Old School Nerds

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domingo, 6 de março de 2011

Bruna Surfistinha

Pieguice e Deborah Secco em filme hipócrita sobre prostituição.

No Brasil e em todo mundo, a temática sexual possui , obviamente, apelo maiúsculo . Tema que atrai atenções, multiplica opiniões . Várias opiniões surgiram, afinal , com o livro O Doce Veneno do Escorpião , lançado por Raquel Pacheco , contando as aventuras de sua rotina como a prostituta Bruna Surfistinha . Claramente , o livro possui ousadia , - já de cara pela história que conta - tendo em vista obviamente suas páginas negras lacradas onde a ex-garota de programa dava detalhes de suas façanhas sexuais . Não há pudores , nessa área , pelo menos , para Raquel Pacheco ,nem em sua vida , nem em seu livro .

Na adaptação cinematográfica , no entanto , não é bem por esse caminho . Um filme que pretende debater e ilustrar um cotidiano que não é conhecido a fundo pelo público geral necessita-se, antes de mais nada, despir-se de pudores . Mas não falo de pudores de conteúdo sexual, ou de suas cenas picantes, ou qualquer coisa do gênero - era preciso se livrar do modo convencional, e por vezes burro, de lidar com seu protagonista. Martirizar, vitimizar e fragilizar, são as vozes de comando essenciais para o filme de Marcus Baldini . Abordagem clichê, típica da visão limitada de alguns roteiristas existem sempre , e sempre veremos . O que prejudica mesmo é um filme sobre prostituição portar essa pieguice .

Sem se enrolar na hora de montar a linha narrativa, o longa dá uma pincelada na vida de Raquel antes de fugir da casa dos pais - e é nesse meio tempo que começa a vitimização da protagonista . Mostrando ela sendo agredida verbalmente pelo irmão em casa , e destruída moralmente na escola , o roteiro faz questão de atenuar qualquer atitude ''duvidosa'' da protagonista - como roubar jóias dos pais - mas, por outro lado , ora , não dosa a quantidade de maniqueísmo contido nas atitudes cruéis dos coadjuvantes .

É só o lançar das bases de uma modelação infeliz de ''vítima'' , da personagem principal. Esse olhar na tentativa de ''elevar'' a protagonista, de algum modo, acaba por tirar bastante de seu realismo - e se o filme não descamba para o chavão pastelóide, muito se deve por Déborah Secco, que segura até onde consegue . E se um filme sobre prostituição perde seu realismo, perde logo sua visceralidade, e fica a sensação desconfortável e irônica de assistir um produto piegas que conta uma história que , na prática, nada tem disso. Essa perda da visceralidade, aliás , deve-se em suma pelo roteiro, por fim . A cada take mais bem ajambrado de Baldini - a câmera fixa na cara de Secco quando Raquel está em seu primeiro programa - temos uma narração em off desnecessária e inconveniente , que só traz de acrécimo uma hiper-exposição infeliz .

Mas não é só disso que vive Bruna Surfistinha , afinal . O objetivo era mostrar o início, o galgar do sucesso, o apogeu, a decadência e o desfecho. Aí é um somatório de pequenos erros coroados com um ato falho final . Ora, Bruna fala, em certo momento de seu apogeu , para nunca desistir de seus sonhos, que seu objetivo sempre chegará se você lutar . Não me parecia o sonho de Raquel - tão pouco de qualquer ser humano - se tornar uma grande prostituta . Parece, sim, um caminho em círculos '' batalhar muito para ser prostituta, e assim ser coroada uma grande prostituta'' . Isso lá parece grande conquista ? Enfim, isso varia de cabeça, mas o filme já deixa seu argumento com embasamento dúbio .

E se Bruna tem sua desgraça na cocaína, o script desenha sua derrocada de maneira preguiçosa e pouquíssimo detalhada, pra não dizer capenga . Feita as pressas, fica dificil absorver as proporções do acontecimento . Arco importante e mal desenvolvido, algo que não pode ser feito.

Mas talvez o principal problema de Bruna Surfistinha seja seu tom hipócrita que incomoda de verdade . O discurso de Raquel, é afinal, a independencia, a liberdade, o fim das amarras, a felicidade de ser solta . Por esses motivos e por outros ela deixou a casa dos pais, certo ? Pois no seu desfecho, no seu ponto final, é que todo o filme parece ser um enorme loop que vai até muito longe para voltar a praticamente o mesmo lugar . Por mais que o longa acredite que Raquel foi uma vitória de independência , ele mesmo se contradiz - a imagem que fica, ao fim da exibição, afinal, não é de um vulcão sexual determinado, mas de uma frágil menina perdida.

2 Estrelas **

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O Vencedor

David O. Russell e seu divertido retrato familiar sobre boxe.

Cinebiografias tem, por excelência, uma possibilidade muito grande de se tornarem consagradas. Para cada aberração como Fique Rico ou Morra tentando, temos dez A Rede Social. Os filmes de boxe seguem esse estilo. Rocky e O Campeão conseguem ser exemplos de narrativa e usam o esquema de superação de forma estimulante, geralmente culminando na luta final, que tende a ser inspiradora e emocionante. Quando os dois sub-gêneros se fundem, potencializa-se a emoção e geralmente saem obras memoráveis como Touro Indomável. Porém, o tempo fez com que existissem diversos tipos de "filmes de boxe". Se Hurricane e Ali são exemplos do filme de superação, foram criadas variações para o gênero não se tornar repetitivo. A partir daí, surgiram filmes que usavam o boxe apenas como pano de fundo para uma vida difícil(Touro, O Invencível), contos morais dramáticos(Menina de Ouro) e até mesmo filmes noir com pano de fundo do boxe(A Morte passou por Perto). Todos os gêneros bem sucedidos, vale dizer. Logo, é fácil constatar que é difícil se errar com um filme de boxe.

Obras sobre boxe rendem filmes competentes, sem dúvida, mas é raro ver algo que é digno de nota máxima, como o elogiadíssimo Touro, o ótimo Menina de Ouro e o emocionante Quando Éramos Reis. As variações no sub-gênero são essenciais no que diz respeito á qualidade das obras. Pegando como exemplo os filmes de roubo, temos o conflito da segurança contra ousadia, o que separa um filme competente de uma obra-prima. Se o recente Atração Perigosa não alcança um lugar na memória dos deuses do cinema é justamente por não ousar. Como comentei na crítica do competente filme de Ben Affleck, Fogo contra Fogo é a variação ousada do filme de roubo, o que o torna especial e inesquecível.

E no filme de boxe a coisa anda de um jeito similar. Um filme de superação comum não ficaria no páreo com um Menina de Ouro, por exemplo. Deve-se haver um diferencial. E O Vencedor, novo filme do - indicado ao Oscar - David O. Russell, é um filme de superação que quer fincar seu pé na calçada dos filmaços do gênero.

Rotular o filme apenas como de superação seria um erro. Flertando com o esquema de filmes como Os Infiltrados e o próprio Atração Perigosa, O Vencedor entrega um interessante retrato sobre o povo de uma cidade de interior americano. Se nos filmes de Scorsese e Affleck a abordagem era policial, Vencedor tem um panorama dramático-cômico pra sua vizinhança, retratada com leveza pelos roteiristas Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson. E esse ritmo, que demonstra bem a admiração dos roteiristas e de O. Russell por Lowell, o local onde Micky Ward nasceu, é intenso e nunca deixa a película cair no esquecimento. A atmosfera dos anos 90, recriada de forma simples e competente, faz com que cada nuance do drama da família seja potencializado, dando um tom mais real ainda a tudo ali. A história de boxe de Micky Ward, retratado de forma enérgica e eficiente por Mark Wahlberg, é a principal, mas o pano de fundo divertido dos curiosos habitantes de Lowell é o tal diferencial que O Vencedor usa para tentar calcar seus pés na memória.

Percebendo-se isso, é interessante constatar que O Vencedor é tão uma crônica sobre uma família desfuncional com origens irlandesas quanto um filme de boxe. Da mesma forma que Infiltrados e Atração retrataram os criminosos tradicionais e as pessoas normais daqueles locais, O Vencedor usa esse pano de fundo para sua história. Porém, como é um filme dramático, Vencedor se foca bastante nos conflitos internos. E justamente deles vêm as cenas mais pesadas do filme.

Mas, curiosamente, elas não são muitas. O filme de David O. Russell se foca bem no lado cômico dessa vizinhança e da própria redenção de Micky e seu irmão Dicky. Dando uma estética cool ás partes de boxe(utilizando recursos como a montagem ágil e frases de efeito) e cômica em várias partes do núcleo familiar, o roteiro tem como seu maior trunfo a consciência de sua natureza. Afinal, as situações em que somos apresentados não poderiam ser muito levadas á sério. A maquiada Alice, mãe do clã boxeador, interpretada com intensidade notável por Melissa Leo, disperta risos até mesmo pelo seu modo "elegante de interior" de se vestir. O artificial cabelo loiro de Alice é uma inteligente sacada visual. Ao mesmo tempo que nos apresenta um elemento recorrente dos anos 90, retrata bem o espírito da personagem(e do próprio filme). Apostando ferrenhamente no humor e no "feel good movie", O. Russell encontra nos caricatos núcleos familiares uma fonte cômica inusitada. A situação bizarra dos irmãos Micky e Dicky serem de pais diferentes ou a forma manipuladora com que Alice agencia a carreira de Micky é captada pelas lentes do diretor de forma irônica e extremamente divertida. E se poderia haver qualquer divergência entre o estilo cômico de O. Russell e um possível tom sério do roteiro, isso logo se invalida. Afinal, as 7 irmãs Eklund-Ward tem um desenvolvimento raso justamente para se apoiarem no humor, o que surge como uma decisão corretíssima, com grande destaque para a briga entre Charlene e as irmãs.

Charlene, por sinal, é construída com esmero pelo roteiro e pela magnífica atuação de Amy Adams. Ela é o parâmetro para Micky bater de frente com sua família e tomar um rumo de verdade em sua antes fracassada carreira de boxe. As partes em que Micky começa a ganhar voz na família são reveladoras, fundamentais pra narrativa e, novamente, captadas com leveza divertida.

E mesmo o retrato da carreira de boxe dos irmãos sendo esquemático, a ciência das limitações narrativas que o roteiro se impõe são fundamentais pra apreciação da história. Estão lá todos os arcos da superação do filme de boxe, mas somados ao núcleo familiar e ao tom surpreendentemente cômico, O Vencedor chega com dignidade a seu clímax, que é espetacular justamente pela construção formidável de situações e personagens que o filme de O. Russell tem. Deixando o público tenso e com uma torcida sincera pelo protagonista na obrigatória luta final, O. Russell realiza um filme redondinho e divertidíssimo, que entretem de maneira diferente e, acima de tudo, inteligente. E é nisso que O Vencedor vence de algo totalmente esquemático como Atração. O pano de fundo e o humor são fatores determinantes pro brilhantismo do roteiro.

Essas limitações narrativas não só são ajudadas pela parte cômica como são utilizadas em prol das atuações. Visando a possível caricatura que cada ator poderia ser sujeitado a fazer pelos seus papéis exagerados, o roteiro abre essa brecha pro overacting com rara qualidade. E nesse caso, a extrapolação de emoções é utilizado de forma interessantemente benéfica. Melissa Leo e os coadjuvantes podem estar atuando no limite do over, sim, mas a naturalidade com que tudo é encarado pelo filme é notável. Sendo assim, O Vencedor entra naquele seleto grupo de "filmes de atuação", desde a performance contida do ótimo Mark Wahlberg até a merecedora do Oscar, de Christian Bale.

O personagem de Bale, aliás, é o motivo maior das partes dramáticas e até a metade da projeção, quase engole o filme pra si. Mudando fisicamente de forma assustadora, Bale ainda cria seu personagem com competência equivalente á de seus Patrick Bateman e Bruce Wayne. A grande prova disso é a sequência mais pesada do filme, a exibição do documentário da HBO sobre o vício de Dicky Eklund. Arrebatadora e palco explícito destinado a Bale demonstrar todo seu talento.

Sendo bem sucedido no núcleo familiar quanto no inspirador e revigorante núcleo do boxe, O Vencedor é um perfeito feel-good movie. Uma diversão com um tom mais sério que o cinemão pipoca, mas sem dúvida vitoriosa e leve por ser ciente de suas limitações narrativas. Diferente de um Quem quer ser um Milionário, O Vencedor é um conto feliz, mas realista e firme nas emoções, diferente do episódico e fantasioso filme de Boyle, do qual Vencedor só compartilha o bom humor. Sem chegar perto de ser uma obra-prima, mas uma película que deixa uma felicidade agradável no ar. Merecedor de sua indicação ao Oscar(ainda que Christopher Nolan e Danny Boyle tenham feito direções muito mais competentes que O. Russell), O Vencedor é uma boa surpresa. Bom pra ver com descompromisso.

Sem surpresas, preciso, enérgico e cômico. Quem diria. Overacting bem feito é outra coisa.

**** 4 Estrelas

O Discurso do Rei

Equipe brilhante faz pronúncia de filme conservador soar bem .

Há de modo geral, muitas maneiras de se contar histórias no ramo cinematográfico . Existem vários estilos, desde os filmes de festival - que vão contra as regras fundamentais aceitas pela maioria do público médio - até os blockbusters mais previsíveis e batidos . A verdade é, que nesta última década, tivemos muitos cineastas rebuscando sua didática narrativa e fazendo filmes com orginalidade digna de se tornarem clássicos . São novas maneiras de se fazer filmes , métodos inovadores , e só pra ilustrar , podemos citar exemplos recentes como A Rede Social e Scott Pilgrim , que têm como seus destaques, o roteiro e a montagem, respectivamente . Sendo o filme de David Fincher o mais agraciado pela crítica geral , seria muito gratificante ver A Rede Social ser coroado como o melhor filme de 2010 no Oscar . Seria um passo a frente, uma verdadeira evolução, aceitação do novo . Mas na disputa da Academia desse ano temos um embate fortíssimo de duas realidades - o inovador X o conservador .

E o conceito de conservador se encaixa muito bem para o filme inglês aclamado internacionalmente , O Discurso do Rei , que se enquadra neste ''rótulo'' por justamente estar no estilo de narrativa que possui características clássicas, com certa dose de previsibilidade e um quê de esquematização . Não dá pra culpar, porém, de maneira nenhuma, quem realiza o filme . Apesar de ser uma trama baseada em fatos , era inevitável que o longa de Tom Hooper acabasse contendo diversos conceitos clássicos , dignos de filmes conservadores, que justamente recebem esse adjetivo por conservarem certas qualidades já visitadas em filmes anteriores. Contudo, por mais que O Discurso do Rei tenha uma mensagem um tanto quanto ultrapassada , fica anos luz de um filme dispensável . É um longa estruturalmente atrasado, mas traduzido em tela com real genialidade . Uma história redonda e básica , mas que tem na sua equipe - brilhante, no mínimo - o agente qualificador.

A trama , como poderão ver, tem certo tom esquemático a princípio . O Duque de York, Bertie(Colin Firth) , segundo filho do Rei da Inglaterra George V ( Michael Gambom) , é um príncipe com um problema fatal na sua carreira. Sofre de gagueira , o que complica muito sua atividade frequente fazer discursos dos mais variados . Para tentar curar seu distúrbio, sua mulher Elizabeth ( Helena Bohan Carter) recorre a um terapeuta da fala muito bem-sucedido , Lionel Logue ( Geoffrey Rush). Com um aprofundamento no problema psicológico que causa a gagueira do príncipe , Logue precisa ajudar Bertie na sua hora mais escura - A Inglaterra na eminência da II Guerra , e o fardo de ter que assumir o trono abdicado por seu irmão ( Guy Pearce) após a morte do pai .

De fato, a interface estrutural do roteiro de David Seidler é um tanto quanto clássica, desenhando uma história de superação á moda antiga , que já vimos tantas e tantas vezes . Tal tipo de trama já está no nosso inconsciente , e já partimos , portanto, de um ponto conhecido quando nos referimos a Discurso . Invariavelmente, também chegaremos ao mesmo destino conhecido, já que a própria sinopse já revela boa parte do conteúdo do longa . É esse ar de esquematização e de previsibilidade que pode tirar alguma força em relação a relevância do filme no contexto do cinema atual . Mas não tira, de forma nenhuma, a força que O Discurso do Rei possui de forma isolada, sem adentrar no mérito de comparação com outros longas candidatos a prêmios . Isso ocorre por que , mesmo que o seu conteúdo soe familiar , a sua forma, ou seja , sua condução , combinada com suas atuações , é muito acima da média .

Há vários pontos que servem para enaltecer a força que consiste na condução do roteiro . O tratamento muito cauteloso com cada um de seus personagens é talvez o mais clichê dos comentários sobre o filme, mas é a mais pura verdade que precisa ser mencionada . Um desenvolvimento muito humanista , que tem uma sensibilidade nas ocorrencias de suas emoções muito particular . Além disso, há momentos presentes em Discurso que geram um baque inevitável . É a boa colocação de uma imagem que substitui qualquer palavra gaguejada por Bertie, como no momento em que o personagem de Firth absorve os vídeos de Hitler esbravejando como líder e orador inquestionável , enquanto ele mesmo mal pode ler um texto para seus súditos . Não por acaso , Discurso do Rei utiliza esses momentos tão bem . Na melhor tradição do cinema clássico, á moda antiga, o que importa na película são as emoções transportadas para a tela, através de atuações verdadeiras, sendo a importância da trama estrutural visivelmente diminuída . Talvez então o grande trunfo do novo filme de Tom Hooper seja , ao se portar como conservador, absorver essa experiência por completo, possuindo alguns de seus problemas, mas principalmente, suas qualidades.

E se o roteiro tem na sua condução uma ou outra cena já batida , ela se diferencia pela câmera estilizada do competente Tom Hooper. Um momento claro onde a câmera de Hooper fez a diferença é na sequencia típica de ''treinamento'' , que é inerente a vários filmes de superação . Aqui, o cineasta utiliza cortes rápidos para dar a sensação de elipse temporal . Funciona para não deixar a cena cair no lugar comum . Além de funcionar nesses momentos, Hooper também consegue impor takes de estética elevada . O jeito de jogar a câmera para trás em determinados closes só engradece as feições dos atores, refletindo consequentimente no engrandecimento de seus personagens .

Personagens esses, que já seriam grandes o suficiente se dependessem exclusivamente da performance sublime do belíssimo elenco de Discurso do Rei . Verdadeiramente , este longa tem um dos melhores castings de 2010 - um ano que teve excepcionalmente castings muito bons como True Grit, Black Swan, Rede Social ,etc -se não for o melhor . Aqui, temos uma entrega completa por parte de todos os atores . Colin Firth, é o que mais se destaca, tendo uma interpretação completa , muito diferente do que já fez em outros filmes. O jeito anêmico de atuar de Mr. Darcy , de Bridget Jones , dá lugar a uma transformação assustadoramente competente . Firth reafirma aqui que é um ator eficientíssimo, se pegar um papel decente . Em determinado momento, a imersão no papel é tanta, que Firth simplesmente se transfigura, no nosso olhar, por alguns instantes . Desaparece no papel, literalmente , e incorpora todo o personagem . Perfeito . Geoffrey Rush também atua com grandeza e tridimensionalidade invenjáveis, e Helena Bohan Carter está perfeita no papel , nos deixando quase acostumados com sua competência habitual . Atuações sensacionais, que reforçam a ideologia de cinema a moda antiga (atores são o centro) abraçada pelo filme.

Por essas e por outras , é estreito enxergar em O Discurso do Rei um novo Shakespeare Apaixonado . Apesar da comparação ser tentadora para alguns, é exacerbadamente superficial . Primeiro por que há um abismo de qualidade que separa os dois filmes . Segundo por que Shakespeare Apaixonado usa seu estilo clássico com certa falsidade , sem se entregar, enquanto Discurso se entrega a esse estilo de corpo e alma , com honestidade, sinceridade e profundidade . Está longe de ser um longa supervalorizado. Tem a apreciação que merece, e merece muito. Um filme gago em sua premissa, mas que com a atuação de uma equipe eficiente, conseguiu fazer um belo discurso em nome do cinema á moda antiga .

Resta avisar a Academia, de que filmes no estilo deste, são oscarizados desde sempre. Premia-lo ao lugar do que é inovador, por mais qualidades que este tenha, é um sinal de estagnação .

5 Estrelas ***** - Excelente .

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Old School Trailers

Piratas do Caribe 4

A série de sucesso da Disney, que teve em seus dois capítulos anteriores, somando-os, uma arrecadação de 2 Bilhões vêm de volta, dessa vez tendo um livro de base: On the Strangers Tide. E a curiosa estratégia dos roteiristas de basearem um filme num material previamente existente é interessante, ao ponto que a partir daqui, novos capítulos podem ser realizados. O trailer aponta justamente tudo o que se espera da série: Diversão, fantasia, batalhas e Johnny Depp salvando o filme com seu Jack Sparrow. Dessa vez, apenas ele e Geoffrey Rush voltam dos filmes anteriores, provando a busca de novos horizontes que a franquia almeja. Um bom lançamento para quem gostou dos anteriores. Para os não-fãs da série, como eu, apenas um blockbuster corriqueiro de verão, com a dose certa de diversão.

*** 3 Estrelas

Rango

O novo filme de Gore Verbinski - que deixou a direção de Piratas 4 justamente por esse Rango - apresenta um interessantíssimo trailer, com um personagem com muito potencial de ser um dos mais carismáticos do ano. O lagarto Rango, dublado pelo neurótico Johnny Depp, é introduzido de forma brilhante nesse trailer vitorioso. O uso pontual da trilha sonora, as cenas bem editadas e um clima bem-humorado e inteligente contrasta totalmente as animações de ação atuais, com seus trailers ágeis e com trilha altíssima. Uma pequena obra a ser vista, com seu humor inocente e sua trama competente e interessante. Teoricamente um faroeste cômico de animação, Rango promete.

***** 5 Estrelas

Pânico 4

O trailer do novo filme da antologia, dirigida pelo esquecido Wes Craven, joga com todos os elementos que fizeram a série famosa, numa trama que resgata a metalinguagem cômica do filme original. Fora isso, o filme é atualizado por mostrar, novamente na metalinguagem, que os fãs dos filmes de terror estão vascinados já. É hora de revolucionar o gênero do terror, pensa o jovem diretor do filme dentro do filme. Assim como o jovem, Craven tentará de todas as formas colocar a franquia nos trilhos e, principalmente, apresentá-la ao novo público que o conhece pelo imbecil A Sétima Alma, e não por clássicos como A Hora do Pesadelo. Resta esperar pela estreia.

*** 3 Estrelas

Mother's Day

O idiotizante trailer do novo filme do "diretor" Darren Lynn Bousman, de filmes como Repo! The Genetic Opera e Jogos Mortais 2 e 3, apresenta o remake do trash da Troma, lançado em 1980. A trama, que pouco tem a ver com o tom exploitation do original, conta a história de uma mãe que, após ser desapropriada, ajuda a soltar os 2 filhos delinquentes para eles aterrorizarem os novos moradores da casa. A trilha sonora retardada e de tons excessivamente cafonas só atrapalham a visualização do mal-montado trailer, que só dá sinais de ser a bomba do ano, ao tentar ser sério numa trama tão implausível(e remake de um trash!). Rebbeca de Mornay faz a mãe, demonstrando estar no fundo do poço. Lynn Bousman promete aqui atestar, mais uma vez, sua falta de talento. Evite.

* 1 Estrela

The Mechanic

O remake do filme com Charles Bronson é desta vez estrelado pelo lutador-ator mais cool do cinema atual, Jason Statham. A rasa trama conta a história de uma assassino que precisa ensinar as funções de "mecânico" para um aprendiz(Ben Foster). O descompromisso e a presença constante de sangue no trailer tornam esse filme um bom candidato a guilty-pleasure do ano. As câmeras super-lentas em imagens plásticas, como a Barrett .50 disparando, auxiliam bastante também. Uma real possibilidade para Simon West de fazer seu primeiro filme decente, após experiências esquecíveis como Tomb Raider e ridicularidades como Quando um Estranho Chama. Vale a pena, pela ação e o carisma de Statham.

*** 3 Estrelas

Cedar Rapids

O filme com a revelação de Se Beber Não Case!, Ed Helms, demonstra ser uma competente comédia, com um humor refinado e algumas referências divertidíssimas, explorando a imagem de looser construído para Helms. Fora isso, a distribuição da Fox Searchlight, divisão de arte da Fox, faz com que as esperanças crescam pra cima desse curioso filme. Um trailer inspirado sobre a história de um homem com poucas ambições, que vê em poucas coisas da vida, como num carro alugado, a alegria e sinal de status. Somando isso ao timing cômico perfeito de John C. Reilly, temos em Cedar Rapids uma das comédias mais promissoras do ano.

**** 4 Estrelas

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Amor e Outras Drogas

Roteiro quase sabota filme de atuações e temáticas interessantes .

Filmes de comédia romântica em geral têm fases na indústria cinematográfica . Há épocas em que as mocinhas são as encalhadas , épocas nas quais casais interagem em filmes de ação . Talvez uma fase da safra atual seja a do sexo sem muito comprometimento . O filmes No Strings Attached - traduzido no Brasil justamente como '' Sexo Sem Compromisso'' - ainda não estreou , mas já possui na sua sinopse essa temática de um casal que só quer se relacionar pelo sexo, não estando dispostos a ter um relacionamento propriamente dito , e se livrar das amarras e frustrações que um namoro de verdade pode ocasionar . Invariavelmente , os dois se apaixonam, e precisam lidar com isso .

Amor e Outras Drogas é um exemplo desse tipo de filme . Mas não se foca nessa temática, como o filme de Natalie Portman e Ashton Kutcher deve vir a fazer. Existe a exploração , vista já no seu título , com a indústria farmacêutica em geral, tomada de uma perspectiva mais cômica , e também de um drama relacionado a doença - no caso , a doença de Parkinson . Essas temáticas múltiplas , que acabam tendo até uma unidade , ao final, não são problema algum , ao contrário . O problema do novo filme de Edward Zwick é o seu script fortemente esquemático , previsível em cada detalhe, e que , devido a isso , não consegue fugir do clichê .

A história do filme começa do ponto de vista do vendedor de eltro-eletrônicos Jamie Randall (Jake Gyllenhaal) que se empregou na loja para contrariar o pai, que queria que ele seguisse a carreira de médico . Devido ao seu estilo completamente mulherengo , ele acaba sendo despedido, e na busca por um novo emprego , adentra nas fileiras dos representantes da indústria farmacêutica, mais exatamente na gigante Pfizer . Um dia, acompanhando um médico, ele conhece uma paciente, chamada Maggie Montgomery( Anne Hathaway) . Depois de chama-la para sair , eles constroem um acordo de apenas se encontrar para transar , sem nenhum compromisso . Lógico que eles acabam se envolvendo mais que isso, e têm que lidar com o amor e também com o mal de Parkinson de Maggie, que já tem a doença degenerativa com apenas 26 anos .

A introdução do filme é bem construída para mostrar alguns pormenores que o público não conhece das gigantes empresas farmacêuticas . Os métodos pouco ortodoxos que os vendedores bolam para passar as amostras do seu produto e não as amostras do concorrente , a chatice que os representantes proporcionam perseguindo os médicos , etc . Claro que isso é tudo alegoria e serve apenas de tempero para a história do casal protagonista . Mas são alegorias até interessantes e que produzem bons momentos - a descoberta do Viagra e a verdadeira revolução que o produto gerou é um ponto alto , afinal , o personagem de Gyllenhaal é uma verdadeira pílula azul ambulante , e combina como vendedor bonachão .

O núcleo da história que interessa - o romance entre Jamie e Maggie - era previsível desde o trailer , mas até aí , não temos um erro . O clichê por si só não é um deslize imperdoável, e alguns filmes simplesmente não conseguem fugir dele , mas , por possuírem uma execução bem fundamentada , conseguem agradar . O problema começa quando vemos na nossa frente a esquematização do roteiro . Uma coisa é você ter noção de qual vai ser o final de um filme, mas ter prazer em ver informações novas até lá , a outra é você saber exatamente qual arco está sendo apresentado no momento, e ter já conhecimento das curvas que a trama vai fazer até os créditos finais . Exemplos disso : Tron Legacy e Avatar , respectivamente . E fica complicado não comentar da esquematização escancarada de Amor e Outras Drogas , quando , em um momento, temos quase um vilão -imbecil - no filme . Fora isso, os 4 arcos clássicos dos filmes românticos são respeitados â risca , e temos, vejam só , uma quase ''cena de aeroporto '' . Aí fica difícil .

De inovador, porém ,podemos indicar a o arco da doença de Maggie - que é pelo menos ''incomum'' em filmes do gênero em geral - e a própria temática farmacêutica em si . Essas ''alegorias '' acabam por fazer sentido juntas, numa unidade , afinal . Mas o que mais pode se aproveitar em Amor e Outras Drogas são as atuações de Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway . Os personagens são acima da média - principalmente a personagem de Hathaway - e as interpretações dos protagonistas são definitivamente superiores ás que podemos encontrar em filmes similares . E o melhor é que eles combinam , existe uma química interessante que deixa as cenas da dupla mais orgânicas, e talvez isso seja mérito também do diretor Edward Zwick . Apesar de aqui ele não mostrar muitos arroubos no manuseio das câmeras - faz o feijão com arroz com qualidade mínima necessária - ele tem competência suficiente para deixar os dois atores muito à vontade e extrair deles atuações muito eficientes .

O que é duro de engolir mesmo é a esquematização extrema do roteiro . Isso passa com dificuldade pela garganta , mas a perfomance de Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway são a bebida que ajuda a descer. O desfecho piegas dá uma sensação desgostosa, assim como todo o chavão presente do filme também faz . Mas, sendo um produto inofensivo , não é preciso fazer nenhuma propaganda contra - mas também não farei a favor .

3 Estrelas *** - Aceitável

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Biutiful

Iñarritu e sua sátira dramática involuntária.

Não é necessário acompanhar a carreira de Alejandro González Iñarritu a fundo para saber que o diretor mexicano tem como sua identidade os pesados arcos dramáticos. O diretor de Amores Brutos, 21 Gramas e Babel cruzava as tramas de forma com que sua narrativa ficasse pesada a ponto de fazer o público querer um descanso breve. E se sua dramaticidade era tão carregada, não era apenas devido a sua direção. O roteirista Guillermo Arriaga, autor dos 3 projetos do diretor, era o grande responsável por toda a desgraceira que Iñarritu gosta tanto de filmar. Porém, após a briga dos dois, Arriaga foi naufragar na sua estreia na direção, The Burning Plan. Agora, era a vez de Iñarritu provar seu valor por si só, sem a ajuda do célebre autor, responsável também pelo roteiro do intrigante Três Enterros.

E quando se percebe a trama de Biutiful, o novo projeto do cineasta, sente-se um quê de metalinguagem, uma tentativa cinematográfica de desprendimento a seus trabalhos anteriores. Se Arriaga criava tramas que causavam desconforto ao espectador, Iñarritu cria uma história de segundas chances. Uxbal é um homem que ganha a vida em Barcelona explorando imigrantes de diversas etnias. Dos chineses fabricantes de bolsas aos africanos camelôs vendedores delas, Uxbal ganha dinheiro por essa rede sem ser um cara sem escrúpulos, sendo mais uma vítima da luta pela sobrevivência. A realidade muda quando ele, que possui um dom de se comunicar com os mortos, descobre ter câncer. Então, começa a luta para o amargurado homem começar a ver beleza naquela vida suja.

Essa iniciativa de Iñarritu, buscando identidade própria ao tentar ver beleza no mundo cão de Arriaga, é uma interessante provocação ao seu antes parceiro e uma busca por novos horizontes. Ainda que anteriormente testada(o cinema já ensinou umas 100 vezes que todo homem terminal tem que ver beleza na vida antes de morrer), a trama poderia ser executada de maneira correta e, nesse ambicioso contexto, soaria algo até inovador. Mas se não havia melhor pessoa pra executar as tragédias sem fim de Babel e 21 Gramas, Iñarritu prova que não há pessoa pior pra mostrar beleza no mundo que ele.

O pessimismo e cinismo são pontos de partida para exemplares obras-primas, como Beleza Americana e Foi Apenas um Sonho(não por acaso, os dois de Sam Mendes), e até mesmo o mexicano havia provado saber bem explorar o melodrama moderno. Porém, Iñarritu compõe uma trama que simplesmente não tem sentido de existir em seu contexto de mundo justamente por ser imparcial em sua visão de narrador. Como as tramas paralelas anteriores foram embora, um único personagem é a vítima do mundo cão e a antes equilibrada balança trágica de Arriaga soa uma involuntária comédia de erros. Apresentando o filme de uma forma suja desde o início, quando os bonitos alpes italianos são retratados de maneira opaca e cinzenta, Iñarritu pesa mais ainda a mão quando introduz a Barcelona de sua história, um ninho sujo e horrível que aqui representa a metonímia da desgraça mundial pro diretor. Não por acaso, Arriaga explorava esse recurso de forma muito mais hábil em Babel, onde a tragédia acontecia nos diversos pólos do mundo justamente pra não soar forçada. Em Biutiful, porém, Barcelona não pode ter apenas camelôs, imigrantes ilegais e policiais corruptos. Tem que ter também um mendingo com um insistente pombo em cima dele e ainda ter prédios com fachadas destroçadas.

Logo, desde a ambientação da trama, somos apresentados ao mundo que Iñarritu parece tanto gostar. Auxiliado pela incisiva trilha de Gustavo Santaolalla, potencializando as emoções do espectador, Iñarritu ainda se apoia na sórdida fotografia de Rodrigo Prieto para mostrar tudo nos mínimos detalhes. Sem deixar de soar expositivo por um segundo sequer, o diretor ainda mostra a casa de Uxbal como um lugar inabitável, com piso desleixado e infiltrações diversas nas paredes. Além disso, desenvolvimento de personagens parece não ser o forte do roteiro de Armando Bo, Nicolás Giacobone e do próprio Iñarritu. Ainda que mostre Uxbal como um ser bem humano e tridimensional, os coadjuvantes são meros fantoches do mundo do diretor. Esquecendo a potencial sutileza de ser narrador-observador, o que tornaria a sua visão imparcial, no mínimo, justificável, Iñarritu interfere nas possíveis ambições e emoções de seus personagens só pra explicar pela milésima vez que ele acha o mundo um caso perdido.

Fora isso, Iñarritu ainda subestima todos os coadjuvantes e, não satisfeito, subestima sua própria equipe. Quando o filho de Uxbal chuta a mesa, o barulho é ouvido apenas pela excelente mixagem de som. Porém, Iñarritu ainda tem que fazer um take de baixo pra cima, pra reforçar que o garoto está chutando a mesa. Ainda que competente como diretor, com ângulos que contemplam seus atores com firmeza, o cineasta usa sua câmera de maneira incorreta em diversas cenas. Pra acabar de vez com qualquer possibilidade de identificação mínima com seus coadjuvantes-fantoches, o mexicano ainda evidencia sempre a presença do dinheiro em cena como algo mediador e solucionador dos problemas do filme. Um exemplo claro disso envolve a mulher de um africano, amiga de Uxbal. Iñarritu não deixa ela simplesmente se envolver emocionalmente com o sofrido protagonista ou até mesmo aceitar um dinheiro(olhe ele aí de novo) como fator de troca. Ele ainda tem que fazer a mulher pensar em fugir com o dinheiro sem cumprir o acordo. É tão forçado que consolida a idiotizante comédia de erros involuntária de Iñarritu. Talvez aí Biutiful tenha sua maior diferença á qualidade dos filmes anteriores do diretor. Aqui, Iñarritu se aproxima, sem intenção, do excelente e consciente de si, Um Homem Sério.

Impedindo qualquer chance de redenção de uma trama que simplesmente NECESSITAVA de redenção, Biutiful termina sem unidade ou propósito. Uxbal, vivido de forma esplendorosa e digna de prêmios por Javier Bardem, até tenta ver a tal beleza do título do filme, mas o diretor simplesmente não deixa. O coitado compra aquecedores para as famílias humildes e Iñarritu tem que fazer o gás vazar. É tão absurdo que o diretor simplesmente negue a fazer o que se propôs que chegam a ser engraçadas cenas como essa que citarei. A barbeiragem do diretor fica evidente ao cortar de Uxbal quase num sonho para uma imagem de conforto pessoal, o mar. Pois lá o diretor coloca os corpos, talvez ilustrando o pesar de consciência do protagonista. Porém, quando a cena se demonstra ser real, chega a ser hilário a incompetência do diretor nessa cena, que se parece com a batida de Sy Ableman, no já citado Um Homem Sério. Se os Coen utilizaram esse recurso de forma inteligente, Iñarritu simplesmente se chama de imbecil ao realizá-lo.

Biutiful assim termina, imperfeito, vítima de suas próprias ambições. Alejandro González Iñarritu prova que não mudou sua visão de mundo e que necessita de algum roteirista realmente competente pra retratar esse mundo cão que tanto adora, de forma competente. Exagerando tudo o que se coloca em tela em prol da desgraça, chega a ser emblemática a cena em que Uxbal está deitado na cama, enfermo. A sua amiga abre a janela, para a luz entrar. Talvez ali, quando a divina luz entra, Uxbal tivesse sua tão sonhada beleza e plenitude antes da morte. Mas, do nada, a janela fecha e é preciso que a amiga volte pra abri-la novamente. É engraçado pensar que o fantasminha de Iñarritu simplesmente tenha aparecido e fechado a janela, só por sadismo exarcebado. Não por acaso, Uxbal só alcança a plenitude naquela cena dos alpes, que abre e fecha o filme. Iñarritu se identifica tanto com o sadismo que realiza uma desgraça atrás da outra só para, no final, mostrar novamente o início. Filme desnecessário é pouco. Uma tremenda sátira á tragédia, de mal gosto e involuntária.

** 2 Estrelas

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O Turista

Diretor quadrado e roteiro vazio empalidecem produto descartável.

No último ano ficou claro a proposta hollywoodiana de faturar alto com blockbusters que misturam gêneros e agrupam grandes estrelas cinematográficas . James Mangold optou por um produto de entretenimento de fácil aceitação pelo público e nada ofensivo á critica - um retorno louvável de Tom Cruise, num roteiro simples, mas bem amarrado e desenvolvido, sendo muito bem capturado pela câmera contemplativa do diretor, que deixou seus astros bem á vontade para realizar um bom filme . Na contramão da honestidade bem executada de Encontro Explosivo , também foi cometido o deslize máximo de Robert Luketic, o pastiche enjoativo e cheio de erros Par Perfeito , que tentava - veja bem , tentava - usar uma química inexistente entre Ashton Kutcher e Katherine Heigl , para faturar alto mesclando comédia romântica com um filme de espionagem .

É o trabalho de Hollywood, afinal, tentar juntar gêneros para atrair o máximo de público possível . Nesse quesito, O Turista - remake do filme francês chamado Anthony Zimmer - já começa com larga vantagem . Juntar Johnny Depp, o queridinho de Hollywood , cotado para 11 entre 10 projetos da casa , e a musa Angelina Jolie , é a segurança mínima para pagar os 1oo milhões do orçamento . Ambientado 90 por cento de sua duração na bela cidade de Veneza , poderíamos apostar nossas fichas que o diretor do filme vencedor do Oscar - A Vida dos Outros - Florian Henckel Von Donnersmarck faria uma bela homenagem ao gênero de espionagem ao melhor estilo europeu . Contudo, essa afirmativa fica apenas nas intenções. O Turista é uma armadilha não só para o personagem de Depp - mas para todo o público .

A trama começa se baseando na esposa de um fugitivo da Interpol ( Angelina Jolie ) que é vigiada pela polícia 24 horas por dia onde quer que vá . Para tentar despistar o paradeiro do marido , ela recebe a missão de encontrar um outro homem , que se faça passar pelo parceiro ( que passou por uma cirurgia plástica) e o escolhido é o pacato professor de matemática Frank Dupello ( Johnny Depp). Claro que nada sai da forma planejada, e os dois acabam entrando em perigo nas paisagens venesianas.

Logo de cara, o roteiro de O Turista já começa com alguns leves deslizes . Toda a vigília em cima da personagem de Jolie é deveras expositiva , e mesmo que ela já soubesse que estava sendo vigiada - o que de fato sabia - não deixa o filme de ter, além destes momentos, uma espionagem conceitual um tanto escancarada, para um thriller do gênero . Esse, entretanto, é um dos erros mais ínfimos do longa de Von Donnesmarck . O script do filme tem muito mais defeitos - tanto de falta de respeito com o espectador, quanto de simples desleixo, e falta de aprimoramento ou acabamento . Note , ora, como a narrativa é extremamente vazia . Não há diferenciais explícitos , e muito menos implícitos, em O Turista . Perseguições comuns - e filmadas com pouco caso - não empolgam e dão a impressão enfadonha de alguém caminhando numa esteira : anda , anda, e não sai do lugar . Pode até sair do lugar , mudando de cenários, mas na mente de quem assiste, o filme parece continuar sem graça, e passa quase desapercebido pela tela .

Uma solução para isso seria tentar preencher de conteúdo nos locais que davam - e construção de personagens seria uma saída adequada . E , mesmo com uma atuação competente porém inibida de Johnny Depp - de Jolie só dá pra falar que ela se esforça como pode , principalmente pra imitar o sotaque inglês - não há nada que recheie suas personas com uma vitalidade . Von Donnesmarck sangra os closes o máximo tolerável ,e mesmo assim, a densidade dos personagens é diminuta , rasa como um pires . Não há vilões - aliás , o vilão do filme é bem esdrúxulo - ou coadjuvantes que possam fazer diferença e contrabalançar a palidez da construção dos dois protagonistas . O Turista molda seus personagens de maneira apática .

E se havia alguma maneira do longa não ser uma inutilidade completa , era necessário explorar os outros gêneros que permeiam o filme - como a comédia romântica, por exemplo . Neste ponto , esbarramos inevitavelmente na falta de aptidão do diretor com o tema . As cenas de ação , que no papel já não deviam estar lá essas coisas , transportadas paras as telas, perdem qualquer ponto positivo . Von Donnesmarck é um tanto quanto quadrado - engessado e sem a vivacidade necessária para embalar o filme de uma maneira interessante . E é verdade que a película tem alguns ápices cômicos , e se eles fazem rir, é mérito exclusivo do roteiro e da interpretação dos atores . Se Von Donnesmarck faz alguma coisa, é tornar qualquer momento mais opaco . E não é uma implicância sem motivo . O cineasta tem até bons momentos - como nos closes máximos nos protagonistas, que são esteticamente interessantes , e em um ou dois zoons ágeis bem eficientes - mas comete erros desnecessários - os closes no vilão são tão imperfeitos que beiram o amadorismo - e não consegue mudar seu estilo gelado um milímetro para favorecer o resultado final .

Ao acender das luzes , fica a sensação indigesta de uma metalinguagem sarcástica : O desfecho do longa é tão ridiculamente inconcebível , que passa a impressão de que uma persona do filme brincou e pregou uma verdadeira pegadinha em todo o resto dos personagens , do mesmo modo como O Turista prega uma peça maldita no público que pagou para assistir um produto lastimável . Poderia me estender ainda para falar nos inúmeros buracos de roteiro que saltam aos olhos numa avaliação final, mas é melhor parar por aqui . O Turista é , afinal, como Salt : Um produto descartável que não merecia nem existir .

1 Estrela * - Sofrível