Old School Nerds

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domingo, 27 de março de 2011

Sucker Punch

Zack Snyder abraça seu estilo em filme de linguagem simples e visual.

Que o diretor Zack Snyder tem em suas principais qualidades o talento nato para a excelência visual , isso não é novidade para ninguém - pode até não ter sido o criador da câmera lenta acelerada , mas foi com certeza o cineasta que melhor a aperfeiçoou para uma estilística tão cool. Um esteta como poucos, Snyder herdou dos videoclipes essa sensibilidade e modernismo , e conseguiu os inserir de maneira estupenda em produtos que continham material intelectiual pré-existente. Foi assim nas batalhas plásticas de 300 , nos belíssimos cenários e coreografias de Watchmen. Mas atacar Snyder talvez fosse tão fácil quanto se encantar com seu desbunde técnico - e se ele não tinha dedo no script de seus filmes, sobressaía-se com êxito no seu modo de filmar. Agora , seu recente - e já controverso - projeto, Sucker Punch, chega ás telas do mundo todo.

Sendo este novo filme o primeiro projeto tirado por completo da cabeça do realizador , pode ser considerado um mínimo avanço narrativo para o diretor. Snyder busca em Sucker Punch um caminho de transição , mas principalmente uma busca por consolidação de identidade. Este, afinal , não é um filme que vem para reinventar a roda , mas sim para trabalhar o lado visual tão original de Snyder, em cima de um material de sua autoria. Um filme de gestos, de texturas visuais, assim como tantos outros, mas que se aceita assim por ser justamente calcado com simplicidade proposital no intelecto narrativo. E já fique avisado quem chama Snyder de clipeiro - aqui o diretor abre o peito para receber esse tão injusto rótulo, e faz os detratores engolirem o tom pejorativo.

A trama conta como Babydoll (Emily Browning) uma garota órfã , é colocada num hospício pelo padrasto, e lá , corre o risco de sofrer uma lobotomia. Para fugir deste destino nada agradável, a jovem entra em um universo fantasioso numa busca para escapar do sanatório onde foi colocada. Para tanto , ela vai utilizar da ajuda das também fugitivas Sweet Pea (Abbie Cornish), Rocket ( Jena Malone), Blondie ( Vanessa Hudgens) e Amber ( Jamie Chung).

O roteiro de Sucker Punch é simples , e tem como principal trunfo assumir essa simplicidade. Não é uma esfinge, nada mui elaborado ou complexo , mas que apresenta alguns conceitos e conexões narrativas ousadas -e por isso talvez tão rejeitadas mundo afora - no cinema. O foco aqui é no fetiche do escritor/diretor , e na explosão de idéias que o mesmo queria colocar em seu longa metragem. Cabe ao script basicamente achar esses possíveis espaços para onde encaixar tantos cenários diferentes, e tanta ação de variados tons. E o estratagema criado pro Snyder é muito interessante, pois gera diversas camadas de realidades - algo como em Inception , mas troque o termo ''sonhos'' por ''representações''.

Essas realidades, sobrepostas , tornam possível a compreensão da história , focada na fuga das meninas, em uma aventura de proporções apocalípticas. Mas é claro, incontáveis pessoas estenderão o dedo para atacar as frenéticas cenas de ação - que parecem e muito saídas de um video-game tresloucado - e culpar Snyder pela aventura aparentar ser tão rasa em suas motivações . '' Qual o sentido de tudo isso ? Puramente desnecessário ''. Confesso que isso chegou a passar pela minha mente durante a exibição , mas logo que se tem entendimento de que aquela é a proposta do diretor, tudo vale a pena - principalmente se os personagens tiverem carisma suficiente para manter o interesse do espectador, o que é o caso aqui.

Contudo, se Sucker Punch pode parecer vazio em mensagem em primeira análise, podemos retirar boas conclusões sobre alguns itens. Ao contrário do que muitos possam imaginar ,este não é um filme com discurso machista. Talvez um filme feito para homens - até porque assistir á Emily Browning, Abbie Cornish e Vanessa Hudgens é um alento ao olhar masculino - mas com um discurso completamente feminino. Ora, cada dança erótica , vista por muitos como vulgar , é uma verdadeira batalha dentro da mente das meninas. E se Snyder consegue fazer um grupo de garotas andar de um modo que nos remeta a Reservoir Dogs , já é uma conquista grandiosa. Mas num filme onde o fetiche e os conceitos visuais são tão importantes , a linguagem de diretor de Zack Snyder não poderia faltar.

E por mais que no início ele utilize closes de maneira levemente dura, no restante da exibição o cineasta se mostra muito á vontade, principalmente nas cenas de ação. Planos-sequência insanos, travellings de câmera impossíveis , e até alguns tiroteios com direito a cortes mais ágeis - algo antes não experimentado por ele. Aqui o cineasta assume o estilo clipeiro, e faz isso de maneira literal - o longa se assemelha a uma colcha de retalhos de videoclipes em determinados pontos, com música não-diegética rolando a todo instante.

E é preciso dar o braço a torcer a esse estilo peculiar, quando por exemplo, o diretor faz toda uma introdução ao filme sem que seus personagens profiram uma só palavra. Funcional e original, Snyder nos ganha de vez já nesse primeiro momento. E ele ainda reserva mais espaço para sua cinematografia em tela. Se digo que Sucker Punch é uma obra que auxilia na formação de uma identidade mais bem modelada de Snyder, não é de graça - sobram referências e auto-homenagens, principalmente envolvendo Watchmen. Detalhes ,mas que servem para marcar bem a imagem de Snyder . Partindo de uma cena de enterro chuvosa, passando pela música de Mozart usada no desfecho de Watchmen , e culminando até na formação de personagens - ou Carla Gugino faz uma persona polonesa por pura coincidência?

Numa frequência acelerada que se diferencia do modo de se fazer cinema em geral - algo que remete muito a Scott Pilgrim - Sucker Punch só não alcança a pontuação máxima dentro de suas limitações, graças a uma incômoda tentativa de passar uma mensagem pseudo-filosófica desnecessária ao final , que tira um pouco o foco do longa. Um defeito mínimo dentro de um filme que auxilia na consolidação da identidade de Zack Snyder como um dos melhores estetas de hoje em dia. E se não é ainda seu filme essencial de méritos narrativos, é um bom começo para o cineasta , que tem tudo para que essa carasterística floresça nos seus próximos projetos originais, acoplados, é claro, de suas façanhas visuais.

4 Estrelas **** - Muito Bom.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Pânico na Neve

Tensão descomunal em longa limitado.

Filmes independentes de baixo orçamento são uma grande aposta de cineastas com recursos cinematográficos limitados ou uma ideia criativa e barata na cabeça para realizar seus debutes na direção. Chris Kentis realizou sua estreia na função, Mar Aberto, justamente nesse contexto. Daniel Myrick e Eduardo Sanchez criaram a mitologia de Bruxa de Blair e contribuíram ao cinema independente de maneira devastadora, trazendo o gênero do mockumentary ao terror, honrando a tradição da tensão de exemplares antigos como O Exorcista e O Bebê de Rosemary. Oren Peli, recentemente, abusou da boa vontade do público ao tentar recriar o efeito de Bruxa para a nova geração, sem sucesso crítico(embora financeiro). Rodrigo Cortés comprou sua entrada em Hollywood realizando seu esplendoroso Enterrado Vivo com essa mesma ideologia, em apenas um cenário.

E Pânico na Neve insiste justamente nesse modo de narrativa. Situado em apenas um local, em parcos 5 cenários, o filme tenta se apoiar na tensão desesperada em takes engenhosos e atuações desesperadas de seus protagonistas. Mas se em Enterrado Vivo, uma aula de tensão recente, temos a atuação vitoriosa de Ryan Reynolds, aqui temos que contar com Emma Bell, Kevin Zegers(egresso de Transamerica e Bud-O Cão Amigo) e Shawn Ashmore, o Iceman do X-Men. A questão diferente em Pânico na Neve, porém, é que Adam Green, roteirista e diretor, não é um novato em questão e nem teve essa sua ideia vendida como revolucionária, como geralmente acontece com esse tipo de filme. Seu roteiro depende demais das atuações dos envolvidos, que são limitados. Fora que Adam Green não é um sujeito conhecido por ser um mestre da tensão, tendo em seu currículo a série Hatchet.

A trama dos 3 amigos que ficam presos no teleférico do Esqui por uma semana, na neve e com lobos lá embaixo, é bastante pobre, mas de uma iniciativa calcada na tensão. Nesse tipo de filme, a limitação é visível e reconhecê-la é a chave para uma narrtiva eficaz. Enterrado Vivo apostava no subtexto político para criar um roteiro inesquecível, enquanto Mar Aberto, além de ter uma trama com desenvolvimento impecável a ponto de torná-la possível aos olhos do espectador, apostava na ligação emocional com seus protagonistas. Porém, Pânico na Neve usa as limitações não por falta de dinheiro, mas por falta de criatividade de seu criador. Sem criar um atrativo suficiente pra tornar seu filme algo além do mediano, Green abraça a catarse com uma confiança tão grande que faz, pelo menos, com que os vazios 95 minutos de projeção passem de forma rápida(e bem tensa).

O roteiro raso de Green abusa de qualquer coerência com a realidade em prol da taquicardia. E, por mais que seja extremamente estúpido, é de uma engenhosidade incrível. Se é possível se incomodar com o fator absurdo que leva os 3 a se meterem naquela confusão, é só levarmos em conta que a inteligência dos mesmos é abaixo da ignorância. E ainda tem o idiotizante motivo que Green usa para justificar o sumiço do trabalhador que cuidava da estação. Decisões narrativas, como a escalada do cabo, se tornam demoradas e ficam apenas pro final, sendo substituídas por inacreditáveis soluções como a queda voluntária do teleférico, apenas para inchar a narrativa. Sendo assim, qualquer erro é permitido dado que não são as situações que se resolvem mal pela falta de inteligência dos personagens. A ignorância deriva do diretor/roteirista. Só assim se explica como 3 esquiadores desceram no exato momento que não podiam e como lobos só chegam quando preveêm que alguém tentará descer.

Até aí, seriam defeitos fatais. Porém, a engenhosidade citada é provada pelo atropelado modo que Green filma o pré-tensão. Ainda que abuse de uma linguagem pouco original de criar tensão, como a filmagem em close das engrenagens do teleférico, a sucessão de erros do filme é apenas colocada ali pra pular para a adrenalina de uma vez. Espanta-se até que demore cerca de 10 minutos para a trama começar. Green não tem o mínimo talento para diálogos ou situações realistas(e reconhece isso bem), criando diálogos completamente dispensáveis que parecem estar ali apenas para evitar o silêncio dos envolvidos. Cheio de pressa, o diretor não deixa que os personagens tenham alguma qualidade para o espectador se importar. E os diálogos não mudam nem mesmo no teleférico, em que a tensão dos envolvidos se dá apenas por rostos chorosos ou desesperados(ou pelas pavorosas falas). Atente, por exemplo, para o monólogo sobre o cachorro de Parker(Emma). Ainda que bonito, é de uma cretinice tremenda.

Percebe-se então que Green quer mesmo é pular o que não sabe fazer, o desenvolvimento até a tensão. Mas se o público parece apenas conformado em acompanhar o teleférico até a metade do filme, ocorre um evento decisivo que desmascara totalmente as ambições de Green. Criado no cinema Gore, da já citada "franquia" Hatchet, Green fica claramente mais á vontade no meio da sangueira e das vísceras. E se analisarmos os grandes exemplares desse gênero independente de suspense, gore é o que menos importa. Porém, Green vai na contra-mão e filma cada detalhezinho mais pesado de sua produção com uma violência gráfica explícita. Em certo ponto, o diretor filma os ossos expostos de uma perna em super-close. Em outro, filma um corpo em decomposição com a câmera acima dele. Até mesmo geladuras o cineasta faz questão de filmar de maneira exagerada. Sendo assim, é complicado saber se Green faz uma introdução totalmente apressada para chegar á tensão ou se é para mostrar umas vísceras de fora. E se analisarmos Hatchet I e II(que tem um machado no cartaz), temos a resposta.

Desafiador seria então enquadrar Pânico na Neve em uma categoria apenas. A trama propõe um suspense desesperador e claustrofóbico, enquanto seu diretor prefere ser um sub-Eli Roth e esperar pra filmar violência gráfica. Já o final da projeção comete um erro idiota ao colocar o letreiro final de forma abrupta, como se quisesse chocar alguém(coisa que não funciona, já que o final depende de ligação emocional). Os diálogos criam os laços necessários emocionais, sem ter originalidade, fazendo o feijão com arroz. E a tensão está presente na película inteira, sem decepcionar os fãs.

Assim, Pânico na Neve é catártico pela catarse, colocando em jogo qualquer conexão com a realidade em prol da tensão e das tripas de fora. Entretenimento para os sádicos, divertido e bem executado. E apenas isso. Ainda que o final tente emular a angústia emocional de um Mar Aberto, por exemplo, não funciona pelo contexto em que Green filma. O diretor simplesmente se contenta em fazer o básico. E isso, nem sempre, é demérito grave.

Frozen, constata-se, está mais para Jogos Mortais e Premonição do que para Enterrado Vivo. Não se engane. Adam Green cria a tal tensão que propôs, mas só quer ver o banho de sangue. Se bateu crise de coinciência no seu final humanizado, aí é outra história. Mas nos autos dos mestres do suspense, o cineasta não entra.

*** 3 Estrelas

sábado, 12 de março de 2011

Old School Trailers

Super 8

Trazendo á memória os clássicos oitentistas de Steven Spielberg - com o emblema clássico da Amblin logo de cara - o primeiro trailer de Super 8 serve como um aperitivo vistoso e encantador . Desde a trilha sonora que permeia todo o vídeo - e que é de uma refêrencia singela e belíssima a filmes como Contatos Imediatos e E.T - até sua sinopse enfim revelada , este primeiro trailer dá a gostosa impressão de que J.J. Abrams volta com seu estilo de sempre, mas contando uma história digna de Spielberg em sua melhor fase. A trama acompanha um grupo de garotos que realizava um filme com uma câmera Super 8, quando uma terrível colisão de um trem com um caminhão ocorre . Os meninos registram o acontecimento , e após isso , começam a desconfiar se a ocorrencia foi mesmo acidental, se deparando posteriormente com vários mistérios que surgem na cidade, com o Exército se esforçando para encobrir tudo da população . Se lembrou dos longas spielberguianos ? Vamos aguardar essa bela homengem com alta expectativa .


5 estrelas *****


Os Smurfs
O primeiro trailer completo de Os Smurfs - título que têm uma mitologia criada nas infâncias de várias pessoas - chega sem apresentar muitas novidades que venham a encantar os não-fãs , embora quem tenha certo carinho pela série deva ter tido uma sensação diferente . Uma sensação indiscutível, contudo , é a da semelhança perigosa com o inegável lixo ''Alvin e os Esquilos''. Vozinhas anasaladas , protagonista humano idiota , etc. Torçamos para que essa seja apenas uma impressão equivocada , e que os miúdos seres azuis façam bonito em sua estréia, que vale a conferida .


3 Estrelas ***

domingo, 6 de março de 2011

Rango

Inspirado faroeste transcende a camada de referências para digno exemplar do gênero.

Um dos mais celebrados gêneros já realizados no cinema, o faroeste deu á Sétima Arte clássicos obrigatórios como Três Homens em Conflito, Por um Punhado de Dólares, Meu Ódio será tua Herança, Os Brutos também Amam, Era uma Vez no Oeste e vários outros. Desde os primórdios, quando os épicos italianos pararam de ser realizados(assim dando lugar aos spaghetti westerns), os faroestes chamam atenção por sua estética apurada(mesmo com custos relativamente baixos) e sua mitologia totalmente peculiar. Sergio Leone popularizou e mitificou o faroeste spaghetti em parceria com astros como Clint Eastwood e Lee van Cleef, atingindo seu auge no fim de sua trilogia dos dólares, o já citado Três Homens em Conflito. Após o esquecimento no gênero, que foi caindo em desuso frente ao apelo de filmes como os blockbusters, uma revisão foi realizada e neo-westerns como Tragam-me a Cabeça de Alfredo García e Os Imperdoáveis foram aclamados pela crítica(o primeiro, nem tanto, sendo apreciado apenas hoje em dia). Nos dias atuais, o faroeste só vem para as telas pelas mãos dos Irmãos Coen, que modernizaram a lenda do homem-mito/homem-comum em Onde os Fracos não tem Vez e ressurgiram com o gênero no estado puro, clássico, no recente e espetacular Bravura Indômita.

Ver um gênero ser tão baqueado pelo tempo, demorando anos até ser colocado de novo no mapa do público, é raro. Juntos com o faroeste, os únicos que compartilharam desse amargo momento foram os filmes de animação. Apenas após a revolução de Toy Story, em 95, os desenhos voltaram de vez pras graças do público. Agora, o faroeste está ressurgindo e nada poderia ser melhor que um conjunto deste com a animação, um dos gêneros mais ousados e abertos a possibilidades na indústria.

E é com essa curiosa ideia em mente que o diretor Gore Verbinski nos traz Rango. A história do camaleão com crise de identidade que vai parar numa cidadezinha típica do Velho Oeste americano, é uma ousada homenagem a Sergio Leone e ao cinema de faroeste/violência dos anos 60/70. Não só isso, é uma fábula competente e madura sobre o envelhecimento da região.

O roteiro de John Logan, de filmes distintos como Gladiador e Sweeney Todd, é feliz em criar uma história coesa, cheia de originalidade e que, ainda assim, faz homenagens e referências a todo momento, sem nunca soar fora da narrativa, tudo organicamente acoplado á estrutura. Os closes que Verbinski realiza em seus personagens nas cenas de impacto são puro Leone, enquanto a tresloucada sequência no deserto com a Cavalgada das Valquírias ao fundo já se torna icônica por sua perfeita execução e pelo humor refinado. Ainda nessa sequência, uma referência á Transformers surge de maneira tão impecável que jamais soa forçada ou até mesmo desnecessária. A caracterização dos personagens também segue o estilo spaghetti, com um inspirado Bill Nighy dublando Jake, a cobra idêntica ao gênio Lee van Cleef. O prefeito da cidade também é outra clara homenagem, o que se torna impressionante com o tempo. E Verbinski faz uma questão quase religiosa em demonstrar seu amor e respeito aos clássicos do gênero, filmando duelos com vigor e indo de hiper-closes de Leone á icônica visão do oponente á distância, entre as pernas do pistoleiro. A prova máxima do respeito dos realizadores é o duelo final, filmado com a parcimônia digna de Três Homens em Conflito, incluindo takes nervosos do relógio da igreja, com suas badaladas barulhentas.

Mas diferente da Dreamworks, que atira referências em excesso e a esmo na tela, Rango demonstra personalidade ao criar uma história que independe delas. Nisso, o desenvolvimento da narrativa impressiona por seus minuciosos detalhes. Já devidamente estabelecido quanto ás suas ambições e seus sentimentos nos minutos iniciais, no cenário artificial, Rango vai se tornando um mito desde sua queda do aquário. Inicialmente entendidos como um desnecessário ritmo lento apenas para causar risadas nos infantes na sala de cinema, esses primeiros minutos crescem ao analisar o desenrolar do filme, sendo essenciais para determinar o carisma inocente e a personalidade desfuncional do camaleão, um herói que impressiona por sua complexidade emocional. A história de fato começa após a sequência na estrada, quando Rango anda sem rumo pelo deserto. Ali, é jogado um elemento em tela que auxilia um surpreendente delírio do protagonista e ainda serve no futuro como pista/prova pro desfecho. E além deste elemento de cena, outros são jogados durante o filme antes do espectador ter pleno conhecimento deles, como a enigmática risada coletiva no Saloon e a passagem do último xerife de Dirt, a cidade do filme.

A construção do Mito em Rango, aliás, é parte fundamental da narrativa. Se o camaleão é fadado à lenda desde o princípio, nada mais apropriado que a testemunha ocular dos feitos do mesmo esteja lá no Saloon, afim de estabelecer sua própria verdade. E o que importa o fato de ser o próprio Rango a testemunha dessa lenda, que sabemos ser irreal? A partir da leitura na garrafa de cacto, pouco importa se o homem matou ou não Liberty Valance. Em tempos da falência do homem perante o ambiente, cada um germina seu mito. E se o conceito estabelecido parece forçado dado que o filme é uma animação, isso logo se anula. O clímax do filme, recheado de beleza da natureza, é a genial prova de que o ambiente vence o homem novamente. Mas quando é analisada a inocência e bondade de Rango, percebe-se que não foi o Texas sujo dos anos 80 de Anton Chigurh que venceu. Foi o puro espírito do Velho Oeste, não por acaso personificado e peça-chave da narrativa, dublado por Timothy Olyphant. Quando aquela vastidão natural invade a tela de forma descontrolada, o Mito que desde o início vinha sendo traçado, é finalmente consolidado. O ambiente venceu, mas o Homem se consolidou, provando que há espaço para os dois. E não há prova maior dessa velha máxima que o respeito mútuo dos personagens ao final do filme.

As divertidíssimas corujas fazem parte dessa ideologia. Ainda que passem a narrativa inteira cantando e tocando seus instrumentos para divertir as crianças, seria pobre pensar nelas apenas como alívio cômico. Elas são o Mito, descrito em prosa e poesia musical, contando a história do homem que virou lenda. E é tocante a passagem em que as corujas se abstém de cantar, com tristeza explícita nos olhos. Ali, não foi demonstrado apenas um imenso respeito por Rango(e pelo gênero do faroeste), mas foi colocada em dúvida pela primeira vez a consolidação do Mito. Quando as corujas voltam a falar e cantar felizes, é o espírito do Velho Oeste nela presentes, não apenas um gesto cômico mas sim um fio de esperança na crença.

As sequências de ação grandiloquentes são um fôlego a mais pra narrativa, uma modernização da estrutura do faroeste. Coordenadas com uma direção irretocável e belíssima estéticamente de Gore Verbisnki, as sequências são perfeitas e servem pra divertir, aumentar o ritmo da narrativa e liberar a trilha espetacular de Hans Zimmer para reverenciar 2001, Apocalipse Now e Ennio Morricone. A fotografia de Roger Deakins, conhecido por vários faroestes como Bravura, Onde os Fracos e Assassinato de Jesse James, ajuda ainda mais a ambientação realista(a ILM é tão fantástica que faz parecer live-action em algumas cenas) que Verbinski queria pra seu projeto.

Com uma construção de personagens impecável, especialmente de Rango(que encontrou em Johnny Depp seu perfeito alter-ego live-action), o roteiro ainda brinda-nos com um clímax instigante e que aborda um assunto que consegue, ao mesmo tempo, ser atual e metalinguístico com a modernidade versus velho oeste. Contudo, o filme tem um erro que impede-o de alcançar a nota máxima, ainda que chegue muito perto. A necessidade em abordar uma mudança no terceiro ato, ainda que excelente no contexto da narrativa, é abordada de maneira clichê e anteriormente testada. Uma pena, pois se não fosse essa necessidade que o roteiro se impôs pelos próprios caminhos narrativos que resolveu trilhar, seria irretocável. Claro que isso é um detalhe ínfimo perto da qualidade adquirida, mas ainda sim o defeito considerável. O humor, inteligente em grande parcela do filme(a lápide do xerife antigo é genial), é substituído por passagens mais físicas, o que claramente é pra colocar os pequenos nas risadas ou, se pensarmos alto, uma homenagem a Buster Keaton e Charles Chaplin. Não devendo ser vista como um defeito(ou homenagem desnecessária), essa tentativa é perdoável se pensarmos que essa animação de 130 milhões de dólares é, na verdade, um faroeste revisionista que poderia ter sido dirigido pelos Irmãos Coen ou Quentin Tarantino.

Sendo assim, Rango se consolida como uma das animações mais ousadas e arriscadas em muitos anos. Investindo num gênero pesado e envolvendo armas de fogo e fumo com naturalidade bizarra para um filme "infantil", Rango foge do campo de referências e finca seu pé nos autos dos grandes faroestes revisionistas. Se lembrando de onde veio e repaginando o gênero para a animação. Quando o Espírito do Oeste aparece em seu automóvel engraçado, Rango pergunta se o costumavam chamar por "homem sem nome". A referência é clara, mas porque não pensar que isso é plausível e neural á narrativa, já que estamos vendo um "homem sem nome" transformar-se em Mito em tela? Rango não é um nome, é um mantra, uma lenda.

E provando que o Velho Oeste continuará vivo pra sempre no código moral de cada um, é novamente UMA bala que muda tudo. E o respeito incomensurável entre os envolvidos é tão impressionante, tão bem arquitetado, que vemos ali, bem na nossa frente, Clint Eastwood e Lee van Cleef evitando seu confronto em prol do que todos eles respeitam num faroeste: a Lenda. Afinal, a bala constrói um Mito, mas nunca O mata.

***** 5 Estrelas

Bruna Surfistinha

Pieguice e Deborah Secco em filme hipócrita sobre prostituição.

No Brasil e em todo mundo, a temática sexual possui , obviamente, apelo maiúsculo . Tema que atrai atenções, multiplica opiniões . Várias opiniões surgiram, afinal , com o livro O Doce Veneno do Escorpião , lançado por Raquel Pacheco , contando as aventuras de sua rotina como a prostituta Bruna Surfistinha . Claramente , o livro possui ousadia , - já de cara pela história que conta - tendo em vista obviamente suas páginas negras lacradas onde a ex-garota de programa dava detalhes de suas façanhas sexuais . Não há pudores , nessa área , pelo menos , para Raquel Pacheco ,nem em sua vida , nem em seu livro .

Na adaptação cinematográfica , no entanto , não é bem por esse caminho . Um filme que pretende debater e ilustrar um cotidiano que não é conhecido a fundo pelo público geral necessita-se, antes de mais nada, despir-se de pudores . Mas não falo de pudores de conteúdo sexual, ou de suas cenas picantes, ou qualquer coisa do gênero - era preciso se livrar do modo convencional, e por vezes burro, de lidar com seu protagonista. Martirizar, vitimizar e fragilizar, são as vozes de comando essenciais para o filme de Marcus Baldini . Abordagem clichê, típica da visão limitada de alguns roteiristas existem sempre , e sempre veremos . O que prejudica mesmo é um filme sobre prostituição portar essa pieguice .

Sem se enrolar na hora de montar a linha narrativa, o longa dá uma pincelada na vida de Raquel antes de fugir da casa dos pais - e é nesse meio tempo que começa a vitimização da protagonista . Mostrando ela sendo agredida verbalmente pelo irmão em casa , e destruída moralmente na escola , o roteiro faz questão de atenuar qualquer atitude ''duvidosa'' da protagonista - como roubar jóias dos pais - mas, por outro lado , ora , não dosa a quantidade de maniqueísmo contido nas atitudes cruéis dos coadjuvantes .

É só o lançar das bases de uma modelação infeliz de ''vítima'' , da personagem principal. Esse olhar na tentativa de ''elevar'' a protagonista, de algum modo, acaba por tirar bastante de seu realismo - e se o filme não descamba para o chavão pastelóide, muito se deve por Déborah Secco, que segura até onde consegue . E se um filme sobre prostituição perde seu realismo, perde logo sua visceralidade, e fica a sensação desconfortável e irônica de assistir um produto piegas que conta uma história que , na prática, nada tem disso. Essa perda da visceralidade, aliás , deve-se em suma pelo roteiro, por fim . A cada take mais bem ajambrado de Baldini - a câmera fixa na cara de Secco quando Raquel está em seu primeiro programa - temos uma narração em off desnecessária e inconveniente , que só traz de acrécimo uma hiper-exposição infeliz .

Mas não é só disso que vive Bruna Surfistinha , afinal . O objetivo era mostrar o início, o galgar do sucesso, o apogeu, a decadência e o desfecho. Aí é um somatório de pequenos erros coroados com um ato falho final . Ora, Bruna fala, em certo momento de seu apogeu , para nunca desistir de seus sonhos, que seu objetivo sempre chegará se você lutar . Não me parecia o sonho de Raquel - tão pouco de qualquer ser humano - se tornar uma grande prostituta . Parece, sim, um caminho em círculos '' batalhar muito para ser prostituta, e assim ser coroada uma grande prostituta'' . Isso lá parece grande conquista ? Enfim, isso varia de cabeça, mas o filme já deixa seu argumento com embasamento dúbio .

E se Bruna tem sua desgraça na cocaína, o script desenha sua derrocada de maneira preguiçosa e pouquíssimo detalhada, pra não dizer capenga . Feita as pressas, fica dificil absorver as proporções do acontecimento . Arco importante e mal desenvolvido, algo que não pode ser feito.

Mas talvez o principal problema de Bruna Surfistinha seja seu tom hipócrita que incomoda de verdade . O discurso de Raquel, é afinal, a independencia, a liberdade, o fim das amarras, a felicidade de ser solta . Por esses motivos e por outros ela deixou a casa dos pais, certo ? Pois no seu desfecho, no seu ponto final, é que todo o filme parece ser um enorme loop que vai até muito longe para voltar a praticamente o mesmo lugar . Por mais que o longa acredite que Raquel foi uma vitória de independência , ele mesmo se contradiz - a imagem que fica, ao fim da exibição, afinal, não é de um vulcão sexual determinado, mas de uma frágil menina perdida.

2 Estrelas **

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O Vencedor

David O. Russell e seu divertido retrato familiar sobre boxe.

Cinebiografias tem, por excelência, uma possibilidade muito grande de se tornarem consagradas. Para cada aberração como Fique Rico ou Morra tentando, temos dez A Rede Social. Os filmes de boxe seguem esse estilo. Rocky e O Campeão conseguem ser exemplos de narrativa e usam o esquema de superação de forma estimulante, geralmente culminando na luta final, que tende a ser inspiradora e emocionante. Quando os dois sub-gêneros se fundem, potencializa-se a emoção e geralmente saem obras memoráveis como Touro Indomável. Porém, o tempo fez com que existissem diversos tipos de "filmes de boxe". Se Hurricane e Ali são exemplos do filme de superação, foram criadas variações para o gênero não se tornar repetitivo. A partir daí, surgiram filmes que usavam o boxe apenas como pano de fundo para uma vida difícil(Touro, O Invencível), contos morais dramáticos(Menina de Ouro) e até mesmo filmes noir com pano de fundo do boxe(A Morte passou por Perto). Todos os gêneros bem sucedidos, vale dizer. Logo, é fácil constatar que é difícil se errar com um filme de boxe.

Obras sobre boxe rendem filmes competentes, sem dúvida, mas é raro ver algo que é digno de nota máxima, como o elogiadíssimo Touro, o ótimo Menina de Ouro e o emocionante Quando Éramos Reis. As variações no sub-gênero são essenciais no que diz respeito á qualidade das obras. Pegando como exemplo os filmes de roubo, temos o conflito da segurança contra ousadia, o que separa um filme competente de uma obra-prima. Se o recente Atração Perigosa não alcança um lugar na memória dos deuses do cinema é justamente por não ousar. Como comentei na crítica do competente filme de Ben Affleck, Fogo contra Fogo é a variação ousada do filme de roubo, o que o torna especial e inesquecível.

E no filme de boxe a coisa anda de um jeito similar. Um filme de superação comum não ficaria no páreo com um Menina de Ouro, por exemplo. Deve-se haver um diferencial. E O Vencedor, novo filme do - indicado ao Oscar - David O. Russell, é um filme de superação que quer fincar seu pé na calçada dos filmaços do gênero.

Rotular o filme apenas como de superação seria um erro. Flertando com o esquema de filmes como Os Infiltrados e o próprio Atração Perigosa, O Vencedor entrega um interessante retrato sobre o povo de uma cidade de interior americano. Se nos filmes de Scorsese e Affleck a abordagem era policial, Vencedor tem um panorama dramático-cômico pra sua vizinhança, retratada com leveza pelos roteiristas Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson. E esse ritmo, que demonstra bem a admiração dos roteiristas e de O. Russell por Lowell, o local onde Micky Ward nasceu, é intenso e nunca deixa a película cair no esquecimento. A atmosfera dos anos 90, recriada de forma simples e competente, faz com que cada nuance do drama da família seja potencializado, dando um tom mais real ainda a tudo ali. A história de boxe de Micky Ward, retratado de forma enérgica e eficiente por Mark Wahlberg, é a principal, mas o pano de fundo divertido dos curiosos habitantes de Lowell é o tal diferencial que O Vencedor usa para tentar calcar seus pés na memória.

Percebendo-se isso, é interessante constatar que O Vencedor é tão uma crônica sobre uma família desfuncional com origens irlandesas quanto um filme de boxe. Da mesma forma que Infiltrados e Atração retrataram os criminosos tradicionais e as pessoas normais daqueles locais, O Vencedor usa esse pano de fundo para sua história. Porém, como é um filme dramático, Vencedor se foca bastante nos conflitos internos. E justamente deles vêm as cenas mais pesadas do filme.

Mas, curiosamente, elas não são muitas. O filme de David O. Russell se foca bem no lado cômico dessa vizinhança e da própria redenção de Micky e seu irmão Dicky. Dando uma estética cool ás partes de boxe(utilizando recursos como a montagem ágil e frases de efeito) e cômica em várias partes do núcleo familiar, o roteiro tem como seu maior trunfo a consciência de sua natureza. Afinal, as situações em que somos apresentados não poderiam ser muito levadas á sério. A maquiada Alice, mãe do clã boxeador, interpretada com intensidade notável por Melissa Leo, disperta risos até mesmo pelo seu modo "elegante de interior" de se vestir. O artificial cabelo loiro de Alice é uma inteligente sacada visual. Ao mesmo tempo que nos apresenta um elemento recorrente dos anos 90, retrata bem o espírito da personagem(e do próprio filme). Apostando ferrenhamente no humor e no "feel good movie", O. Russell encontra nos caricatos núcleos familiares uma fonte cômica inusitada. A situação bizarra dos irmãos Micky e Dicky serem de pais diferentes ou a forma manipuladora com que Alice agencia a carreira de Micky é captada pelas lentes do diretor de forma irônica e extremamente divertida. E se poderia haver qualquer divergência entre o estilo cômico de O. Russell e um possível tom sério do roteiro, isso logo se invalida. Afinal, as 7 irmãs Eklund-Ward tem um desenvolvimento raso justamente para se apoiarem no humor, o que surge como uma decisão corretíssima, com grande destaque para a briga entre Charlene e as irmãs.

Charlene, por sinal, é construída com esmero pelo roteiro e pela magnífica atuação de Amy Adams. Ela é o parâmetro para Micky bater de frente com sua família e tomar um rumo de verdade em sua antes fracassada carreira de boxe. As partes em que Micky começa a ganhar voz na família são reveladoras, fundamentais pra narrativa e, novamente, captadas com leveza divertida.

E mesmo o retrato da carreira de boxe dos irmãos sendo esquemático, a ciência das limitações narrativas que o roteiro se impõe são fundamentais pra apreciação da história. Estão lá todos os arcos da superação do filme de boxe, mas somados ao núcleo familiar e ao tom surpreendentemente cômico, O Vencedor chega com dignidade a seu clímax, que é espetacular justamente pela construção formidável de situações e personagens que o filme de O. Russell tem. Deixando o público tenso e com uma torcida sincera pelo protagonista na obrigatória luta final, O. Russell realiza um filme redondinho e divertidíssimo, que entretem de maneira diferente e, acima de tudo, inteligente. E é nisso que O Vencedor vence de algo totalmente esquemático como Atração. O pano de fundo e o humor são fatores determinantes pro brilhantismo do roteiro.

Essas limitações narrativas não só são ajudadas pela parte cômica como são utilizadas em prol das atuações. Visando a possível caricatura que cada ator poderia ser sujeitado a fazer pelos seus papéis exagerados, o roteiro abre essa brecha pro overacting com rara qualidade. E nesse caso, a extrapolação de emoções é utilizado de forma interessantemente benéfica. Melissa Leo e os coadjuvantes podem estar atuando no limite do over, sim, mas a naturalidade com que tudo é encarado pelo filme é notável. Sendo assim, O Vencedor entra naquele seleto grupo de "filmes de atuação", desde a performance contida do ótimo Mark Wahlberg até a merecedora do Oscar, de Christian Bale.

O personagem de Bale, aliás, é o motivo maior das partes dramáticas e até a metade da projeção, quase engole o filme pra si. Mudando fisicamente de forma assustadora, Bale ainda cria seu personagem com competência equivalente á de seus Patrick Bateman e Bruce Wayne. A grande prova disso é a sequência mais pesada do filme, a exibição do documentário da HBO sobre o vício de Dicky Eklund. Arrebatadora e palco explícito destinado a Bale demonstrar todo seu talento.

Sendo bem sucedido no núcleo familiar quanto no inspirador e revigorante núcleo do boxe, O Vencedor é um perfeito feel-good movie. Uma diversão com um tom mais sério que o cinemão pipoca, mas sem dúvida vitoriosa e leve por ser ciente de suas limitações narrativas. Diferente de um Quem quer ser um Milionário, O Vencedor é um conto feliz, mas realista e firme nas emoções, diferente do episódico e fantasioso filme de Boyle, do qual Vencedor só compartilha o bom humor. Sem chegar perto de ser uma obra-prima, mas uma película que deixa uma felicidade agradável no ar. Merecedor de sua indicação ao Oscar(ainda que Christopher Nolan e Danny Boyle tenham feito direções muito mais competentes que O. Russell), O Vencedor é uma boa surpresa. Bom pra ver com descompromisso.

Sem surpresas, preciso, enérgico e cômico. Quem diria. Overacting bem feito é outra coisa.

**** 4 Estrelas

O Discurso do Rei

Equipe brilhante faz pronúncia de filme conservador soar bem .

Há de modo geral, muitas maneiras de se contar histórias no ramo cinematográfico . Existem vários estilos, desde os filmes de festival - que vão contra as regras fundamentais aceitas pela maioria do público médio - até os blockbusters mais previsíveis e batidos . A verdade é, que nesta última década, tivemos muitos cineastas rebuscando sua didática narrativa e fazendo filmes com orginalidade digna de se tornarem clássicos . São novas maneiras de se fazer filmes , métodos inovadores , e só pra ilustrar , podemos citar exemplos recentes como A Rede Social e Scott Pilgrim , que têm como seus destaques, o roteiro e a montagem, respectivamente . Sendo o filme de David Fincher o mais agraciado pela crítica geral , seria muito gratificante ver A Rede Social ser coroado como o melhor filme de 2010 no Oscar . Seria um passo a frente, uma verdadeira evolução, aceitação do novo . Mas na disputa da Academia desse ano temos um embate fortíssimo de duas realidades - o inovador X o conservador .

E o conceito de conservador se encaixa muito bem para o filme inglês aclamado internacionalmente , O Discurso do Rei , que se enquadra neste ''rótulo'' por justamente estar no estilo de narrativa que possui características clássicas, com certa dose de previsibilidade e um quê de esquematização . Não dá pra culpar, porém, de maneira nenhuma, quem realiza o filme . Apesar de ser uma trama baseada em fatos , era inevitável que o longa de Tom Hooper acabasse contendo diversos conceitos clássicos , dignos de filmes conservadores, que justamente recebem esse adjetivo por conservarem certas qualidades já visitadas em filmes anteriores. Contudo, por mais que O Discurso do Rei tenha uma mensagem um tanto quanto ultrapassada , fica anos luz de um filme dispensável . É um longa estruturalmente atrasado, mas traduzido em tela com real genialidade . Uma história redonda e básica , mas que tem na sua equipe - brilhante, no mínimo - o agente qualificador.

A trama , como poderão ver, tem certo tom esquemático a princípio . O Duque de York, Bertie(Colin Firth) , segundo filho do Rei da Inglaterra George V ( Michael Gambom) , é um príncipe com um problema fatal na sua carreira. Sofre de gagueira , o que complica muito sua atividade frequente fazer discursos dos mais variados . Para tentar curar seu distúrbio, sua mulher Elizabeth ( Helena Bohan Carter) recorre a um terapeuta da fala muito bem-sucedido , Lionel Logue ( Geoffrey Rush). Com um aprofundamento no problema psicológico que causa a gagueira do príncipe , Logue precisa ajudar Bertie na sua hora mais escura - A Inglaterra na eminência da II Guerra , e o fardo de ter que assumir o trono abdicado por seu irmão ( Guy Pearce) após a morte do pai .

De fato, a interface estrutural do roteiro de David Seidler é um tanto quanto clássica, desenhando uma história de superação á moda antiga , que já vimos tantas e tantas vezes . Tal tipo de trama já está no nosso inconsciente , e já partimos , portanto, de um ponto conhecido quando nos referimos a Discurso . Invariavelmente, também chegaremos ao mesmo destino conhecido, já que a própria sinopse já revela boa parte do conteúdo do longa . É esse ar de esquematização e de previsibilidade que pode tirar alguma força em relação a relevância do filme no contexto do cinema atual . Mas não tira, de forma nenhuma, a força que O Discurso do Rei possui de forma isolada, sem adentrar no mérito de comparação com outros longas candidatos a prêmios . Isso ocorre por que , mesmo que o seu conteúdo soe familiar , a sua forma, ou seja , sua condução , combinada com suas atuações , é muito acima da média .

Há vários pontos que servem para enaltecer a força que consiste na condução do roteiro . O tratamento muito cauteloso com cada um de seus personagens é talvez o mais clichê dos comentários sobre o filme, mas é a mais pura verdade que precisa ser mencionada . Um desenvolvimento muito humanista , que tem uma sensibilidade nas ocorrencias de suas emoções muito particular . Além disso, há momentos presentes em Discurso que geram um baque inevitável . É a boa colocação de uma imagem que substitui qualquer palavra gaguejada por Bertie, como no momento em que o personagem de Firth absorve os vídeos de Hitler esbravejando como líder e orador inquestionável , enquanto ele mesmo mal pode ler um texto para seus súditos . Não por acaso , Discurso do Rei utiliza esses momentos tão bem . Na melhor tradição do cinema clássico, á moda antiga, o que importa na película são as emoções transportadas para a tela, através de atuações verdadeiras, sendo a importância da trama estrutural visivelmente diminuída . Talvez então o grande trunfo do novo filme de Tom Hooper seja , ao se portar como conservador, absorver essa experiência por completo, possuindo alguns de seus problemas, mas principalmente, suas qualidades.

E se o roteiro tem na sua condução uma ou outra cena já batida , ela se diferencia pela câmera estilizada do competente Tom Hooper. Um momento claro onde a câmera de Hooper fez a diferença é na sequencia típica de ''treinamento'' , que é inerente a vários filmes de superação . Aqui, o cineasta utiliza cortes rápidos para dar a sensação de elipse temporal . Funciona para não deixar a cena cair no lugar comum . Além de funcionar nesses momentos, Hooper também consegue impor takes de estética elevada . O jeito de jogar a câmera para trás em determinados closes só engradece as feições dos atores, refletindo consequentimente no engrandecimento de seus personagens .

Personagens esses, que já seriam grandes o suficiente se dependessem exclusivamente da performance sublime do belíssimo elenco de Discurso do Rei . Verdadeiramente , este longa tem um dos melhores castings de 2010 - um ano que teve excepcionalmente castings muito bons como True Grit, Black Swan, Rede Social ,etc -se não for o melhor . Aqui, temos uma entrega completa por parte de todos os atores . Colin Firth, é o que mais se destaca, tendo uma interpretação completa , muito diferente do que já fez em outros filmes. O jeito anêmico de atuar de Mr. Darcy , de Bridget Jones , dá lugar a uma transformação assustadoramente competente . Firth reafirma aqui que é um ator eficientíssimo, se pegar um papel decente . Em determinado momento, a imersão no papel é tanta, que Firth simplesmente se transfigura, no nosso olhar, por alguns instantes . Desaparece no papel, literalmente , e incorpora todo o personagem . Perfeito . Geoffrey Rush também atua com grandeza e tridimensionalidade invenjáveis, e Helena Bohan Carter está perfeita no papel , nos deixando quase acostumados com sua competência habitual . Atuações sensacionais, que reforçam a ideologia de cinema a moda antiga (atores são o centro) abraçada pelo filme.

Por essas e por outras , é estreito enxergar em O Discurso do Rei um novo Shakespeare Apaixonado . Apesar da comparação ser tentadora para alguns, é exacerbadamente superficial . Primeiro por que há um abismo de qualidade que separa os dois filmes . Segundo por que Shakespeare Apaixonado usa seu estilo clássico com certa falsidade , sem se entregar, enquanto Discurso se entrega a esse estilo de corpo e alma , com honestidade, sinceridade e profundidade . Está longe de ser um longa supervalorizado. Tem a apreciação que merece, e merece muito. Um filme gago em sua premissa, mas que com a atuação de uma equipe eficiente, conseguiu fazer um belo discurso em nome do cinema á moda antiga .

Resta avisar a Academia, de que filmes no estilo deste, são oscarizados desde sempre. Premia-lo ao lugar do que é inovador, por mais qualidades que este tenha, é um sinal de estagnação .

5 Estrelas ***** - Excelente .