aqui ganha a chance de sua vida. Ele pega um papel arquetípico em um filme independente e se transforma num personagem como nunca visto, alguém diferente, de forma que a abordagem recebida ficou melhor. Logo, a indicação ao Oscar de Melhor Ator veio e digo que é muito justo. A transformação de Renner em James é tocante e corajosa. Junto a ele, os coadjuvantes fazem bonito. Anthony Mackie, o Sanborn, atua muito bem. Eu até o indicaria-o para Ator Coadjuvante. O pouco conhecido ator(como a maioria, exigência de Bigelow, em prol do realismo) arrebenta e exala veracidade. Brian Geraghty, o Eldrigde, acrescenta uma boa atuação ao elenco, acima da média. Mas nada parecido com as poderosas facetas criadas por Renner e Mackie. Fora eles três, é difícil falar de Guerra ao Terror. Afinal, os conhecidos David Morse, Guy Pearce e Ralph Fiennes tem papéis míseros e de pouco destaque. E os outros são apenas figurantes relacionados a guerra. Então, funcionando como um perfeito ensemble cast, Guerra ao Terror apresenta um dos conjuntos de elenco mais completos do ano.

O roteiro de Mark Boal ajuda a veracidade que o filme quer impor. O ex-jornalista, sempre baseado em áreas de combate, estudou bastante do tema e isso dá pra ver com facilidade nas situações críveis e nos diálogos precisos que foram escritos. E a direção de Bigelow ainda ajuda esse espírito, dando um ritmo tenso e quase documental pro filme. Foi uma combinação perfeita, afinal, é difícil achar uma maneira completa de filmar um roteiro tão complexo e inovador. Inovador, eu digo, pela estrutura que Boal usou para construí-lo. O filme não tem uma trama definida ou linear, ele segue a equipe de James desarmando bombas e lidando com situações cotidianas, como um ou outro rebelde iraquiano armado. Por isso, não há um clímax definido e não há as explosões finais, reviravoltas de roteiro ou até mesmo uma ou outra situação de blockbuster. Em Guerra ao Terror, a estrutura valoriza o ambiente e a Guerra, que moldam o homem. Guerra moldando o homem... Ta aí um conceito bem explorado pelo roteiro, que vai da frase inicial do filme(A Guerra é um vício) até o final, quando o roteiro preza pela transformação e construção final de personagem. O motivo pelo qual James encara aquilo tudo é corajosamente bem abordado e absurdo tamanha a situação que o filme joga na nossa cara. No meio de todo aquele caos, ainda há gente que goste.

Num conceito geral, Guerra ao Terror pode não ser o melhor filme de guerra já feito. Mas, sem dúvida, é o que mais nos trata como espectadores reais da guerra. Aqui, sabemos dos horrores dela sem pudores e sem censura. Talvez Guerra não seja carismático como Soldado Anônimo, não seja divertido como Falcão Negro em Perigo, não seja tão aclamado quanto Apocalypse Now, nem tão bom quanto um Bastardos Inglórios. Ele é o que nos trata com mais inteligência, nos mostra com precisão o que uma guerra é, o típico filme que é visto superficialmente como filme-denúncia, mas no âmago é um filme sobre os homens e seus vícios. Um filme memorável, que usa a Guerra, o ambiente, o clima e até mesmo um traje(o tal Hurt Locker do título original) para mostrar que homens só são homens quando estão guerreando. E essa questão abordada é linda. Guerra ao Terror nos faz um grande questionamento no final: Seria mais verdadeiro o homem com uma arma na mão, numa Guerra, ou com uma faca na mão, cozinhando com sua família?

Bigelow e Boal jogam na cara a realidade de vários homens no mundo. E se no final o choque é grande, não se preocupe. Não é sempre que a guerra é mais importante que um bebê.

PS.: Imagem Filmes, tenha mais cuidado com o modo que você lança seus filmes. Uma pérola como essa, direto em DVD, é no mínimo estranho. E coloque os atores principais na capa do DVD, não os mais famosos. Chega a ser até absurdo o fato dos 3 atores na capa aparecerem, somando, 4 minutos no filme. Por favor né...

***** 5 Estrelas

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Zumbilândia


Outro olhar aos zumbis - Comprovando de que estão mais vivos do que nunca !

Filmes de Zumbi são hoje em dia um sub-gênero formado : Tem uma grande variedade e tipos de criações, com um mestre sagrado responsável por sua criação : George A. Romero. Indo desde o terror concretizado até a comédia, poderia dizer que Zumbis são um gênero em si, e não um derivado. Os grandes responsáveis por isso são os vários diretores e roteiristas que fazem questão de inovar sempre a trama, criandos resultados finais brilhantes . Zumbilândia ,é , com certeza, uma das provas concretas de que os Zumbis estão bem vivos - e não erram nos seus filmes.

A história de Zumbilândia é bem simples, porém longe de simplória ou fuleira . Conta com vários recursos modernos e interativos para contar sua trama, e isso se encaixa muito bem, dando uma áurea muito mais original a um filme que podia ser vendido como diversão barata apenas. E ele está a quilômetros, muitos quilômetros de distância disto. Como todo o filme de zumbi, fala sobre um infestação de um vírus por todo o mundo, mas aqui o foco é nos EUA. Porém, diferente de um Madrugada do Mortos, remake de Zack Snyder do clássico antigo de Romero, Zumbilândia não vai ao drama de quem fica vivo e isolado, - o ponto dos filmes de Romero - mas procura um meio muito mais cômico e sacana de mostrar os zumbis. Desde as imagens até a refêrencia dos personagens que passam pela tela apenas segundos. Mas também não é como Shawn of The Dead, do inglês Edgar Wright . O clima de Shawn of the Dead é de comédia? Sim. Mas vai mais além, pois tem um ponto dramático maior e mais intenso. O mérito do filme de Ruben Fleischer não é superar a genial obra inglesa - até por que não supera - mas abordar de uma forma muito descarada esse tema.

Toda a técnica também contribui para essa didática animada e engraçada do filme . Os créditos iniciais são em câmera lentíssima de alta definição, e mostram cenas cotidianas do universo zumbi : Casamentos, Fugas com crianças e muito sangue e tripas balançando lentamente causando gargalhadas incontáveis na platéia. Fora isso, Fleischeir não faz muito além do normal.Dá pra falar que o estreante poderia ter feito mais . Sua maneira de contar histórias não é ruim. Não perde nada, utiliza cortes rápidos , mas não vai além da barreira do muito bom. Takes mais ousados não seria pedir demais, mas considerando que é seu primeiro trabalho, podemos dizer que está mais que perfeito. Toda a equipe por trás das câmeras também trabalha com louvor . A edição está perfeita, e a trilha sonora deixa o filme com um patamar cool como poucos.

Mas , falando a verdade, tudo isso citado acima está de certo modo ofuscado pelo marvilhoso roteiro da dupla Paul Wernick e Rhett Reese . A história aborda o nerd nominado apenas como Columbus (Jesse Eisenberg) que diz desde o principio que só conseguiu sobreviver ao mundo repleto de zumbis comedores de carne humana respeitando a suas regras. Tirada genial da espirituosa dupla. Toda a introdução mostra por que devemos respeita-las .E essas famigeradas regras são sensacionais. Básicas na sobrevivencia no mundo zumbi, e algumas já até conhecidas do público acostumado com filmes de zumbi. Depois disso, nos mostra como o protagonista conhece Tallahassee(Woody Harelson) um bad -ass que tem como dom matar zumbis. Se unem para seguir viagem adiante até o leste . Nesta viagem, acabam encontrando as irmãs Wichita (Emma Stone) e Little Rock (Abigail Breslin), em situações peculiares , e elas se unem a dupla.

O roteiro estrutural é muito bem criado por sua simplicidade . O grupo que se forma está muito mais preocupado em matar zumbis e fugir deles com piadas inteligentes do que ter um drama mais aprimorado nas suas relações.Sobram maneiras interessantes de se explorar o tema :Usar armas exóticas(como um cortador de grama), roubar carros abandonados, esmigalhar zumbis e falar sobre isso sem pudor de pegar uma censura rated R . Junto a isso, temos a maneira genial de apresentar as situações engraçadas sob narração em off de Columbus. E o filme cria , de um modo nada forçado, seu próprio universo - O fato dos protagonistas se conhecerem apenas pelos nomes dos lugares aonde se destinam, não por seus nomes reais, para evitar a intimidade em demasia, sedimenta a situação psicológica que os vivos estão . Os títulos de morte de zumbi da semana e os vícios dos personagens só reafirmam isso - algo deveras bem elaborado. É preciso, claro, citar uma das passagens mais engraçada do filme : A parte em que aparece Bill Murray. É roteiro inteligente que nos faz pensar "Como nenhum cineasta não pensou nisso antes ?" É nessa passagem aliás, que se concentram as maiores referencias pop do filme.

E a construção de personagens ajuda bastante também. O personagem Columbus nos dá uma familiaridade enorma, e a identificação com ele é instântanea. O modo familiar vem provavelmente da semelhança com Michael Cera(quase gêmeo do protagonista), e seu modo nerd de ser . Talahasse também é carismático ao extremo, e a atuação majestral de Harelson só constribui para o personagem. As duas meninas atuam também muito bem, com Emma Stone se destacando principalmente pela beleza estonteante.

Zumbilândia pode não ser perfeito. Mas chega bem perto, pelo menos. Não é o filme de zumbi deste século - não tem o refinamento de tão alto nível como o de Shawn of the Dead sem dúvidas- mas nos ajuda a conceber a idéia de que os Zumbis são um ótimo tema, tanto para entreter de forma escapista quanto para encher os olhos de um crítico que goste de filmes com humor refinado e roteiro de ótimo gosto . Que venham mais!

5 Estrelas *****

Nine

Rob Marshall encanta, mas apresenta inconstância.

Em 1982, Arthur Kopit escreveu um livro baseado no clássico dos cinemas 8 e Meio, de Federico Fellini. Logo, seu livro virou uma peça chamada Nine. A peça virou sucesso na Broadway e logo foi se espalhando pelo mundo inteiro. Então, como qualquer grande sucesso de outras mídias, Nine atraiu os olhos de Hollywood e logo foi adaptada. Os roteiristas responsáveis pela adaptação foram Michael Tolkin e Anthony Mingella. Mingella, infelizmente falecido em 2006, foi um dos maiores escritores/diretores recentes, sendo responsável por excelentes filmes como O Talentoso Ripley e O Paciente Inglês. Logo, a expectativa ficou altíssima. Mas, há um porém. Fazer um remake de um verdadeiro clássico do cinema mundial é bem complicado e sempre é digno de desconfiança. Com essas contradições, Nine virou uma incógnita na cabeça dos cinéfilos. Mais tarde, foi divulgado o diretor. Rob Marshall, diretor do premiadíssimo Chicago e famoso na Broadway por inúmeros espetáculos, iria comandar o set. As mulheres lindíssimas e Daniel Day-Lewis no elenco pendiam a balança para algo positivo.
Mas, infelizmente, é fácil constatar que Marshall errou a mão e fez um filme descontrolado, descompassado. Indeciso sobre sua natureza e até mesmo sobre seu lado emocional, Nine decepciona, mas não afunda.

A trama, conhecido do público mais velho e mais apreciador do cinema, conta a história de Guido Contini(e não Anselmi, como em 8 e Meio), um cineasta italiano que tem um grande filme nas mãos, com o ambicioso título Italia. Sets prontos, profissionais contratados, coletivas de imprensa. O pacote todo de divulgação já está sendo realizado, mas há um problema: Ás vésperas das filmagens, Guido tem um bloqueio, está completamente sem inspiração e sem uma palavra no roteiro. E seu produtor começa a pegar em seu pé para iniciar logo as filmagens. Então, desesperado, Guido começa a buscar inspiração nas mulheres de sua vida: Sua mulher Luisa(Marion Cottillard), sua amante Carla(Penélope Cruz, lindíssima), a atriz e sua musa inspiradora Claudia Jenssen(Nicole Kidman), Sua figurinista(Judi Dench), uma jornalista americana(Kate Hudson) e até mesmo sua falecida mãe(Sophia Loren). E o filme se arrasta nessa jornada, da qual Guido fica cada vez mais desesperado e triste. Tudo então é entregue sem surpresas e com um ritmo bem mais lento do que o habitual, mesmo se tratando de um filme dramático. E talvez esse seja o grande problema de Nine: A falta de apego ou sentimento.

Nas técnicas, Nine é soberbo, muito lindo e bem-realizado, digno de alguns Oscars técnicos. A direção de Rob Marshall é segura e bem feita. Nas partes dramáticas, Marshall não extrapola e conduz bem o filme, com uma excelente direção de atores. Nas partes musicais, ele se solta. Tudo é profissional, com extrema qualidade de filmagem. Seus números são bonitos de se ver, empolgantes e muito bem montados, demonstrando a especialidade de Marshall. O único dos musicais que ficou ruim foi Be Italian, com Fergie. Mal dirigido e com uma música fraca, o número simplesmente não empolga. Mas tudo é compensado com Cinema Italiano, com Kate Hudson. Inegável perfeição. A edição de Claire Simpson e Wyatt Smith é excelente e bem realizada. Impondo um ritmo ágil nos musicais e seco nos dramas, a edição até ofusca um ou outro erro de Marshall.
A trilha composta de Andrea Guerra é mediana. Pode até empolgar com algumas melodias divertidas, mas é extremamente desconexa e descompassada. Em alguns momentos, Andrea introduz uma música á la Danny Ocean no núcleo mais cômico-cool. Estranho, porém médio.
Já a fotografia de Dion Beebe, colaborador frequente de Michael Mann, é soberba e perfeita. Merece sem dúvida o Oscar desse ano. É daquelas fotografias que fazem os olhos brilhar. Com tonalidades mais escuras e condizentes com o clima italiano, a fotografia é fantástica, o ponto alto. Outro ponto alto do filme é a direção de arte. Os cenários de época do filme são recriados com perfeição e obsessão. Outro ponto que merece, pelo menos, uma indicação ao Oscar.

Num musical como Nine, alguns espectadores mais mainstream procuram saber se as músicas são boas ou empolgantes. E quer saber? Sim e Não. Maury Yeston compôs músicas bem engraçadas pela sua própria letra mesmo. O jeito com que elas são introduzidas no filme é excelente e muito bem realizado. Até mesmo inovador. Certas vezes, as músicas representam os sentimentos de Guido e outras apresentam algumas falas cantadas, mas tudo fantasioso, na mente de Guido. Interessante. Mas há alguns erros. Isoladamente, as músicas são estranhas por seu conteúdo vazio. Cinema Italiano, por exemplo, é extremamente empolgante, assim como Folies Bergères(muito bem filmada). Mas Be Italian é desnecessária e mal-feita, a própria Cinema praticamente nada tem a ver com o filme e o início, com apresentação a todas as divas do filme, é bonito porém igualmente vazio. Assim, fica empolgante, mas não tão bom. Num DVD de Clipes, as músicas devem valer a pena. No filme, elas apenas divertem e entretem de forma segura. Apenas as melodias dos sentimentos de Guido e da fantasia dele com Penélope Cruz valem realmente a pena. Mas acredito que assim que exigem de um bom musical. Mas, sinceramente, acho que o gênero musical já foi bem mais explorado no cinema(Moulin Rouge é uma máxima).

Nas atuações, Nine é caprichado. Daniel-Day Lewis demonstra mais uma vez o gênio que é e encarna um bem construído Guido. Mas, é um Guido diferente do de Mastroianni. Aqui, Lewis exalta a falta de segurança e os amores de Guido pelas mulheres. Em 8 e Meio, Mastroianni se focava em fazer um homem forte porém "talentosamente debilitado". Então, se o objetivo é reinventar o personagem, Lewis faz um ótimo trabalho. Marion Cottillard, a atriz com mais tempo de tela junto a Lewis, arrebenta. Faz mais um excelente trabalho e demonstra todo seu talento que a fez ganhar o Oscar 2007 por Piaf. Apesar de ser uma comparação estranha, acho válido dizer que aqui ela esbanjou a qualidade que não pode em Inimigos Públicos, por seu pouco tempo de tela. Sua Luisa é uma mulher de garra, bem feita, bem construída e provocativa. E... bem insegura. Ponto pra atriz, que poderia figurar nas indicações no Oscar. Judi Dench faz um papel bem mínimo, mas demonstra um belo talento. E até mesmo canta(formidavelmente). Penélope Cruz é outra que tem aqui um espaço limitadíssimo de tela, mas mostra a mesma competência de sempre. Até mesmo quando é exigido seu número musical, ela não faz feio(apesar de uma desafinada grande no final...).
Sophia Loren também atua bem, numa clara homenagem a diva italiana, que aparece em três ou mais cenas, mas até canta bem. Mas há certos pontos bem curiosos nas atuações de Nine. E eles respondem por Kate Hudson, Fergie e Nicole Kidman. Kate, atriz competente e dona de uma voz surpreendente, faz duas cenas no filme. E, faz Cinema Italiano. Chega a ser constrangedor o fato de apontar Kate no cartaz como uma das protagonistas. Fergie também faz duas cenas e Be Italian, mas pelo menos estava claro que a aspirante a atriz nada faria ali. E Nicole Kidman, a maior estranheza de Nine. Vendo um excessivo orçamento de 80 milhões, fico imaginando porque não deram 10 reais pra uma atriz iniciante bem bonita fazer o papel de Kidman. Apagada, ofuscada e em pouquíssimas cenas, Kidman faz seu pior trabalho. Novamente, só vale seu número musical, muito bem cantado(impossível não lembrar de Moulin quando a linda atriz solta a voz). Um talento desperdiçado.

O roteiro de Nine é onde reside seu maior problema. Os roteiristas criaram uma boa trama com uma boa base, mas seu desenvolvimento é precário e bem falho. As falas e narrações em off dos personagens explicam as imagens com frequência(uma coisa bem incomum para um drama) e ainda não são refinadas. O ritmo do filme também é outro problema. Lento e sem propósito, o ritmo é desnecessariamente arrastado. E ainda há algumas falhas bem curiosas, como por exemplo a indecisão do filme. Em momentos, ele é uma comédia. Logo após, muda arruptamente para um drama pesado. Depois, musicais entram na tela. Uma coisa é uma premissa agridoce, que promete um certo gênero cômico-dramático. Outra coisa é um filme descompassado e indeciso que tem momentos excelentes mas se perde ao tentar se levar a sério demais(ou de menos). Isso acaba tornando Nine uma incógnita, um paradoxo, um filme sem sentimento. O cômico que se leva a sério ou o drama que tira sarro. Uma pena um roteirista tão metódico quanto Mingella ter cometido esses erros.

Divertido e com seus altos e baixos, Nine cai no lugar comum. Torna-se só mais um produto encomendado pra Oscar mas que decepciona. E acredito que se a expectativa do resenhista que escreve aqui não fosse baixa, o filme teria um gosto muito amargo na boca. Mas, já dava para esperar de Nine um filme assim: Corajoso porém comum. Definitivamente, nenhum diretor dramático ou alguns números musicais salvam um roteiro que precisava de uma mínima polida antes de sair do forno. Uma pena. Mas fica o recado: Espere pouco e você terá um filme bonito, bem feito e um musical empolgante. Se esperar Oscar, sairá meio mal da sala. Nine reflete bem o que Nicole Kidman foi no filme: Um talento desperdiçado.

*** 3 Estrelas

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Dr. Strangelove

Stanley Kubrick exibe sua genialidade em uma diferenciada comédia.

Dr. Fantástico é um clássico. É uma das obras mais geniais de todos os tempos e um dos filmes mais amados pelos cinéfilos mundo afora. E é um ponto interessante a se notar que é o gênio Stanley Kubrick testando o terreno da comédia, algo totalmente diferente de seus filmes anteriores(e até mesmo dos posteriores). Mas Kubrick não criou esse divino filme sozinho. Ele teve visão em enxergar um ótimo material pra roteiro no livro de Peter George. E ainda inovou em tirar sarro do espírito de thriller do livro. Além disso, Kubrick teve ajuda do magnifíco Peter Sellers, comediante consagrado que faz aqui três papéis(!!!) e dá sua contribuição pra história. Em 64, Kubrick fez algo excelente em criar um filme de 1.8 milhão que tem pouco apelo ao público, o que facilita até mesmo ao estúdio. E, vale dizer também que Dr. Fantástico não é nem um pouco datado. É um filme bem inteligente sobre o contexto da Guerra Fria e retrata o quão incrível(e idiota) um homem pode ser com muito poder em mãos. Kubrick debocha disso e faz um humor negro bem ácido.

A trama, costurada com o esmero habitual do diretor, aborda vários personagens. Ela começa com pilotos em um avião cheio de bombas atômicas. Esse avião é acionado pelo General Jack D. Ripper(Sterling Hayden) para bombardear a Univão Soviética. Jack, no ápice de sua loucura e ultra-patriotismo, diz todos os seus planos e pensamentos para seu companheiro, Capitão Lionel Mandrake(Peter Sellers). Do Pentágono, vários homens reunidos tentam planejar como vão tirar os aviões do ar e impedir um holocausto nuclear. Nesse verdadeiro caos, o presidente Merkin Muffley(Peter Sellers) precisa bolar uma estratégia com o General Buck Turgidson(George C. Scott) para comunicar aos russos que os aviões estão indo ao seu território. A partir daí, começa uma tensão que envolve até mesmo o físico nuclear Dr. Strangelove(Peter Sellers, de novo).
Mas, apesar da intrincada trama, tudo é tratado com um humor refinado e até mesmo negro. Não se espante se você rir ao saber que soldados foram mortos ou se ver um homem preso a uma bomba nuclear. É exatamente o que Kubrick quer, nos tratando como público inteligente.

Tecnicamente, Dr. Fantástico é belo e muito bem cuidado. A direção de Stanley Kubrick é certeira e calma, como sempre. Aqui, sua assinatura é facilmente reconhecida o que o torna um dos cineastas com mais identidade na indústria. Segura e perfeita, a direção é um ponto altíssimo do filme. A fotografia do filme, realizada por Gilbert Taylor, é precisa. Um preto-e-branco bonito, com poucos contrastes. Mas, diferente de Pi ou A Lista de Schindler, Dr. Fantástico não é P&B porque quer e sim porque é de 1964. Apesar do percauso histórico, a fotografia é bonito e elegante, muito parecida com a de Acossado. Competente, Gilbert faz um bom trabalho e dá o tom certo pra ironia de Kubrick. A edição de Anthony Harvey é muito boa também, dando um ritmo cômico ao filme. As cenas dentro do Pentágono, por exemplo, são de uma perfeita harmonia direção-edição, o que é tocante diante de tal esmero. Agora, talvez o maior fator determinante de pontuar o filme como comédia(além do roteiro) é a trilha sonora. Laurie Johnson faz um trabalho bem curioso. Quando surge as cenas no avião, sobe a música militar, que por si só causa risadas. Fora essas cenas, a trilha é bem mediana e cumpre bem o papel no filme.

As atuações de Dr. Fantástico são um primor, outro fator principal do filme. As atuações são todas ótimas, mas três atores merecem ser exaltados. Peter Sellers demonstra um perfeito domínio de atuação e criação de personagens. Incrível como Peter consegue ser 3 pessoas diferentes em apenas 94 minutos. Quando ele atua como Mandrake, ele demonstra um humor inocente, sendo um adorável medroso. Quando é Merkin, ele é seguro e faz feições engraçadas. Aqui, ele opta por um humor de vergonha alheia. Merkin sofre com os arroubos megalomaníacos de todos seus subordinados e mantém sua cara de "o que está acontecendo?". Quando é Dr. Strangelove, ele é engraçado na medida, com sua melhor atuação no filme. Sellers faz aqui seu trabalho definitivo, o que realmente provou o gênio que ele é. George C. Scott também impressiona por sua atuação sem limites e delirante. Seu Coronel Buck é um ser paranóico por natureza, um típico espécime que enlouqueceu com seu poder. C. Scott também acrescenta elementos interessantes ao personagem, como sua fala rápida. E Sterling Hayden, como o Coronel Jack. Estranho, paranóico e cruelmente engraçado, Sterling cria um personagem interessante, mas facilmente eclipsado por George e Peter.

No roteiro, Stanley Kubrick, Terry Southern e Peter George(o escritor do livro) criam um universo descontrolado e muito engraçado. Quando o roteiro estrutural aponta situações totalmente surreais, os diálogos fazem questão de ajudar o caos, deixando tudo ilimitado, inconsequente. E isso é um grande acerto para o filme. Deixar o non-sense prevalecer em alguns momentos é bem interessante e talvez o filme fosse bem inferior se não deixasse isso acontecer. E é interessante notar também que Kubrick, mesmo em uma comédia, mantem-se um cineasta visionário e corajoso. Suas soluções de casos no roteiro, suas piadas e até mesmo seu final são de uma irrealidade estranhamente bonita. Irrealidade, não por serem situações que exigem suspensão de crença mas porque são de humor negro demais para serem retratadas por um grande cineasta, no circuito aberto. Um exemplo: Você não iria rir com um suicídio. Mas Kubrick coloca a situação tão perto do limite que é quase impossível não rir com a situação. Definitivamente, o roteiro é o ponto alto do filme, o que determina toda a sua acidez e prova que Kubrick é um gênio, talvez o maior cineasta de todos.

No final, Dr. Fantástico pode causar um gosto amargo na boca. Piadas, situações fora de controle e até mesmo um alucinado final causam isso num público mainstream. Mas agora eu entendo porque Dr. Fantástico é tão elogiado. Seu deboche e senso crítico é preciso e intenso, um verdadeiro sonho de comédia, algo que deveria aparecer nos cinemas a todo momento. É uma película despida de pudores, algo corajoso demais para ter fácil digestão perante todos. E mais complicado ainda é pensar que esse filme foi lançado no meio da Guerra Fria, para um grande circuito. Sinceramente, se eu soubesse que o filme foi banido em algumas nações eu entenderia perfeitamente.
Ofensivo e deliciosamente malicioso, Dr. Fantástico não é o melhor filme de Stanley Kubrick. Mas é, com certeza, um dos melhores que o espectador pode ver na vida.

***** 5 Estrelas

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Pi

Estreia do gênio Darren Aronofsky perturba(de maneira positiva).

Um estudante de cinema de 28 anos. Com bastante amigos e conhecidos da faculdade, ele conseguiu 100 dólares de cada um e juntou 60.000 para um filme, com uma história dele próprio, um amigo ator chamado Sean Gullette e seu outro amigo produtor, Eric Watson. Então, ele realizou o filme, conseguiu uma distribuição nos USA e lançou em Sundance. Seu projeto se chama Pi e chegou no Brasil em 2002, apenas 4 anos depois do seu lançamento americano. Obviamente, Pi chegou no Brasil por causa do segundo filme do estudante(agora cineasta), Requiem para um Sonho, que chegou aqui em 2001. Esse estudante se chama Darren Aronofsky, um dos maiores diretores vivos(o maior, na opinião do humilde crítico aqui). Esse gênio contemporâneo já demonstra todo o estilo de direção que o fez famoso em Requiem e, posteriormente, em Fonte da Vida e O Lutador. Mas não apenas a direção se sobressai. O roteiro de Aronofsky(apenas a história é dos três acima citados) é preciso e, apesar do nível psicológico da trama, ela não se excede demais, mantendo apenas o padrão pesado dessas produções. Pi impressiona pois ser como Reservoir Dogs: Representa um talento bruto, sem estar lapidado, sem alguns caprichos de produtores e com mais liberdade criativa.

A trama, costurada de forma diferente, o que pode causar estranheza, apresenta Max Cohen(Sean Gullette), um matemático talentosíssimo, mas que corre sérios riscos por sua total imersão no trabalho. Ele tem transtornos, está sempre ansioso e com sangue no nariz. Suas doenças podem piorar se essa imersão continuar e suas enxaquecas não param de aparecer. Mas, ele continua com a cabeça num intrigante enigma: Ele acha que encontrou em Pi, número que representa qualquer circunferência, um padrão pra qualquer coisa na natureza. Das árvores num parque até o ciclo da Bolsa de Valores. Então, ele começa a acertar até as previsões mais difíceis sobre a Bolsa e ele é identificado por um tubarão do mercado de ações, que oferece um prêmio tentador para Max continuar tentando acertar. Mas, há obstáculos. Seu amigo matemático, Sol(Mark Margolis), acabou tendo um derrame com essas tentativas de achar Pi no Mundo. E, cada vez mais, Max começa a reavaliar sua situação, se vale a pena ir até o limite.
Isso já se prevê uma história difícil de acompanhar. E está correto, apesar da coisa só piorar com o tempo. Aronofsky introduz delírios psicóticos e uma montagem rápida em algo já difícil de se acompanhar. Mas, para a surpresa de todos, isso ajuda. E muito.

Nos quesitos técnicos, Pi é excelente, ainda mais sendo um filme independente. A direção de Aronofsky é o melhor do filme, o grande atrativo. Os impressionantes efeitos de montagem(que o fizeram ganhar fama de clipeiro para alguns desavisados) e sua direção segura e bem estática auxiliam o espírito do filme, bem sombrio. Alguns takes parados de Aronofsky lembram bastante os de um gênio, Stanley Kubrick. As tomadas que pegam o núcleo do PC de Max Cohen são parecidos com qualquer take de Kubrick, o que torna Aronofsky um cineasta impressionante. Aqui, é sua direção mais segura, porém não é a melhor. A fotografia de Matthew Libatique, outro estreante, é notavelmente bela. Altamente contrastada, a fotografia em Preto e Branco é bonita e bem interessante. Um ótimo exemplo da falta de recursos que auxilia no final das contas. Desde já Libatique demonstra ser um competente fotógrafo, mas é uma pena que ele nunca tenha igualado esse trabalho. A edição de Oren Sarch é muito boa também, auxiliando a direção de Aronofsky no Hip-Hop Montage e dando ritmo bom ao filme quando as cenas são paradas. Mas, outro fator de destaque é a trilha sonora. E já está até chato falar que Clint Mansell fez um trabalho soberbo, perfeito. Ele simplesmente arrebenta em sua estreia como compositor. Apesar de tardia(Mansell tinha 36 anos), a estreia é igualmente poderosa a suas trilhas atuais. Não é uma trilha de Requiem para um Sonho, mas é fantástica. Gênio.

Em atuações, difícil falar de Pi. Sean Gullette, ator amador e amigo de Aronofsky, faz um trabalho imensamente poderoso. Seu Max Cohen é neurótico, inteligentíssimo, transtornado e desesperado. Impressionante, uma pena que Sean tenha absloutamente SUMIDO. Ele é um ator talentosíssimo. No drama, ele atua bem. Mas quando surge o psicótico, Sean some no papel. Interessante. Mark Margolis, no papel de Sol, também atua bem. Seguro, apesar de seu pouco tempo de tela, Margolis conduz seu papel com destreza e serenidade. Outro que merece citação é Ben Shankman, o Lenny Meyer, que introduz Max na Kaballah. Ele atua bem, na média e não compromete seu relativamente grande tempo de tela. Por isso é difícil de falar de Pi: Além de amadores, os atores não são muito valorizados quando se sabe que o filme é de Gullette. Ele é o filme, o protagonista, o sentimento, o âmago do filme. E, por isso, ofusca os outros com certa facilidade.

Em roteiro, Pi não decepciona. Aronofsky é refinado e constante no roteiro, sem deixar o filme ficar entediante. Ele até cai de ritmo em certa parte, mas nada que prejudique o fantástico resultado final. Os diálogos, inteligentes e estimulantes intelectualmente, são precisos e só são travados quando é necessário, o que dá uma bela sensação de que o diretor faz questão de seguir a regra dos mestres: Apenas explicar o que uma boa imagem não pode mostrar. A estrutura também é competente, demonstrando a habilidade de Aronofsky em criar tramas complexas e até prolixas. Aqui, novamente, deve ser exaltado o talento do gênio, afinal Pi é baseado apenas em suas ideias e de seus amigos, sem ser adaptação de livro(Requiem) ou roteiro terceirizado(O Lutador). É claro que Aronofsky deixa sua marca em cada um desses filmes e sem dúvida sem resultado final fica melhor que o planejado, mas indiscutivelmente tem que se elogiar uma criação própria e independente. Na perda de ritmo de filme, não é culpa toda do roteiro e sim das saídas que eram possíveis. O caminho extremo do filme premeditava uma diminuída no ritmo e isso é compreensível. Num balanço final, o roteiro é brilhante.

Interessante e lisérgico, Pi impressiona e assusta a audiência. Um suspense psicológico com pitadas de ficção-científica que causa admiração na crítica em geral. Nos grandes festivais, o filme também foi bem recebido, mesmo sendo tão estranho como é. O tenso filme foi um ótimo ponto de partida para Aronofsky, que faria filmes muito melhores posteriormente. E um parabéns particular a Europa Filmes por ter trazido um filme independente como esse para o Brasil. Mesmo com o atraso, é digno de aplausos.
Quem puder, baixe ou compre o filme para apreciar esse talento genioso num ponto cru, em sua estreia. Sensacional, um filme para ver antes de morrer.

E uma última curiosidade, para ajudar o espírito do filme: A minutagem do filme é 1 Hora, 23 Minutos e 45 Segundos. 1:23:45. Acredite no Caos. =)

***** 5 Estrelas

domingo, 24 de janeiro de 2010

Up In The Air

Jason Reitman e um shake de seus dois filmes.

Jason Reitman é, para a indústria do cinema, jovem, mas já tem certa experiência e sabe o que faz. Tanto em Obrigado por Fumar quanto em Juno, o diretor cria obras muito boas, com temas divertidos e muito interessantes, mas ,peca ao carregar o filme adiante . Sofre de perda de ritmo , algo que pode atrapalhar um pouco suas criações a receberem uma nota máxima . Amor Sem Escalas(Up in the Air) é outro que segue por esse caminho.

O início, como de costume, é com uma sequencia de créditos iniciais estilosa, como de gosto de Jason Reitman. Música antiga e rítmica ao fundo, enquanto vários cortes de takes aéreos são exibidos. Dava pra reconhecer o realizador sem nem ao menos ler os créditos em si. Depois, um corte rápido para uma situação diária do protagonista, com uma narração em off nos apresentando tudo. Bem parecido com o primeiro filme do jovem cineasta, Obrigado por Fumar. Baseia-se , como no primeiro filme , num personagem que tem um trabalho um tanto peculiar, que gera situações engraçadas e reflexivas.

O Nick Naylor desta vez é Ryan Bingham, ( George Clooney) um Conselheiro de Transições de Carreira, que é, em outras palavras, um profissional contratado por empresas sem coragem de demitir seus funcionários (muito bem explicado o porque desse medo no início, a propósito) para realizar essa dura tarefa. Dinamicamente, Reitman nos mostra o trabalho de Ryan, e também seu cotidiano. Para chegar a todas as empresas que precisa colocar seu trabalho em prática , ele viaja constantemente pelo país, de maneira tão intensa que passa mais tempo da sua vida nos aviões e hoteis do que na sua casa ( pobremente mobilhada, devido a motivos óbvios ). Sendo tão desapegado a coisas materiais e a sua própria família, Ryan dá palestras de como ser menos apegado as coisas do dia-a- dia, e assim esvaziar a sua mochila mental de preocupações.

No meio de uma das viagens que faz, Ryan conhece Alex (Vera Farmiga), uma versão feminina de si mesmo. Ela também passa mais tempo viajando do que em casa e passa a se encontrar com Ryan a partir de aeroportos e hotéis compatíveis com as agendas dos dois. Em outro ponto de sua vida, Ryan conhece Natalie(Anna Kendrick), uma jovem profissional de sua empresa, que cria um método de demitir pessoas via internet. Receoso de perder a chance de viver viajando e prezando por um estilo mais pessoal de se trabalhar, Ryan decide mostrar a Natalie um pouco mais de seu trabalho na prática.

No roteiro, vemos algumas diferenças. No início, a comédia era ácida e rápida, e caminhava muito bem. Depois da apresentação das personagens secundárias, o filme dá uma acalmada. É o início da parte dramática do filme. É construído, a principio,com maestria costurando entre os encontros de Ryan e Alex e as lições de Natalie com o protagonista. A relação com as duas realçam as facetas de Ryan. Com Alex, ele vive parte de algo que podemos chamar de vida real. Uma relação que começa casual e aos poucos, vai se intensificando. Já com Natalie, uma relação onde se aprende mais sobre sua própria profissão, e que seu trabalho de carrasco tem suas didáticas e um sentimentalismo maior. Isso consegue nos passar que , muitas vezes, dependendo da abordagem da pessoa que demite, o evento pode não ser um fim, mas um reinício. E o filme serpenteia sobre a vida de Ryan, que pode apresentar um reinício, uma vida real. De resto, o roteiro tem ótimos diálogos , todos afiadíssimos. Muito interessantes são as piadas do filme, principalmente as da primeira metade . Algumas são engraçadíssimas, e os comentários dos demitidos são espetaculares. Entretanto, a parte final tem sua dramaticidade com um declínio para um lado mais morno, e isso determina a falta de ritmo citada no início desse texto. O clima do filme muda por alguns momentos, um declive que não compromete o todo, mas impede a nota máxima.

Outro fator que acompanha o declive e mudança de ritmo é a direção de Jason Reitman. Começa fabulosamente bem, um estilo naturalmente rápido, que opta por posições por vezes simétricas e interessantes nesse sentido. Existem, no início, espécies de hip-hop montage, que dão uma didática rápida ao filme . Entretanto, conforme o drama chega, a direção vai esfriando aos poucos, infelizmente.

As atuações são soberbas. Clooney se encaixa no papel como uma luva. Maravilhosamente bem, como sempre. Um dos melhores atores viventes, ele apenas reafirma isso. Vera Farmiga e Anna Kendrick seguram muito bem. Não posso dizem que transcenderam, mas estão entre as melhores atuações de 2009. A trilha sonora funciona bem como um pano de fundo quase apagado, mas a músicas são boas, em si. A fotografia de Eric Steelberg é muito boa. Meio cinza, nos faz sentir num aeroporto todo o filme.

É possível dizer, no final das contas, que Jason Reitman fez uma mistura de seus dois filmes anteriores, tanto no roteiro( escrito com Sheldon Turner , baseado no livro de Walter Kirn), quanto na direção . Aquilo que começou incrivelmente como Obrigado por Fumar , teve parte de seu desenvolvimento como Juno,e terminou com o gosto do filme estrelado por Ellen Page. Uma obra , no geral, esplendorosa, mas que escorrega no seu ritmo final. Jason Reitman podia abrir o olho para esse fator, pois não é novidade na sua cinematografia.

4 Estrelas ****