Fornecendo críticas há 2 anos, o OSN é uma colaboração de Gabriel Papaléo e Joaquim Pedro, onde o Cinema é o assunto principal a ser analisado, debatido e admirado.
Old School Nerds
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Old School Trailers - Parte 3
O filme do diretor Jonathan Liebesmann agradou a todos no painel da Comic-Con e sua narrativa parecida com jogo parecia perfeita. A trama assumidamente rasa também casa bem com o ar de batalha sem limites. Porém, o trailer apresentou um tom mais sério que o normal e isso pode preocupar, apesar de se constatar que, mesmo sendo pouco inovador, o trailer funciona e dar o ar de ansiedade que o filme precisa. Agora, é esperar a pancadaria começar e torcer pra ela não se levar á sério.
*** 3 Estrelas
Lanterna Verde
Muita desconfiança estava a cerca desse filme. Porém, quando o uniforme surgiu, a confiança começou a aumentar e, mesmo muito claro, o uniforme inspirava e era fiel. Mas Ryan Reynolds e seu tom engraçadinho continuavam incomodando. E o trailer acaba com essa desconfiança... e cria algumas outras. O início, regado a rock 'n' roll, parece DEMAIS Homem de Ferro. Ryan não está a altura do conciso personagem que é Hal Jordan, mas parece que vai segurar o tranco. PORÉM, OA está perfeita visualmente e o design é fantástico e o tom trash dos personagens alienígenas se reflete pelos ótimos efeitos e a maquiagem vitoriosa, com direito a um hipnótico Sinestro. Visualmente incrível, divertido e fiel, o trailer inspira. Mas talvez a história deveria se levar um pouco mais a sério e ser menos Marvel.
**** 4 Estrelas
Skyline
Os irmãos Strause são especialistas em efeitos, mas como diretores são deploráveis. Criaram o risível Alien vs Predador 2, que conseguiu ser pior que o primeiro. Mas agora, com um orçamento minúsculo de 10 Milhões, os Irmãos parecem ter acertado a mão. Apostando mais no seu talento dos efeitos, o trabalho dos dois é hercúleo e os aliens estão perfeitos, mesmo que sejam iguais aos do genial game Crysis. Sem se preocupar com atuações(que estão ridículas) e roteiro(raso como pires), o filme parece que se consolidará como a pérola trash mais divertida desse ano.
*** 3 Estrelas
domingo, 14 de novembro de 2010
Senna - Crítica 2
A apoteose filmada de um gênio.Talvez um dos poucos heróis nacionais, Ayrton Senna é um mito. Além de ser um caso raro de herói, o piloto só é aumentado quando vemos sua vida pessoal. Diferente de cantores promíscuos ou drogados, Senna foi um exemplo dentro e fora de sua carreira, ajudando os outros da forma que pôde. Em tempos difíceis para o Brasil, fim de ditadura culminando para o violento movimento pró-diretas já, o brasileiro fazia mágica com o que tinha nas mãos e trazia um pouco de felicidade aos rostos cansados do povo nacional da época. Porém, o acervo de arquivo da Fórmula 1 e do próprio Senna sempre foi bem restrito, só sendo divulgado pra documentários menores, de revistas especializadas. Aliás, confesso rapidamente ser fã extremo do piloto, tendo visto esses documentários e acompanhado incansavelmente a carreira do gênio, mesmo ele tendo morrendo 1 ano antes de meu nascimento. E agora é muito bom constatar que uma equipe se reuniu pra liberar os tais vídeos de arquivo e fazer um documentário sobre a vida do mito. A equipe em si são os ingleses da Working Title, famosos pelas comédia-românticas aclamadas como Bridget Jones e Simplesmente Amor. Será que eles conseguiriam criar um produto á altura do que Senna foi?
O documentário segue toda a tragetória de Ayrton Senna nas grandes corridas, desde os espetaculares créditos iniciais em seu Mundial de Kart até a sua morte, em 1994. As imagens, capturadas em sua maioria pela FISA(emissora oficial da F1) e inéditas em tela, são organizadas em temporadas, a cada ano. Além disso, os depoimentos das pessoas sobre Senna, como Ron Dennis e Reginaldo Leme(ainda temos antológicas narrações de Galvão Bueno orginais), não quebram o ritmo das imagens e são apenas comentados em off, sendo que os entrevistados nunca aparecem em tela, o que dá um ar mais ficcional ao filme.
A decisão do filme de Asif Kapadia em retratar apenas os anos de Fórmula 1, com breves passagens do Mundial de Kart em 1978, é vitoriosa. Aquela máxima de humanizar a figura retratada, aqui é totalmente esquecida. Essa decisão ajuda a narrativa e o foco do documentário se torna, assim como no genial O Equilibrista, mitificar o indivíduo, editando o filme de uma forma que o público seja imparcial. Podendo ser vista pelos puristas como uma estratégia manipuladora e centralizada, essa decisão nem sempre é ruim, de fato que apenas reforça ainda mais a aura de gênio que trás o personagem. Quando a pessoa tem uma vida exemplar, essa imparcialidade é benéfica. Tanto que Phillipe Petit, Ayrton Senna ou Muhammed Ali não deixam de ser mais(ou menos gênios) só pela beatificação realizada em seus documentários.
Essa tal imparcialidade não existe apenas no campo documental. Quando estrategicamente posta para causar impacto, ela só ajuda a narrativa e a emoção, como por exemplo Menina de Ouro. A emoção da virada de personagem de Hilary Swank não seria a mesma se suas adversárias não fossem vilanizadas o filme inteiro. Mas se em O Equilibrista Phillipe Petit é visto como o gênio sem vilão, o único foco do filme, Senna é mais próximo de Quando Éramos Reis. Senna tinha seu próprio nêmesis, Alan Prost, mas sua luta era contra toda a política errônea e arrogante da Fórmula 1 na época. Assim como Ali, que lutou pelos negros, na terra dos negros, contra George Foreman, o vilão, o negro domesticado pela América. Conflito de ideologias se mistura com a apoteose filmada do piloto genial.
Humanização em filmes biográficos é normal. Em alguns casos, temos assombrosos retratos de figuras famosas(ou fatos famosos, no caso de Platoon) que impressionam e se tornam obras-primas, como os filmes de Oliver Stone(Nixon, The Doors, W. e até mesmo seu recente doc. sobre Hugo Chávez). Porém, o jogo de cena(ou ficcionalização dela, como no supra-citado O Equilibrista), é mais um retrato apaixonado do diretor sobre o indíviduo em questão do que próprio maniqueísmo. Esse jogo, ainda que torne o documentário mais próximo da ficção(e consequentemente do cinema), é válido em certos pontos. Mesmo que Senna não precise de nenhuma edição esperta pra tornar sua vida mais exemplar, a escolha do diretor em usar o jogo é interessante e torna a experiência mais cinematográfica e bonita, até mesmo provando que é desnecessária uma dramatização da vida do piloto. Então estaria o diretor criando um conto de fadas sobre um santo? De jeito nenhum. Asif Kapadia vê a tragédia a cerca da morte de Senna com tanto pesar que demonstra explicitamente que não é necessária nenhuma humanização exacerbada do herói. Existe humanização maior que a morte do piloto durante uma corrida? Em certo ponto, Prost fala que Senna acha que não pode morrer. Naquela fatídica curva Tamburello, o documentário humanizou Senna da forma que precisava.
A direção de Asif Kapadia é genial. Mesmo sendo um documentário, o diretor não tendo nenhuma liberdade e não podendo filmar nada, Kapadia organiza suas peças de forma espetacular e tira emoção de cada cena que pode. Depoimentos emocionados do povo brasileiro, chegando a citar que Senna é o unico motivo de alegria do país, são de uma sensibilidade cênica do diretor que chega a deslumbrar pelo simples fato de ser uma maravilha de película. A direção ainda se torna maior se formos ver a equipe responsável. A edição é de tirar o fôlego, sendo essencial pra tal mitificação do herói nacional. Passagens se tornam antológicas com a ágil edição, como a tensão recorrente entre Senna e Prost, as corridas finais dos campeonatos e as partes mais emotivas, como o enterro do herói, mesclado de forma linda com imagens do piloto vivo com seus amigos. Pra melhorar, a trilha sonora de Antonio Pinto é de um repertório magnífico, mesmo relembrando algumas notas de seu trabalho em O Senhor das Armas. Seu violino agressivo, misturado com notas tristes orquetradas no background, dão o tom exato a todo o documentário, que é bem sucedido musicalmente nas partes felizes e mais ainda nas tristes.
Entrando no panteão dos grandes documentários, Senna é um motivo de orgulho pro povo brasileiro. Mesmo sendo uma equipe estrangeira retratando um herói nacional em tela, é de verter lágrimas dos olhos o fato dessa equipe ter se demonstrado apaixonada pela figura exemplar de Ayrton. Um legítimo herói, um ícone, um mito, um gênio. E agora, uma lenda. Mesmo que os Cazuzas insistam em provar que os meus herói morreram de overdose, é um alento ao coração ver um sujeito que ajuda os outros como pode, auxilia as crianças, faz seu trabalho de forma genial e ainda é crente em uma força superior com fé contagiante. Senna é o maior herói do meio cultural da história brasileira e, sem dúvida, o profissional mais hábil e competente dos automotivos. O melhor que já existiu. E para isso, não é necessário mais que 3 títulos, 41 vitórias, 65 poles e 19 voltas mais rápidas. Quem agraciou Senna entende, perfeitamente, que quantidade não é qualidade. Na sua breve passagem pela vida, Senna já deixou saudades. Em seus efêmeros 10 anos de Fórmula 1, meu ídolo pessoal fez mais que qualquer Schumacher ou Piquet poderia fazer em 100.
***** 5 Estrelas - Nota 9,5
Senna - Crítica 1
O herói visto como tal.No meio da Fórmula 1, não há muita controvérsia quando o nome de Ayrton Senna é citado – Como Niki Lauda mesmo já constatou “ Ele foi o melhor piloto que já existiu ”. E talvez nós, brasileiros, sejamos os principais a saber disso. Mais do que um piloto excepcional, para nós ele era um símbolo, um exemplo, um orgulho quase unânime do público brasileiro geral. Que Senna foi um verdadeiro herói nacional, disso todo mundo sabe. O homem bondoso, que servia de exemplo e era admirado pelo povo , é lembrado até hoje. E a vida de alguém como ele era, de fato, cinematográfica. E cinematografia do tipo épica, quase um gênero de sandália e espadas, só que passada nas pistas . E por muito tempo esperamos por uma representação adequada e definitiva da vida de Senna no cinema. E ela veio.
O filme de Asif Kapadia já começa vencedor por entrar pelo caminho mais adequado ao tema – retratar a vida de Senna em suas glórias, seus feitos – e não tentar executar o já meio clichê de revelar o “homem por trás do mito” ou “ as mulheres da vida” ou “ a vida fora das pistas” . Qualquer tipo de realização assim não teria a relevância que este Senna tem. Afinal , este filme não é uma biografia completa de Ayrton Senna, mas sim um retrato de sua obra, seus dez anos ativos na Fórmula 1 , que desenharam a face do grande piloto e marcaram a vida do mesmo.
E quem assiste a um documentário como esse, logo percebe que o ídolo não precisaria de uma dramatização. O longa é construído apenas com imagens de arquivo, todas daquela época ( 1984 – 1994) e com comentários de ex-pilotos, chefes de equipe, comentaristas esportivos e familiares . Isso torna tudo mais orgânico, e a sensação que temos é de ver quase uma dramatização onde os atores são as personalidades em si. Uma sensação sem igual, que raramente é passada em documentários , já que a grande maioria deles possui aquelas cenas de pessoas paradas falando com a câmera. Aqui isso inexiste, e o que se passa é imersão na história verídica, como se estivéssemos ali, no momento em que ocorreu. Grande tato de quem realiza conseguir administrar tal feito.
O filme conta a história da carreira de Senna na Fórmula 1, e de passagem nesse período entram histórias dos pilotos e chefes de equipe que viveram ao lado de Senna. Amigos como Ron Dennis – que vive até hoje na Mclaren - , e rivais, como Alain Prost. Este em especial, tem tamanho destaque, que possui abertura para construção separada de seu personagem, quase como um antagonista . A relação com o presidente da FIA da época, Jean-Marie Balestre, também é mostrada , de maneira ainda mais sensacional, afinal, muitas das cenas em que Balestre aparece no filme são arquivos exclusivos, nunca antes mostrados.
Há entretanto quem reclame do longa colocar-se de maneira parcial, e empregar situações quase maniqueístas. Avaliando-se parte a parte, percebe-se que não há tanto disso. A luta de Senna contra a politicagem e favorecimeto na Fórmula 1 foi real, e o lado mais certo era do brasileiro, no mínimo. Na relação com o rival, no entanto, haverá polêmica . Prost é considerado um vilão em tela, é fato. Injustiça, com alguém que foi Tetra- campeão da Fórmula 1? Talvez. A verdade é que a arrogância e o estilo de Prost acabam favorecendo esta imagem, que se auto-associa a ele, sem nenhum filme precisar estampar. E se Senna teve um adversário potente para se contra-por, este foi Prost. Porém, ninguém sai em maus lençóis, ao final. Todos sabem , que apesar dos pesares, no fim de tudo, foi Prost um daqueles que carregou o caixão de Ayrton. Uma imagem de redenção? Para quem for mais para o lado do chavão, sim , mas a verdade é que nesta parte do filme todos são mais humanizados, como de fato na vida real. Inclusive a última frase explicita isso muito bem.
O filme em si só não se destaca mais porque o formato não permite. Uma colcha de retalhos de reportagens complica , por exemplo, a entrada mais expressiva do diretor. Kapadia, aliás, com o que tinha, fez muito, e conseguiu montar uma linha de raciocínio muito coerente e interessante, apesar de clássica. Ajuda muito a narrativa a trilha de Antonio Pinto, conhecidamente trsite, como em Colateral, mas também agressiva e ágil nas partes de corrida. No que o filme ganha pontos , de verdade, é na sua iniciaiva de mitificar Ayrton Senna, fazendo com que víssemos ele como o herói que foi. Como num épico que termina com a tragédia, Senna mostra seu herói nos momentos mais críticos, mas sempre procurando a glória. Esse ponto de vista definitivo e endeusador pode ser visto já no título do filme. Senna. Não algo mais intimista. Algo externo, que exacerba e coloca-o sobre o pedestal que merece. Mesmo que já testado anteriormente, este estilo funciona aqui de forma mais emocional e profunda. Excepcional.
Devo admitir que sempre quis ver uma obra definitiva da vida de Ayrton Senna nos cinemas . Agora ela existe.
5 Estrelas ***** - Nota 9,0
domingo, 7 de novembro de 2010
Old School Trailers - Parte 2
The Old School Trailers
O Ritual
O novo filme do diretor Mikael Hafstron, que fez Shangai num circuito mais restrito em 2009, aborda o terror dos exorcismos de uma maneira mais interessante, explorando o drama dos envolvidos e o próprio exorcismo
Sanctum
A nova produção de James Cameron tem um trailer competente que, apesar de não apresentar muitas surpresas, tem um tema conciso e planos belíssimos(coisa que as câmeras 3D virão a potencializar). Seguindo uma linha que lembra o clássico Das Boot, de Wolfgang Petersen, esse filme deve pelo menos suprir as expectativas regulares que o trailer transmite. Mas fica uma interessante observação aqui: Por que James Cameron deixa seus projetos mais difíceis e cults para os outros diretores hein?
Rabbit Hole
O novo filme do ousado diretor John Cameron Mitchell, de Shortbus, é baseado na peça de David Lindsay-Abaire e é roteirizado pelo mesmo. Para os fãs do Homem-Aranha, David era o responsável pelo roteiro do reboot até James Vanderbilt escrever a versão final. Nicole Kidman é uma mãe que tem que superar a perda do filho e Aaron Eckart faz seu marido. O trailer é montado de forma concisa, apresentando um ritmo lento e diálogos poderosos que são elevados dramaticamente pelas atuações. Nesse caso, é o filme para Kidman brilhar e isso pode implodir ou tornar o filme memorável. O trailer é competente e é um dos grandes filmes que prometem para o fim de 2010.
72 Horas
O novo filme do oscarizado Paul Haggis tende, infelizmente, a ser seu pior filme. Os relances de suspense de ação, com uma trama não muito convincente e os tiques de filmes de corrida contra o relógio podem prejudicar muito o que se espera de um filme de Haggis, conhecido pela sua pesada dramaticidade imposta, tão grande e competente que fez de Cassino Royale um dos melhores filme do 007. Porém, pode também acontecer que Haggis dê um passo a mais em sua carreira, dando um ar artístico a um gênero cansado como o thriller de perseguição. Agora é esperar e ver o que Haggis fará com sua primeira trama realmente de suspense, sem todo o drama de Crash e Menina de Ouro.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Atração Perigosa
Ben Affleck realiza seu Fogo contra Fogo.Em 1997, Matt Damon e seu amigo Ben Affleck escreveram um filme, Gênio Indomável, dirigido por Gus Van Sant. Depois de ganhar o Oscar de Melhor Roteiro Original, ninguém mais parou os dois amigos de Massachussets. Enquanto Matt Damon parece ter seguido a linha de George Clooney, escolhendo seus projetos a dedo e obtendo êxito crítico(e ás vezes, de público), Ben Affleck não o seguiu. Depois de uma década de erros como Demolidor, Contato de Risco, O Pagamento(que é bom, mas tem uma péssima atuação de Affleck), Ben decidiu comprovar todo o seu talento demonstrado lá em 97: dirigiu Medo da Verdade, baseado no livro elogiado de Dennis Lehane. O filme foi tão bem recebido pelo crítica que facilitou bastante o financiamento do novo filme do diretor, que ganhou até créditos de "do aclamado diretor de Medo da Verdade" no trailer. Agora, estreia nos cinemas brasileiros Atração Perigosa, que chega fazendo barulho pelas críticas imensamente positivas que vem recebendo nos Estados Unidos. Os 95% que ganhou no Rotten Tomatoes, aliado a críticas muito positivas de críticos do gabarito de Roger Ebert, fizeram o filme gerar muita expectativa.
Após ver Atração Perigosa, entende-se as muitas críticas positivas, mas o filme não é uma obra-prima e nem merece ser indicado ao Oscar, como os americanos pintavam. É uma prova viva de que Ben Affleck é mesmo um excelente diretor e é um escritor muito competente também, porém o filme não é um produto inovador ou uma releitura genial de sua trama anteriomente testada. A estrutura que se vê no filme todo segue o ritmo dessa mesma trama, sem ousar em relação a outros filmes de roubo. O que se diferencia e torna Atração Perigosa uma experiência positiva é justamente o fato de Affleck fazer um filme sem erros, cauteloso, um terreno seguro, sem ousar em momento algum.
A trama segue Doug MacRay(Ben Affleck), um ladrão de bancos de Boston que, junto com sua gangue composta por James "Jem" Coughlin(Jeremy Renner), Gloansky(Slaine) e Dez(Owen Burke), está realizando assaltos mais frequentemente pra poder se retirar por um tempo desse ramo. Em um desses assaltos, o bando acaba levando Claire(Rebecca Hall) como refém e Jem, com medo dela ter visto algum deles, pensa em matá-la. Avesso a assassinatos, Doug propõe antes vigiá-la para saber se ela reconheceu ou não seus sequestradores. Mas seus problemas começam quando Doug descobre que Claire é uma pessoa muito boa e se apaixona por ela. Além disso, o agente federal Adam Frawley(Jon Hamm) está no encalço de sua gangue e vai longe quando tenta usar Krista Coughlin(Blake Lively), prostituta ex-namorada de Doug e irmã de Jem.
O roteiro escrito por Affleck, Aaron Stockard e Peter Craig é muito preciso em vários aspectos. Apesar de um início que tem defeitos, como a cena em que Doug e Jem estão falando com o bando, o filme flue de forma concisa, com passagens interessantes e situações amarradas. A construção de personagens é muito boa também, com 125 minutos sendo suficientes para montar o caráter e os sentimentos de todos os personagens importantes em tela. Contudo, a construção tem falhas. O defeito no início é justamente nisso, com uma previsibilidade grande demais, montando Doug como bonzinho e Jem como mal com um diálogo bem manjado. Fora que faltaram umas pequenas passagens pra pontuar melhor a relação de irmãos de Krista e James. Apesar desses defeitos, tudo é pra ser considerado bem trivial mesmo, já que o filme nada perde com isso. As situações são bem amarradas, competentes e nenhuma desnecessária. Ainda que tiques do gênero de roubo sejam vistos(o grande roubo final para o clímax, a atração amorosa proibida, o ladrão bonzinho que quer se redimir), todos eles fazem parte do contexto que Affleck quer apresentar, formando assim um filme de roubo legítimo. Aliás, por escolher seguir essa estrutura, Affleck impede o filme de ganhar mais pontos, explicando aqui a tal falta de ousadia.
Outro ponto do roteiro que merece citação é a escolha de Affleck por contar sua história principal com um pano de fundo. Toda a mitologia criada em torno dos criminosos de Charlestown, a tal cidade do título original, é rica e sensacional, lembrando a ótica apaixonada que Martin Scorsese executou em Taxi Driver e Caminhos Perigosos. Esse bairro, em que o ofício de ladrão de banco é passado de pai pra filho, se torna interessante quando registrado pela ótica entusiasmada de Affleck. A ambientação é esmerada e apresenta um pouco de ousadia à trama conhecida. Talvez essa falta de ousadia fosse um motivo de implodir o filme, mas como o gênero Roubo é pouco retratado como ele realmente é(e como Affleck desde o princípio queria mesmo é fazer um roteiro seguro), Atração Perigosa se mostra um bom retrato da lei, na linha do épico do crime mesmo. E é tão preciso e competente o jeito com que Affleck conta a história que temos como resultado um charmoso e violento Heist Movie. E algumas vezes isso basta. Percebendo isso, entende-se o rótulo de obra-prima que os americanos viram no filme. Eles não esperavam nenhuma ousadia e amaram justamente o a falta de... ousadia.
E é falando em épico criminoso que vem a comparação que fiz no início do texto. Affleck cria sua trama criminosa com tanto empenho que ele realiza seu Fogo contra Fogo. Porém, se no épico de Michael Mann a rivalidade de deNiro e Pacino era impressionante e o foco principal, colocando a caótica trama e a cidade de Los Angeles como pano de fundo, o foco principal de Affleck é sua trama de roubo, com Doug sendo o homem a se redimir nisso. Como no filme de Mann, Affleck cria um intrincado panorama dramático e de roubo, construindo assim um filme similar. Mas, Affleck ainda não tem a competência e sensibilidade de Mann, que construiu em 170 minutos um filme invejável em 1995, com arcos dramáticos poderosíssimos e uma trama de crime espetacular. Se Mann tinha a ousadia, Affleck tem a segurança. Ao inovar, Mann criou um dos melhores filmes na década e justamente isso faltou a Affleck. Seu épico é de cartas marcadas, sendo amarrado mas anteriormente visto. Ao optar por testar o campo do Heist Movie, Affleck cria um produto satisfatório em roteiro, mas ignorando a inovação, criou um sub-épico do crime, um retrocesso em relação ao filme de Mann. Cabe a Affleck inovar num eventual segundo filme de crime, para se consolidar como o grande contador de histórias que é.
A qualidade técnica que Atração Perigosa tem, ainda mais considerando a ninharia com que o filme foi feito(37 Milhões), auxilia mais ainda a ideia de filme visualmente bonito. A direção segura de Affleck, com mão talentosa pra ação, ainda manda bem nas partes dramáticas, com closes quando necessários e planos se movendo lentamente. Além disso, os cortes saem de forma sucinta, auxiliados pela espetacular edição de Dylan Tichenor. Nas cenas de ação, a edição e a direção entram em conjunto de forma deslumbrante, com um tiroteio bem coordenado. Affleck surpreende a audiência colocando bastante ação no candensiado e demonstra maturidade suficiente, mesmo no seu segundo filme, para conduzir a ação de forma competente. A fotografia de Robert Elswit ainda deixa o filme mais belo, com uma atmosfera azulada no meio da gélida Boston. Combinando esse azul com planos na maioria cinzentos, temos imagens belíssimas e que funcionam dentro do contexto do filme, sem soar deslocadas. E ainda temos uma grande sacada de Elswit: deixando o filme inteiramente cinza e azul, no momento de redenção do personagem, surge um flare com o Sol batendo na tela, num contra-ataque de todo a violência do crime no filme, um momento singelo de pureza da alma. Espetacular.
A trilha sonora de Harry Gregson-Williams e David Buckley segue a linha do filme de assalto, com notas tensas e alongadas. Em algumas partes mais paradas do filme, é fácil reconhecer a contribuição de Gregson-Williams no filme, com notas bastante familiares em outros filmes com sua trilha. Esse ritmo que os compositores impõem na narrativa só ajuda a percepção que estamos diante de um filme de roubo seguro.
As atuações do filme cumprem as expectativas. Ben Affleck entra com veracidade no personagem, até mesmo criando um tipo de falar novo para ele. A fala calma, arrastada e meio melancólica até, ajuda na criação do personagem. Jeremy Renner está perfeito num papel que foi escrito de forma simples. Mesmo sendo típico de vários filmes, o ladrão mal ganha uma leitura respeitável pela visão de Renner. Seu talento, que já estava explícito em sua hipnótica atuação em Guerra ao Terror, fica ainda maior dada a transformação em relação a seu papel anterior. Blake Lively tem pouco espaço em tela, mas não compromete. Já Rebecca Hall faz um trabalho muito bom, sendo uma atriz invejável. Seu personagem, apesar de arquetípico, tem nuances dramáticas muito bem demonstradas pela atriz. E se Chris Cooper e Pete Postlethwaite fazem muito bem seus curtos espaços, Jon Hamm ganha espaço de sobra e arrebenta. Mesmo sendo o policial durão conhecido da audiência, Hamm é um monstro de atuação e mostra o porque dele ser sinônimo de macho durão hoje em dia. Uma grande atuação. Elenco bom o de Atração Perigosa, afinal Ben Affleck escolheu profissionais que, mesmo com papéis não muito inovadores, fizeram um trabalho decente.
Num contexto geral, Atração Perigosa agrada. Apesar de situações comuns no gênero e falta de ousadia, é difícil errar quando uma história é bem executada desse jeito. Um filme recomendável, pra ver sem compromisso, esperando um thriller tenso com passagens excelentes e uma ação esplêndida. E agora fica a espera pelo próximo filme do redimido Ben Affleck. Após fazer o aclamado Medo da Verdade e esse interessante Atração Perigosa, Affleck já entrou pro hall dos diretores mais promissores da nossa geração. É engraçadíssimo pensar que um sujeito competente desses fez "maravilhas" como Contato de Risco, um dos piores filmes da década. Legal constatar que o talentoso Affleck voltou as origens talentosas que colocaram ele e seu bem-sucedido amigo Matt Damon no estrelato da indústria cinematográfica. A grande prova viva das segundas chances que Hollywood dá. Que venha o próximo trabalho dele!
*** 3 Estrelas
domingo, 10 de outubro de 2010
Tropa de Elite 2 - Crítica 2
José Padilha monta épico do crime organizado numa colcha de retalhos de fatos verídicos.Em 2007, a grande sensação do cinema nacional era o filme Tropa de Elite. Cinema entre aspas, pois o filme foi lançado nos cinemas depois de já ter sido assistido pela esmagadora maioria do público por meio da pirataria . Sucesso absoluto, indiscutivelmente, o filme gerou bordões inesquecíveis, personagens contundentes e profundos, e conseguiu mostrar a história da violência urbana de um ponto de vista diferente : o da polícia . Arrasador, todos ficaram extasiados pela quantidade de informações interessantes e de todo um panorama genial que a teia narrativa do filme de José Padilha criava . Mesmo sendo chamado por alguns de fascista, pelos métodos agressivos que os policiais do Bope dispunham , o primeiro Tropa foi abraçado pelo público em geral . Não era por menos - afinal , tudo ali esclarecia o mundo de drogas e violência no Rio de Janeiro, e mostrava suas causas e consequencias, muitas vezes ligadas ao mundo de quem assiste.
Tropa de Elite 2 não faz diferente. Segue a linha de construir uma história que mistura fatos verídicos com personagens ficcionais ( ou quase ficcionais, por referências quase diretas a personas da vida real) . Só que desta vez, em 2010, a história é outra . A estrutura montada e desmontada no primeiro longa de anos atrás era de violência urbana mostrada onde ela acontece - nas ruas, nas perseguições, em tiroteios. Nessa sequencia, a estrutura se modifica, os inimigos se diferem, e tão logo também o modo de se mostrar a história. A narrativa agora abrange mais , muito mais, abraçando tudo e todos, montando um panorama visto de cima, com mais personagens e mais conexões. Tudo isso se deve ao fato do comando dos campos de batalha - as favelas cariocas - ter mudado. Não são mais os traficantes que comandam o morro, e não mais é o tráfico de intorpecentes que gira a engrenagem do crime organizado . São as milícias, comandos de policias veteranos da PM carioca que asseguram o domínio do morro e se ligam no povo que lá habita através de cobrança de várias taxas - desde o ''gatonet'' até a venda de gás de cozinha . E esse esquema de domínio sobre o povo, é claro, não é feito com as mãos limpas , e está a milhas de se tornar algo legal.
E é esse o inimigo que o subtítulo aponta. Nesse cenário se monta a trama do novo filme de Padilha . Depois de pouco mais de10 anos desde os acontecimentos do primeiro filme, Nascimento ( Wagner Moura) não é mais um dos comandantes do Batalhão, e subiu ao posto de que nenhum Caveira jamais havia chegado - virou Sub-secretário de Segurança. De um posto mais alto, Nascimento começa a ter mais visão de tudo o que ocorre de novo no mundo da violência carioca - e precisa agir contra ela. Só isso já bastaria para causar uma rede de problemas suficientemente grande, mas o nosso herói carrega ainda mais fardos. Seu filho , agora já crescido, não tem uma boa relação com ele , e por vezes escancara para o pai que não é violento, como Nascimento. Tal visão do filho sobre o pai se decorre dos eventos mostrados na televisão, onde em alguns deles seu novo padrasto, o ativista dos diretos humanos Fraga (Irandhir Santos) critica o modo violento pelo qual o Bope opera .
Toda a estrutura de narrativa de Tropa de Elite 2 está mais profunda, mais densa e mais geral. Tudo mostra uma grande evolução, uma grande maturidade do novo filme. A observação de Wagner Moura em entrevistas foi muito bem colocada. " Este filme é mais maduro que o primeiro". Afirmativa inegável. No longa, há símbolos que comprovam isso. Se no primeiro filme o calo que era pisado era do playboy maconheiro que finaciava o tráfico, no segundo os alvos das críticas são algum tipo de evolução dos alvos iniciais. Desta vez são políticos corruptos, ativistas que ''protegem'' bandidos e toda a gama de milicianos que se instaura na gerência do crime organizado.
A diferença estrutural básica desse longa para o anterior está na sua amplitude. Se em 2007 se usava tempo de tela para montar toda mecânica da polícia e do Bope, como em um bom Full Metal Jacket brasileiro, agora o Batalhão de Operações Especiais funciona como um dos agentes atuantes em um cenário instaurado pela invasão das milícias nas favelas cariocas. O cenário se amplia, e o roteiro aumenta sua densidade. Cada personagem tem sua função muito bem definida em todo o contexto , tem uma razão de existir, e há tempo de tela sobrando para se desenvolver. Os roteiristas desenrolam a saga de uma maneira que remete a um épico. Um verdadeito épico criminoso, onde o realismo marca presença tão forte, que destinos são traçados pelos realizadores sem medo nem pena, como num digno filme ensemble cast - Como Traffic e Crash .E o mais interessante disso tudo é modo como duas coisas quase imiscíveis se encaixam tão bem nessa franquia . Realidade e ficção . Ora, se o objetivo é contar uma história de uma cidade real, com elementos reais, numa linha cronológica real, como colocar personagens fictícios, e situações por vezes fictícias num roteiro? Pois Padilha e Bráulio Mantovani conseguem arranjar caminhos para encaixar tudo, sem fugir da realidade, mas também sem copiar passagens dignas de ''baseado em fatos''. É genial o modo pelo qual Tropa 2, assim como o 1, respira e vive nesse vai- e- vem entre ficção e realidade. O que nas mãos de alguém com pouco talento podia virar simplesmente um filme-denúncia panfletário, Padilha e Mantovani convertem em material original de primeiríssima linha.
Este longa também é mais bem resolvido quanto ao aspecto da ideologia. Seu predecessor foi atacado veementemente por muitos como um filme extremamente fascista, violento e com métodos extremamente questionáveis . O filme flerta, em seu princípio, com algo parecido, como Direitos Humanos X Pensamento policial . Entretanto, espertamente, essa configuração é apagada ao longo de sua exibição. Fica logicamente prejudicada a discussão, quando um inimigo em comum aparece. É esse o papel da Milícia . Porém, é claro, Padilha e Mantovani , fazem questão de deixar clara suas opiniões a respeito de cada assunto, afinal aquele é o ponto de vista que Nascimento terá, e o personagem não é de desconversar . Tanto não é , que o filme tem a audácia de apontar o rifle da crítica para quem merecer, sem distinção. Certos políticos que assistirem ao filme sairão da sala um tanto quanto agulhados, e sairão agulhados justo numa época de eleição. Sensacional. Outro ponto positivo é a contrução de personagens. Eles são tão profundos e tão realistas - Padilha não os filma e nem os escreve com o mínimo de maniqueísmo - que nos sentimos tocados por eles desde o princípio . De alguns, temos raiva, de outros, adoração. E de alguns, ambos - como o personagem de Irandhir Santos, o deputado Fraga. Todo esse esmero na carpintaria dramática gera uma sensação de tensão constante, desde que o primeiro frame é exibido até o fade-out final.
E o talento de José Padilha na direção ajuda muito o filme . A câmera na mão não cessa, e até em momentos em que a câmera poderia ficar apoiada , Padilha a segura nas mãos. O leve tremer do instrumento que registra a ação gera um tom mais documental , e isto já havia sido testado no primeiro longa. Aqui, ele utiliza desse artifício em larga escala, e o combina com seus closes fechadérrimos, que acabam criando a sensação de claustrofobia necessária . Na ação, que é pontuada na medida exata , o tremer fica maior, e logo o tom de documentário também. De fato, a imersão que tais artifícios geram já foi testada antes, mas aqui funciona ainda melhor .Pode-se dizer, então, que Padilha não inventa moda, mas que seleciona muito bem o estilo que usar, no momento em que usar .
Acoplados a isso, temos os termos técnicos, que falam por si só . É impossível não olhar para a fotografia belíssima de Lula Carvalho e não ficar encantado. Gera sensações variadas e se adequa ao momento do filme sem alterar sua paleta . Em determinados momentos, passa sujeira, em outros, passa um tom árido, e em outros certo tom documental. Fora sua beleza contrastante, que já era chamativa logo nos primeiros trailers. A música de Pedro Bronfman também passa a tensão necessária sem abusar e sem descompassar. Serve como pano de fundo muito bem, se entrelaçando ao filme e não se destacando ou parecendo algo aleatório. E por fim, nem se precisa comentar o show comandado por Daniel Rezende na Montagem. Rápida como em Cidade de Deus, ele não foi indicado ao Oscar a toa.
Para coroar o filme, temos as atuações. Mais uma vez, sem nenhum erro, sem nenhum ator mal escolhido, e com talento de sobra. Destaque óbvio para Wagner Moura, que parece ter absorvido por completo a experiência do filme. O perfil de seu personagem está gravado não só por suas expressões faciais ou falas orgânicas . Sua postura corporal está modificada. O velho Nascimento firme e forte do primeiro filme está um trapo fisicamente, e sua atuação é a personificação perfeita. Os atores Irandhir Santos e Sandro Rocha também são espetaculares em seus papéis, e conseguem passar o filme todo sem derrapar, sem saltar caricaturas e costurar uma tridimensionalidade respeitável. O mesmo também vale para o sempre dedicado Milhem Cortaz. Quem também merece citação rápida aqui é o ator André Mattos. Quem conhece sabe que ele imitou perfeitamente o estilo de Wagner Montes, apresentador do Balanço Geral carioca, capturando seus trejeitos de forma muito verossímil.
De fato, Tropa de Elite 2 supera o seu original. Por ter mais maturidade, maior visão e maior apuro técnico. Uma verdadeira obra-prima do cinema nacional, que não existe por acaso, e que sabe explorar da maneira mais clara o possível os acontecimentos do dia-a-dia do Rio de Janeiro. Mais uma vez, Padilha e Cia jogam na nossa cara a realidade com toques de ficção muito bem caracterizados, passando informação e entretenimento simultaneamente, sem soar panfletário em momento algum. Filmes nacionais desse porte, que conseguem dosar sem exageros elementos variados, merecem ser vistos. E esse novo caminho tortuoso do nosso herói trágico Nascimento merece ser visto e revisto, definitivamente .
5 Estrelas *****
sábado, 9 de outubro de 2010
Tropa de Elite 2 - Crítica 1
José Padilha cria um soberbo filme político, tenso e panorâmico.Capitão Nascimento. Talvez o maior personagem brasileiro de cinema de todos os tempos. Não apenas em ser reconhecido pelo público e ter suas frases na boca de milhões de brasileiros, mas por causa da espetacular densidade dramática criada por esse personagem único e com pensamento singular, que parece ter todas as responsabilidades possíveis explodindo na sua cabeça. No primeiro filme, depois de cerca de 20 milhões de pessoas terem visto-o(contando as cópias piratas), Nascimento procurava um substituto á sua altura, que pudesse fazer suas funções com a mesma dedicação. Missão dada, missão cumprida, o sucesso do filme fez com que uma sequência fosse anunciada. Como o primeiro filme introduziu uma excelente história, apresentou personagens carismáticos e ainda implantou uma realista discussão moral, uma margem para um segundo era óbvia. Porém, as sequências de sucessos, como Transformers, se demonstraram ser apenas uma colagem de cenas de ação sem sentido apenas pra atrair público e dar diversão desregulada a eles.
Se Tropa de Elite 2 tinha tudo pra seguir esse rumo, como dava pra apontar no primeiro trailer lançado(que mostrava o BOPE resolvendo um problema numa prisão, o que parecia ser algo trivial e clichê, que só acrescentaria ação a uma trama tão rica). Porém, José Padilha e Bráulio Mantovani perceberam que a situação no Rio de Janeiro atual poderia ser utilizada como pano de fundo para um legítimo filme-panorama, mostrando todos os espectros de uma organização muito maior do que aparentava ser no primeiro filme: o Sistema. E, sem deixar se levar pela tendência de elevar a ação, elevar as frases de efeito e elevar tudo para a sequência, os roteiristas criaram uma película inesquecível, com ação pontuada e diálogos excelentes. Portanto, Tropa de Elite 2 pode carregar a imensa qualidade adquirida em Tropa 1, mas pelas suas melhorias técnicas, de atuação e roteiro, é um filme totalmente diferente. Difícil comparar duas obras tão distintas, mas se formos usar um linguajar mais fácil, diria que Tropa 2 supera o original.
A trama, contada de diversos pontos de vista, segue o Capitão(agora Tenente-Coronel) Nascimento(Wagner Moura) em uma cruzada pela justiça no Rio de Janeiro. Apesar de deixar André Matias(André Ramiro) no seu posto, uma pessoa digna em sua avaliação, Nascimento se viu obrigado a continuar chefiando as operações, mesmo que não atue mais nas ruas. O antes tensionado e pilhado Capitão viu a idade chegando, está mais calmo mas continua irredutível em sua filosofia de vida. Após alguns problemas em uma prisão no início do filme, o BOPE ganhou repercussão internacional ao ter que bater de frente com o ativista dos direitos humanos Diogo Braga(Irandhir Santos). Com o apoio do governador, os direitos humanos começam a ser mais avaliados e, apesar do povo estar do lado de Nascimento, o BOPE perde força. Porém, quando Nascimento é chamado(pela pressão pública no governo) a ser subsecretário de segurança, o BOPE volta com força total e acaba inteiramente com o tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Era Nascimento criando uma máquina de guerra, como ele sempre idealizou.
Vendo que os traficantes estavam nas vacas magras, os policiais corruptos arrumaram um novo jeito de arrecadar dinheiro ilegal: A prestação de serviços a comunidade em troca de segurança, as polêmicas milícias. Poderia ser apenas um novo problema para Nascimento, algo a ser resolvido com força e inteligência, mas o buraco é ainda maior. Apoiados secretamente por políticos e gente muito influente, os milicianos mandam e desmandam em vários locais e só crescem com o passar do tempo. Encurralado por todos os lados e com sua pressão afetando até o lado pessoal, em suas relações com o filho(que cresce achando o pai um assassino), Nascimento percebe que o Sistema vai além da polícia corrupta e sua guerrinha com os traficantes. O Sistema tem origem em Brasília.
Nesse poderoso cenário político, que concilia ficção e realidade com uma destreza impecável, Tropa de Elite 2 toma um novo posto de narrativa: a de tabuleiro. Se antes era retratado o cotidiano dos policiais, dos personagens, com um filme que os privilegiava, agora a situação é vista de cima, com inúmeros personagens(prepare-se para cerca de 10 coadjuvantes realmente relevantes). A história do primeiro se focava em Nascimento, Matias e Neto contra a corrupção. Agora, temos todos os lados dessa guerra, com personagens políticos, da polícia, jornalistas, bandidos e até a família de Nascimento. E nisso, talvez o público se decepcione: não há mais frases de efeitos, nem um monte de bandidos sendo mortos. Agora, o que dá as cartas é o drama, é a manipulação de pessoas em prol de alguma coisa. Tropa 2 até toca em quesitos emocionais fortes, como a briga de Nascimento e André, a sua instável relação com o filho e a rivalidade grandiosa entre Braga e o Capitão. E tudo isso é bem realizado pelos roteiristas, que elevam os nossos conhecidos personagens a situações tão extremas que é como se cada minuto do filme fosse uma missa de Requiem para cada um deles.
Fora o núcleo do filme anterior, Tropa 2 ainda apresenta os outros personagens do panorama com bastante felicidade e nenhum didatismo desnecessário. Mais que isso, os inteligentes diálogos criados variam de cenários constantemente, justificando os embasbacantes 16 Milhões que o filme custou. Dividido em diversos atos, passados em cerca de 5 anos, o roteiro alcança um equilíbrio perfeito entre personagens bem construídos e situações críveis e interessantes. Vendo Tropa 2 até parece que Padilha e Mantovani viram muito Traffic, filme de Steven Soderbergh. O que Traffic representou para as drogas, Tropa 2 representará para a política brasileira. Até mesmo semelhanças de personagem acontecem. Nascimento é o Robert Wakefield da vez, o homem responsável por controlar uma força que ele não conhece completamente e começa a repensar tudo quando problemas pessoais o atinge. Como Traffic, Tropa 2 ganha um elogio que não poderia ser melhor: obteve êxito em organizar tantas informações em tão pouco tempo. Outro ponto ótimo é a construção de personagens, que não poderia ser melhor.
Mais uma diferença monstruosa para o primeiro Tropa é seu discurso moral. Antes imparcial, o discurso do filme, legitimado pela precisa narração em off de Nascimento, apresenta variações. Nascimento poderia sim falar tudo o que ele disse da corrupção no Rio(e, na minha visão, está totalmente certo). Porém, quando descobre que o Sistema(nomenclatura para o sistema da corrupção) é muito maior que ele imaginou, Nascimento repensa seu discurso. Sua moral de bandido bom é bandido morto continua intocável, mas seu discurso precisa ser mudado visto que seus inimigos agora não são meros traficantes e playboys que podem ser muito bem mortos. Ganhando evidência no povo e na mídia, agora Nascimento tem que enfrentar de frente os poderosos.
E não basta apenas dar um tiro na cabeça de cada um deles para o problema ser resolvido, afinal, como aprendemos no primeiro filme, o líder muda mas o Sistema continua. O peso que o Capitão carrega é gigantesco e as dúvidas quanto ao mundo que ele vive são tantas que a pressão só piora sua cabeça e ele se vê cada vez mais abatido. Espetacular esse tal Nascimento. Personagem forte, esplêndido, que não se deixa perder e simplesmente levanta e continua. Mesmo sendo pisoteado, ele permanece vivo na cruzada pra salvar o Rio. Essa mudança de postura poderia soar frouxa, mas vendo com mais cuidado, percebemos que tudo aquilo continua intocável e a postura precisa ser abrandada apenas para o panorama funcionar, sem tomar decisões precipitadas. É emocionante ver que ainda temos cineastas talentosos a ponto de construir uma cadeia de eventos diversos, sem julgar ninguém e ainda assim tomar uma posição diante daquilo tudo. E quanto ao Capitão ter se afrouxado, acredite, não poderia soar mais incorreto. Basta vermos o GENIAL discurso final dele no filme para percebermos que ele permanece o mesmo cara, mas o inimigo agora é alguém vulnerável a suas balas.
Se o roteiro é tão espetacular em equilibrar situações políticas e uma tensão gigantesca na ação pontuada durante o filme, temos uma técnica á altura. A direção de José Padilha é de tirar o fôlego, com uma ação coordenada de forma concisa e que é fácil de acompanhar, sem precisar cortar um milhão de vezes e impedir o público de saber o que está acontecendo. O plano sequência não é utilizado, mas os cortes ocorrem de forma natural. Fora isso, os ângulos obtidos nas partes de drama e a constante utilização de mudança de foco de zoom nas cenas só auxiliam o filme a ficar melhor. Juntando isso a planos grandiosos(inéditos no Brasil) e uma genial sequência pré-créditos em que a câmera vai se aproximando, em câmera super lenta, ao Honda Fit metralhado, temos uma direção perfeita. Sem medo de repetir, perfeita mesmo. Mas talvez ela não seria nada sem a edição do indicado ao Oscar Daniel Rezende. Repetindo o excelente ritmo adquirido no primeiro longa, Daniel melhora sua edição e seria facilmente indicado novamente se o filme não tivesse negado a inscrição ao prêmio. Aliando-se a direção, a edição pontua a tensão GIGANTESCA que o filme impõe.
A direção de fotografia de Lula Carvalho melhora ainda mais o tom realista e saturado do primeiro longa, fazendo algo muito profissional e causando inveja tecnicamente a filmes como Se eu Fosse Você ou Olga. Já a trilha de Pedro Bronfman extrapola. Sendo excelente de ouvir separadamente, ela ainda é perfeita pro filme. Criando melodias extraordinárias e que elevam a supra-citada tensão do filme a milésima potência, Bronfman ainda reutiliza alguns acordes do primeiro filme. E não há acordes de violão mais tensos do que os usados pelo compositor. Outros 2 elementos ótimos são os efeitos visuais e a direção de arte, que dão um toque mais bonito e profissional ao filme, de fazer inveja a filme estrangeiro.
As atuações são a cereja do bolo. Wagner Moura mais uma vez atua de forma hipnótica como o Capitão. Entrando no personagem novamente de forma hercúlea, o ator ainda cria novos sentimentos a Nascimento, apresentando um personagem mais humano e maduro, que descobriu esses tais sentimentos que eram desconhecidos por ele até 15 anos atrás. Mesmo só passando 3 anos desde o lançamento de Tropa 1, Wagner faz parecer que se passaram 15. Que profissional invejável. André Ramiro chega também com sua essência de antes e nos faz lembrar e ter novamente os laços afetivos com o personagem, criados em 2007. Irandhir Santos faz o ativista com uma entrega muito boa, dando seus argumentos de forma coesa e quase apaixonada. Mesmo seu personagem começando como "intelectualizinho de esquerda" no filme, ele começa a ganhar uma visão maior e melhor dos fatos, porém cometendo os mesmos erros do início. Tudo isso captado com precisão pelo profissional. Fora os três, o excelentes outros atores fazem seu papel com a mesma precisão.
Sendo assim, Tropa de Elite 2 é vitorioso e, um cru e realista panorama do crime e política no Brasil. Corajoso principalmente, lançado na época das eleições, mostrando verdadeiras facetas de inúmeros políticos. Não tem a tendência de ser chamado de facista como o primeiro foi, mas permanece tendo uma visão particular de todos os fatos ali descritos. Impressionantemente, a ideologia do primeiro continua em menor escala, mas continua, mesmo sendo sufocada pelo panorama ali imposto. Um completo caos, como o panorama descrito pelo filme. Essa é a cabeça de Nascimento, o Rio de Janeiro e o intrigante tabuleiro de ideias e corrupção que é a política no Brasil. Vá com fé ao cinema e tenha uma aula do que está ocorrendo no Brasil atualmente, veja um excelente filme e torça muito pelos personagens que aprendemos a apreciar há 3 anos atrás. Tropa 1 já oferecia uma visão singular das coisas, mas Tropa 2 é superior pelo fato de mostrar isso de cima, do espaço.
Faca na Caveira. Nascimento acredita nisso e continuará acreditando. Mas muitos querem que ele se cale. Resta a nós, como a ele, um grito sufocado.
***** 5 Estrelas