Old School Nerds

Old School Nerds

terça-feira, 3 de maio de 2011

Thor

A consolidação do universo Marvel nas telonas.

Depois de Blade, lançado em 1998, Hollywood percebeu que o público poderia se tornar entretido novamente com super-heróis, após o declínio do gênero após Batman Eternamente e a ausência de Superman nas telas. O rio de adaptações que vieram depois não foi totalmente saudável pras histórias em quadrinhos. Se Homem Aranha veio como um das mais belas adaptações da história, A Liga Extraordinária e Do Inferno assassinaram a obra de Alan Moore. A Marvel havia entrado na onda dos filmes já com Blade e após isso, desesperada pela crise econômica na empresa, ela vendeu seus direitos de personagem por preços baixos para a Sony e a Fox. Enquanto a primeira realizou a lucrativa franquia do Cabeça de Teia, a segunda lançou os competentes X-Men e os limitados Quarteto Fantástico e Demolidor. Porém, a Marvel ainda tinha muitos heróis para serem adaptados. E se a DC tinha controle sobre suas obras(muito em virtude da mesma ser uma divisão da Warner, que as adapta pras telonas) porque a Marvel não poderia também? Nenhum dos Vingadores havia sido trazido a vida. Lançou-se o Marvel Studios.

A iniciativa é espetacular. Diferente dos filmes meramente lucrativos e fechados das distribuidoras, a Marvel tinha controle criativo sobre os roteiros, sem ter que ver seus melhores personagens virarem meros blockbusters de verão nas mãos hollywoodianas. A bela estratégia de criar um Universo inteiro só da Casa de Ideias nas telas é maravilhosa e teve seu primeiro passo com Homem de Ferro, o excelente hit de 2008.

Após o filme do Hulk e a sequência do ferroso, o Universo deveria expandir. E a decisão de lançar Thor agora é ousadíssima, já que é hábil em abrir os horizontes do Universo e ainda introduz o mundo mágico da editora nos cinemas, coisa que os científicos filmes de 2008 e 2010 não eram. Protagonizado por desconhecidos(Chris Hemsworth e Tom Hiddleton), o projeto é um passo no escuro para o bem-sucedido comercialmente estúdio. O desnecessário 3D nada mais é que uma garantia maior de lucros. E é bom ver que se Homem de Ferro e Hulk foram bem sucedidos ao apresentar bem os personagens ao público e manterem suas características pros fãs, Thor cria um boa lógica pra se adaptar aos desejos comerciais e aumentar o Universo Marvel introduzindo muito bem o personagem mais complicado da editora. O problema principal do filme, porém, é justamente essa lógica.

Em termos de adaptação, os fãs podem ficar tranquilos. Thor é vivido com grande presença por Hemsworth e tem seu espírito e essência idênticos ás HQs, com uma construção formidável no excelente início do filme. Algumas passagens ecoam o visual e narrativa das histórias mais originais de Stan Lee, o que é um tremendo acerto. O visual de Asgard, aliás, está fidelíssimo ao material de origem e cria um belíssimo espetáculo nas sequências fantasiosas. As tomadas aéreas do lugar são de tirar o fôlego, com uma direção de arte impecável ao retratar o cenário com tons fortes, desde o vermelho ao dourado, esse último uma constante na riquíssima Asgard. As internas do local são ótimas também, com tons escuros e que ostentam uma oportuna nobreza.

Já os grandiosos salões, dourados e sempre recheados com os habitantes da cidade(vestidos com os lindos figurinos), são o palco pras melhores partes do filme. As interações entre Odin, Thor e Loki são emocionantes por abordarem com precisão a energia carregada de culpa que a conturbada relação entre pai e filhos leva. A boa performance de Hemsworth e as inspiradas atuações de Hiddleton e Hopkins só potencializam essa emoção que os realizadores almejavam. Ao investir numa temática shakespeariana, captada com precisão pelas lentes tortas(falarei disso adiante) do especialista no assunto Kenneth Branagh, o roteiro de Ashley Edward Miller, Zack Stentz e Don Payne é extremamente feliz ao criar esses laços de sangue e o que eles geram no governo de Asgard. Sempre que a cidade fantástica entra em tela, a admiração pelo trabalho da Marvel cresce mais ainda. Construída com parcimônia, a mitologia em torno da cidade e os seres que a governam é o ponto alto da produção, que cria esses belos instantes que transcendem o cinemão pipoca, como a melhor cena do filme, a que Odin deserda Thor com rasgantes berros melancólicos.

Porém, se em Asgard a narrativa, os diálogos e a construção de personagens são fantásticos, nas cenas terráqueas a coisa desanda(e feio). A precariedade dos personagens é crucial pra narrativa naqueles momentos. Após a excelente cena que abre o filme, que a montagem de Paul Rubell mescla bem Terra e Asgard, as cenas com Jane Foster(Natalie Portman), Eric Selvig(Stellan Skaarsgard) e Darcy(Kat Dennings) ficam fracas. Tratados de forma ridiculamente simplória, visando uma maior identificação com o público leigo em Thor, os personagens são reduzidos a um par de adjetivos. Jane é a mera cientista interesse romântico do herói, que senão fosse vivida com tanto talento por Natalie, seria uma pateta. Eric é o doutor preocupado em demasia, a contraparte controlada da destemperada Jane. Darcy é a besta alívio cômico. Isso atrapalha bastante o interesse do espectador atento em ver os personagens percorrerem a trama, mas facilita a vida do público médio em conhecer o Universo de forma mais mastigada. Aí que se percebe pela primeira vez as fraturas da lógica comercial criada, que pode até ser eficiente pras massas, mas é falha como arte.

E se o filme oscila nessa balança perigosa do ótimo e do fraco, o roteiro apresenta a sua carta na manga: a criação do Universo Marvel, baseada em referências. Confesso que é emocionante pra um fã ver o Gavião Arqueiro em cena pela primeira vez ou ver uma espetacular luta no planeta de Laufey ou até mesmo a Ponte de Asgard que leva a outras dimensões. Além das ótimas referências aos quadrinhos, as citações ao vindouro Os Vingadores são excelentes e servem bastante para o propósito da criação. A SHIELD, representada pelo Agente Coulson(o bom Clark Gregg), está tão presente quanto em Homem de Ferro 2 e o esquema montado pela organização em torno do Mjolnir caído no deserto rende uma cena de ação das mais empolgantes. Interessante constatar, então, que Thor é um filme de origem como Homem de Ferro mas é bom pro propósito geral do estúdio, como é Homem de Ferro 2. Na teoria, isso seria perfeito, porém a supra-citada lógica comercial freia o filme de alçar voos maiores. Se Tony Stark é um personagem que o público irá se identificar tranquilamente por ser mais palatável(anti-heróis estão na moda...), Thor é complexo e suas relações familiares são emocionalmente intrincadas. Ferro não precisou ser abrandado pra se encaixar no interesse das massas, mas Thor é diferente. E paga o preço por isso.

Na ação, porém, Thor em nada fica devendo a Homem de Ferro. A pancadaria é das mais empolgantes e Kenneth Branagh é preciso ao captá-la de maneira fluente, sem cortes rápidos. Ainda dirigindo de maneira competente as partes dramáticas, Branagh tem um bom cuidado técnico, ainda que visivelmente não queira passar nada a mais com seus enquadramentos. A grande síntese disso é seu modo torto de enquadramento, o ângulo holandês, uma constante na produção. Esse tipo de ângulo é utilizado pra ilustrar o desconforto do personagem em cena. Mas diferente de Tom Hooper, que enquadrou Colin Firth no canto da tela tentando causar desconforto e se perdeu ao enquadrar todo mundo assim, Branagh não tenta passar nada ao empregar o holandês. É estranho e chega a ser engraçado em alguns pontos, mas o enquadramento é meramente estilístico, o que não diminui a força da direção, o que quase condenou O Discurso do Rei.

O uso da câmera lenta pelo diretor é fantástico também, sem arroubos e determinando com competência momentos de emoção, como a linda parte em que Thor tenta retirar o Mjolnir da pedra(a chuva aumenta a carga dramática de uma bela maneira). Ainda que o 3D(quem puder, fuja dele) deixe mais escura a imagem, é inegável perceber a beleza da fotografia de Haris Zambarloukos, que contribui pra deixar Asgard mais austera, a Terra mais dessaturada(o filme se passa no Novo México) e as batalhas, balanceadas em suas transições de cores. Bonita, a fotografia encontra unidade até mesmo ao filmar a Ponte colorida de Asgard e produz belas imagens, como Jane, Eric e Darcy apenas nas sombras com o céu azul e laranja ao fundo, registrado em contra-plongée por Branagh.

Sendo imperfeito em suas transições ambiciosas entre Terra e Asgard, Thor termina com dignidade e consegue se sagrar como um bom filme, sendo impossibilitado apenas por contrastar tanto sua natureza fantasiosa e o apego excessivo ao público. Se enrolando em funcionar apenas como filme de origem, Thor investe no pano de fundo de ambientação no Universo super-heróico para abrir o caminho pros Vingadores com destreza, mas nos lembra de que isso, afinal, não era uma abordagem densa á um deus emocionante e sim um filme de super-herói descompromissado. Ás vezes, os super-heróis tem que ser menos pipoca e mais arte...

Não há como negar que o bom Thor é interessante e divertido, mas funciona mais pros Vingadores do que pra ele mesmo.

**** 4 Estrelas

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Old School Trailers

Transformers 3 - Trailer 2

Depois do teaser que mostrava apenas algo da introdução da história , o segundo trailer de Transformers 3 entrega o que Michael Bay tanto adora e que fez sua fama , e também sua caveira - explosões contínuas . Numa cadência mais séria gerada por várias frases de efeito , o vídeo ilustra com ''imagens épicas'' - como de costume para Bay - a trama , onde os Decepticons parecem sair da Lua e infernizar em definitivo na Terra . De parecido com o trailer do segundo e fatídico filme, temos o somatório de pancadarias culminando com um frame final megalomaníaco . Dá pelo menos para se animar com a luta em área urbana, que funcionou tão bem no primeiro filme da trilogia . Seja lá o que Bay preparou , podemos esperar muita barulheira , robôs em conflito, e Shia LaBeouf aos berros - como sempre . É torcer pro caldo não desandar .

3 Estrelas ***

Harry Potter 7.2

Após um primeiro filme introspectivo e de contornos dramáticos mais densos , o trailer da aguradadíssima segunda parte revela o que todos já esperavam : a ação propriamente dita . Os contornos épicos do último capítulo da saga são propostas-base do filme - como o slogan '' A Épica conclusão '' do trailer já demonstra - e o ato de extravasar físicamente toda a emoção angariada não só em HP 7.1 , mas em toda a franquia , é louvável , se bem realizado . Desandar num momento desses é pouco provável , e se os atos do último filme forem de fato elevados a um patamar épico - como tanto gostam de repetir - pode-se esperar um longa que agrade muito - principalmente os fãs - e que faça justiça com toda a série que o precede .

4 Estrelas ****

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Pânico 4

Wes Craven de volta á boa forma.

Quando a volta de Wes Craven, o tóxico A Sétima Alma, chegou aos cinemas, foi uma decepção geral. Percebeu-se o que o diretor queria fazer, criar um novo serial killer maníaco para as telas, mas sua proposta foi extremamente mal-sucedida pelos péssimos diálogos e, principalmente, por levar a sério uma estrutura que ele mesmo satirizou anteriormente, na trilogia Pânico. A trilogia, por sua vez, estava prestes a se revitalizar, com os Irmãos Weinstein querendo um reboot o mais rápido possível. Porém, Craven não queria isso. Já que era pra reiniciar/continuar tudo, que fosse ele, o criador da série junto com Kevin Williamson. Então, nada seria melhor pra Craven que voltar á série que fazia graça justamente com que ele errou no filme passado. E na busca de atrair novos públicos, a campanha de divulgação toma como slogan a frase: Nova década, novas regras. Porém, essa frase, que é dita no filme mais de uma vez, não significa nada nesse novo Pânico. As regras antigas continuam vigentes e provam que o que assustava em 96, assusta ainda hoje. O que se renova é o elenco e a forma como a trama é mediada.

O começo do filme investe no que Williamson criou no próprio segundo filme: a série Stab. Retratada em tela de forma hilária, o conceito aparece apostando na mesma metalinguagem que a trilogia tratava tão bem. O conceito é devidamente explicado para o público atual(o que só mantinha a ideia de apresentar a série pra nova década), o que não causa incômodo algum pra quem já o conhece. Então, após essa introdução, surge uma grande cena com Ghostface e surge o título na tela, atropelando tudo. Interessante notar que Craven e Williamson corrigiram, aqui, o pequeno erro do primeiro filme, quando o título surgia de cara, antes do alarde da cena inicial com Drew Barrymore. Esse início, aliás, é bem parecido com o do filme de 96. Não apenas testando(e provando) que sua fórmula continua dando certo, Williamson parece querer desenferrujar a si mesmo, após 13 anos longe da série(Ehren Kruger ass[ass]inou o terceiro filme). Logo, não dá pra negar que os realizadores não querem, embora o marketing diga o contrário, criar novas regras pra essa década. O que funcionou no primeiro filme, a receita metalinguística da trama policial, é feito novamente.

E Williamson continua se desenferrujando ao criar novos personagens adolescentes e demonstrar que ainda consegue criar afiadíssimas conversas críveis áquele universo. Tendo bastante cautela antes de introduzir Sidney na trama, o escritor mostra que a cidade foi bem afetada pela série Stab de formas que não soam gratuitas. Os Ghostfaces nos postes e a Stab-a-thon são as melhores. Os já ambientados na série vão perceber que a construção de personagens pode até ter sido atualizada, mas não muda em nada. Hayden Panattiere substitui Rose McGowan, Emma Roberts substitui Neve Campbell e os cinéfilos do clube substituem Randy. Já os não-iniciados também vão reconhecer, já que Williamson volta a mastigar as referências. Quando Roberts está no quarto com seu namorado e a janela está aberta, Sidney fala que "você me lembra muito eu no passado". Desnecessário, ainda que uma divertida referência ao primeiro.

Continuando nesse campo, Williamson aposta pesado na nostalgia. A mira ruim de Ghostface, que tinha que acertar ou bem de perto ou errar acertando no ombro, não só é satirizada como vira detalhe crucial pra trama. Suas aparições continuam a ser divertidas, mas são sempre escancaradas. A aparição na Stab-a-thon, por exemplo, é bem tosca. E são esses pequenos elementos que constroem Ghostface como um dos Serial Killers mais legais do cinema, com o roteiro tornando-o não só vulnerável(o quanto que ele sempre apanha de Sidney é incrível) como engraçado por si só(tropeçar não é uma novidade pro vilão).

Se os primeiros filmes criticavam o esquema óbvio das mortes em slasher movies(numa época em que o gênero era popular), o novo Pânico critica as franquias que preferem mostrar vísceras que pregar sustos. Jogos Mortais 4 "não é assustador, é nojento", a franquia Premonição idem. Tudo isso dito pelo roteiro de Williamson enquanto os personagens usam constantemente seus celulares e IPhones pra mediar a tensão. Essa é a coisa mais inovadora no quarto filme, em termos narrativos. Se antes a presença de Ghostface demorava mais a se espalhar, aqui todos sabem de tudo na hora, com os eletrônicos sempre em mãos. O ápice dessa atualização é o que o maníaco faz pra mostrar seus assassinatos: câmeras, que levam direto pra internet. A atualização dos diálogos já era esperada, mas ao adotar elementos novos á estrutura antiga, Pânico 4 até soa inovador perto dos remakes da Platinum Dunes(Sexta-Feira 13, Hora do Pesadelo). Os personagens fanáticos por cinema determinam que os assassinatos são com "novas regras". Ainda que equivocado, afirmar isso acaba não sendo tão errado assim, ao vermos que o filme não acaba na festa e sim após ela. A indispensável reviravolta final, mania de tantos filmes atuais(não só de terror), aparece aqui também, o que prova novamente que Williamson e Craven não perderam a mão. Nem no terror, nem na sátira.

Enquanto Williamson cria passagens hilárias(a morte de um dos policiais é impagável) e estrutura seu filme de forma bem coesa, Wes Craven prova que conhece como ninguém a arte de assustar uma pessoa, ainda que não filme com o vigor do filme de 96. Em algumas cenas, é visível o que Craven "esqueceu" com o tempo. A insistência em dirigir as cenas de terror com a câmera parada, ainda que de forma velada, representa a atual falta de tato de Craven. A angústia causada pelo diretor ao seguir os personagens com uma câmera que entortava frequentemente, dava uma sensação de terror que nunca é igualada em Pânico 4. Claro que estamos falando de uma direção excelente que privilegia cada passagem pra criar um clima de suspense sem jogar na cara, mas comparada á direção de tirar o fôlego do Pânico 1, aqui Craven demonstra perder força. A fotografia de Peter Deming, que está na série desde o 2, é mais ensolarada que a sombria fotografia cinzenta do primeiro filme. O bom é que esse ensolarado se restringe as cenas de interação entre os adolescentes, o que não torna incômoda a mudança leve para uma palheta mais escura nas cenas noturnas de morte. Craven usa das sombras pra ocultar algumas coisas e ainda recria a excelente passagem do "namorado preso na cadeira" no meio da história, mas não usa mais a trilha de Marco Beltrami, meio apagado aqui, pra criar a tensão que esta causava no primeiro.

Terminando inferior ao primeiro apenas por diminuir consideravelmente o ritmo em seu segundo ato e por erros como o de revelar a motivação do assassino, Pânico 4 termina muito bem e coloca novamente a franquia nos eixos, pra que torçamos por uma continuação. Ainda que Emma Roberts definitivamente não saiba atuar fugindo de sua personagem padrão, o resultado envolvendo-a é legal e o clímax, muito parecido com o do primeiro, sai um pouco prejudicado apenas pela artificialidade da atuação da mesma. E explicando o que apontei anteriormente, mesmo que tenha dado razões para o assassino ser assim(o que, ironicamente, vai de encontro ao que foi dito no primeiro filme), o filme honra muito bem o legado de Ghostface. Um dos mais divertidos filmes de terror recentes.

O que Pânico 4 fez foi o que Sidney Prescott atribuiu, numa passagem que gera boas risadas, como primeira regra de um remake: "Don't fuck the original". Mais coerente, impossível.

**** 4 Estrelas

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Kaboom

Gregg Araki satiriza gêneros em afiada comédia.

Conhecido por seus filmes de temas fortes e exagerados, além de sempre haver um subtexto gay, Gregg Araki tem uma carreira diversificada, ainda que trabalhe sempre com os mesmos temas. Nos últimos 3 filmes, porém, Araki tem feito filmes ainda mais diferentes, como o bizarro Mistérios da Carne e a sua comédia de aluguel, Smiley Face. Mesmo que Mistérios contenha a temática gay presente, a produção se baseia muito mais na estranhíssima trama do protagonista vivido por Joseph Gordon-Levitt, com tons de ficção. E agora em Kaboom, Araki funde seus temas numa trama que tira sarro do sci-fi. Porém, muito mais que apenas uma sátira ao gênero, Kaboom ainda pega os temas recorrentes de seu criador e os usa pra desmantelar as bobas comédias besteirol adolescentes coming-of-age e os seriados de TV.

Desde a segunda cena, Araki já inicia sua inteligente sacada satírica. Usando uma fotografia excessivamente azul, o diretor já mostra o quarto com mobília precária, parecendo mesmo um OC, com uma direção de arte feita ás pressas. E a construção da trama se mescla com o tom irônico logo nessa cena, quando Smith deseja sexualmente seu colega de quarto. A narração em off de Smith é outra prova dessa mescla que Kaboom realiza com facilidade: serve tanto para apresentar melhor os pensamentos do personagem quanto para fazer escárnio das narrações que permeiam as séries. E a própria construção de personagens justifica essa visão sobre o filme, já que Araki descreve Smith como um homem popular, amálgama humano cercado de todos os diferentes tipos. Interessante notar a criatividade de Araki ao montar todos os personagens sendo distintos, ligados apenas pelo fator que é, no final das contas, o centro do filme: o sexo.

Sexo esse que é sempre contado de maneira preguiçosa na TV, que restringe as séries juvenis ao sexo debaixo do cobertor, cheio de máscaras. Nesse ponto, Kaboom se revela mais original que propriamente satírico, ao escancarar o sexo de maneira muito natural, sendo presente em 80% do filme. Araki sabe do caráter libertador de seu filme através das diversas relações sexuais e é excelente perceber que, além de filmar com uma crua elegância, o diretor encaixa as cenas de maneira brilhante á narrativa, soando orgânica como poucas. Smith, como a síntese de tudo a sua volta, não poderia não ser eclético também em sua opção sexual. Mesmo que não goste de rótulos, como ele mesmo(e todos em tela) diz(em), se relacionar tanto com mulheres tanto com homens é sinal disso. O ápice dessa definição é a cena em que o protagonista fala sobre o papel do cinema na sociedade. Ele o considera anacrônico, porque o cinema de hoje pode não ser o cinema de amanhã. Somando isso aos enquadramentos sempre frontais que Araki faz em Thomas Dekker, emulando um espelho, temos a constatação definitiva do ser transitório que Smith é.

Já na carpintaria narrativa, o sexo serve de caráter transformador e mediador. Sua melhor amiga Stella(Haley Bennett, espetacular) é lésbica e London, vivida esplendorosamente por Juno Temple, é promíscua em sua heterossexualidade. Não por acaso, Smith só volta a se sentir bem em sua condição sexual quando conhece London, a antítese de Stella. Essa é uma das grandes sacadas de originalidade em Kaboom. Araki usa a construção não só para nos tornar identificados com os personagens quanto para justificar elementos narrativos. Em sua cabeça, Smith só se sente completo com os dois lados de uma questão, o que só reforça o fato dele ser um amálgama.

A própria direção de Araki trabalha com essa mistura satírica/sexual. O sexo é, sim, fator principal da transição de cenas mas o humor, até aí é sentido: pra situar o espectador, Araki filma a fachada dos prédios nos quais a ação se passa, um vício recorrente das séries. Já os encontros, que acontecem a todo momento nas séries, sustentam a trama enquanto nada científico acontece. Tanto encontros heterossexuais, como as transas com London, quanto homossexuais, como a van na praia.

Até aí, Kaboom conseguiria se sustentar entre os aspectos cômicos e criativos. O porém da narrativa, e o que a torna tão estranha, é que Smith e seus amigos estão numa trama sci-fi envolvendo o fim do mundo, aspectos místicos, referências á Bíblia e as reviravoltas tão conhecidas desses filmes. E é nisso que o filme começa a tender mais ainda para a sátira. Aliás, o roteiro deixa de lado a originalidade e se concentra na oscilação entre o sarcasmo ao sci-fi e á TV. E nisso, Araki despiroca de vez. Trilha fajuta de perseguição ao fundo, seus personagens fogem, filmados com um filtro cretino de câmera, de homens mascarados de animais. Tudo registrado com uma direção propositalmente truncadíssima. A sacada de Araki é tornar isso algo vital á narrativa e dirigir os atores como se aquela situação fosse séria mesmo, potencializando a piada. Mesmo nas partes mais sérias da história, como a drogada ruiva no banheiro ou a primeira cena do filme, o tom é conduzido de forma leve. A estranheza de Smith ao ver aquelas pessoas no corredor da abertura tem uma trilha meio divina ao fundo, enquanto na cena do banheiro a trilha puxa pro lado do suspense, escrachando o clima.

O filme então vai se dividindo em 3 unidades narrativas. As ideias originais de Araki já estavam implantadas com o sexo e só voltariam na última cena. A sátira sci-fi acabará apenas quando o filme terminar de fato. Resta a Araki, então, antecipar o final de sua série psicodélica de TV. E após várias experiências meramente sexuais, que ironicamente vão de encontro ás lições de vida aprendidas nos Glee da vida, chega o clímax, o "season finale". Após ficar tão em dúvida sobre sua felicidade sexual, Smith termina ganhando de presente de aniversário um ménage-á-trois, com o amigo de Thor e com London. Então, quando o epílogo da sátira chega, não poderia ser de outra forma senão... um show de banda de rock-pop. Mais impecável, impossivel.

Temporada terminada, o sci-fi entra no jogo e toma a trama de assalto. E as reviravoltas que Araki orquestra são excelentes numa sátira por serem tão previsíveis quanto absurdas, por mais paradoxal que isso possa representar. A justificativa deriva da cena hilária que Thor, personagem de Chris Zylka, tenta uma auto-felação. Aquele é o gatilho para o que está por vir. Vendo essa cena, que apenas parece um elemento cômico, o espectador já fica pronto para a bizarrice de Kaboom, esperando até mesmo o inesperado. Os colegas que se revelam apenas fantoches, ser o filho escolhido, encontrar seitas fanáticas, instituições que tem como membros alguns ex-membros da seita principal e até mesmo poderes psíquicos. Tudo de estranho acontece com Smith. E isso tudo encaixado de forma neural e divertidíssima na história.

Kaboom então termina assim, harmonioso entre suas transições de gênero. Extremamente bem sucedido em sua tarefa, o filme não alcança uma cotação maior por não exigir nada além de descompromisso, terminando irretocável em suas modestas pretensões. Voltando ainda á originalidade no seu excelente final deus ex machina, Araki se consagra em sua tarefa e cria um pequeno grande filme.

Uma pequena pérola. E nada mais. Nada de rótulos mais elaborados. Rótulos são a antítese de Araki, Smith, London, Stella e, sobretudo, de Kaboom.

**** 4 Estrelas

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Old School Trailers

Se Beber Não Case 2

A comédia adulta hit de 2009 ganha uma sequência que, pra alívio dos fãs, traz todo o elenco de volta e ainda é dirigida novamente por Todd Phillips. O trailer é montado de maneira eficaz e cumpre o que o teaser anterior prometia. O problema mesmo parece ser o roteiro, que traz as situações do primeiro filme novamente, idênticas ou levemente modificadas(troque o tigre pelo macaco e tá tudo igual). Não sabemos se o sumiço do primo da noiva asiática de Stu vai ser excessivamente igual ao sumiço de Doug no primeiro, mas que o filme promete ser apenas um "mais do mesmo", isso sem dúvida. Contanto que seja bem executado, Se Beber não Case 2 será divertidíssimo.

**** 4 Estrelas

Warrior

O novo filme de Gavin O'Connor aposta nas situações consagradas dos filmes de boxe e encaixa o arco de superação na trama das lutas de artes mistas, o MMA. Assim como os exemplares do gênero, o filme aposta nas atuações. E o edificante trailer, que exalta bastante Nick Nolte e Tom Hardy, prova isso. Mas o problema do trailer é a falta de originalidade. Desde a montagem esquemática até Hardy correndo com seu capuz, Warrior bebe da mesma fonte de O Vencedor, o recente indicado ao Oscar. Até mesmo as letras que aparecem no trailer são idênticas ás usadas em Vencedor. Com grandes sucessos se concretizando, sempre há as cópias. E Warrior cheira, nada mais, que O Vencedor de laboratório.

** 2 Estrelas

Melancholia

O espetacular trailer do novo filme de Lars von Trier, o primeiro após a perturbação causada em Cannes por seu Anticristo, apresenta uma montagem eficaz, ainda que escancare o quanto o filme é europeu e sujo, sem o profissionalismo pontual dos americanizados. Apresentando diálogos tensos em dramaticidade, Melancholia é um filme catástrofe, como apontam as belas imagens em câmera super-lenta, mas se estrutura como um drama, que se inicia no casamento da personagem de Kirsten Dunst, que está transformada desde sua ascenção por Homem-Aranha. Extremamente bela, mas exótica pro papel, Dunst deve segurar o filme com folga, ainda mais tendo Charlotte Gainsbourg para dividir as cenas consigo. Lembrando o movimento Dogma 95 em seus temas e consolidando a estética esplêndida de Anticristo(repare os dedos se esfumaçando de Dunst), Melancholia se firma como um dos filmes mais interessantes a serem vistos esse ano.

***** 5 Estrelas

Anonymous

O suspense histórico de Rolland Emmerich é uma grande incógnita. O diretor conhecido por seus filmes-desastre migra pra um gênero complicado como o thriller/drama histórico. Porém, Emmerich não está envolvido no roteiro, que é escrito pelo bom John Orloff. Recriações históricas espetaculares e uma direção grandiosa(atente como o trailer se parece um épico em alguns momentos) e surpreendentemente impressionante tornam o filme um diferente exemplo no circuito. A desconfiança sempre se recai sobre Emmerich, mas será difícil errar com um roteiro alheio e com um elenco que tem Rhys Ifans e Vanessa Redgrave. Desde que honre Shakespeare, mesmo apresentando uma teoria um tanto inusitada, já está ótimo.

*** 3 Estrelas

O Palhaço

O segundo filme do talentosíssimo Selton Mello, segue a linha melancólica de seu debut, o pesado Feliz Natal, mas com um tom mais cômico. A fotografia excelente, com tons amarelados com granulação, ajuda a sustentar a trama dramática, do palhaço que "perdeu a graça", vivido pelo próprio Selton. O teor da narrativa e os enquadramentos inspirados de Mello remetem aos filmes sensoriais americanos e aos dramas argentinos, inspiração explícita do diretor. Não só divertida e tecnicamente irretocável, a comédia aposta nas atuações de Paulo José e Mello, se consolidando como uma grande promessa pra esse ano. Um desafio para o diretor, que pela primeira vez vai se dirigir, parecido com o que aconteceu recentemente com Ben Affleck, em Atração Perigosa. Recomendadíssimo.

***** 5 Estrelas

segunda-feira, 28 de março de 2011

Batalha de Los Angeles

Meliante metido a cineasta faz amálgama digno de Michael Bay se tornar uma tortura extrapolada .

Antes mesmo do logo da Columbia Pictures desaparecer no fade-out que precede o primeiro fotograma de Batalha de Los Angeles , já escutamos aquele som típico dos longas de Rolland Emmerich : Algum jornalista alegando um desastre sem precedentes em algumas regiões do planeta . Então, quando o filme de Jonathan Liebesman realmente começa, somos jogados á um redemoinho de imagens tremidas, dentro do foco do desastre, para depois sermos enviados ao arco que interessa ao filme - um helicóptero recheado de marines que sobrevoa uma área onde naves alienígenas caem aos montes . Gerando uma tensão interessante, o título aparece em tela numa imagem aérea épica e desoladora . Tudo fica preto . Então o filme começa de fato . E não demora mais que um minuto para ter-se idéia da hecatombe nuclear que Batalha de Los Angeles realmente é .

Dentro desses poucos minutos de filmagem interessante e agressiva, fomos claramente enganados , mas talvez seja apenas uma dose irrelevante de enganação comparada á daqueles que aguardavam euforicamente pelo filme - criando um hype que se revela obviamente falso - devido aos trailers bem montados e cartazes no mínimo criativos . Perante á película, porém, não há como ser enganado - a babaquice de níveis estrondosos que essa produção mostra ser, não pode se esconder de ninguém . Um erro em cima do outro , tudo que poderia implodir qualquer filme , foi introduzido á mistura, e o mínimo que poderia dar certo , foi elevado a níveis de uma overdose fatal .

Explico . Batalha de Los Angeles utiliza uma trama extremamente simples - dignas de filmes de Michael Bay ou Rolland Emerich - mas extrapola qualquer ponto, não usa nenhuma medida para estacionar sua cotação em apenas ''ruim'' , não controla qualquer perímetro de qualquer que seja o aspecto, resultando numa verdadeira catástrofe . Os clichês de Bay e sua excitação com o exército americano - o diretor de Armaggedon deveria ter sido um peseudo-personagem tipo Tio Sam, e não um cineasta - se fazem presente de maneira exponencial , e Jonatahn Liebesman mostra seu apreço incondicional ao ridículo . A máxima antológica do sargento batendo continência em frente a bandeira americana , é , acreditem ,uma das passagens patrióticas mais leves do filme . A saudação aos marines é intensa , sufocante, angustiante de tão inflada . Assim como outros pontos do filme , esse nacionalismo inchado, que numa dose baixa pode até ser engraçadinho, se torna nocivo com o passar do tempo de exibição .

E se Jonathan Liebesman tem um amor incondicional ao exército americano - mesmo sendo sul-africano - parece não possuir tanto apreço a materiais básicos e essenciais para a vida de qualquer cineasta - como um mero tripé, por exemplo . É a única explicação para tamanho descaso e desuso de qualquer apoio ou sustentação de sua câmera . Talvez seja mais fácil encontrar diálogos decentes no filme - e olha que esta é uma tarefa árdua e complexa - do que apontar um take estático que seja . Nada contra a câmera na mão . Quando bem usada, é fundamental para a respiração de um filme , como na urgência brilhante da câmera de Lee Daniels em Precious, para citar algum exemplo mais recente . Mas aqui , Liebesman exacerba . Demais .

Não é mera implicância , o projeto de diretor faz Michael Bay parecer cauteloso em seus cortes se comparado ao seu modo de filmagem em Batalha de Los Angeles . Urgência em alguns pontos é adequado. Usar o leve tremor da câmera e zooms intimistas em conversas descontraídas e nada importantes é, no mínimo, inadmissível . Sem falar que esses mesmos zooms intimistas acabam proporcionando um ar documental - e nem preciso dizer que tentar enxergar algo documental no exagero maniqueísta que Batalha de Los Angeles é, é simplesmente estapafúrdio . Pra encurtar, Liebesman usa câmera na mão o filme todo, perde qualquer potencial dessa técnica ao emprega-la durante modorrentos 116 minutos, e ainda de quebra deixa seus espectadores com dor nos olhos .

Mas se havia algum ponto que poderia dar certo no longa, talvez fosse uma diversão de um filme de pancadaria entre aliens e humanos . Entra em cena aí , então, o outro carrasco de Batalha de Los Angeles : Christopher Bertolini . O cidadão que criou o script do filme - não acho que chama-lo de roteirista seja prudente - deve possuir sérios danos mentais ou então fez o roteiro (roteiro?) para curtir com a cara do sagaz espectador . Aposto numa terceira opção, a pura falta de compreensão do que é bom, do que é ruim, e do que é desastroso . O último adjetivo , aliás, é perfeito para caracterizar o... err... hmm... roteiro , de Bertolini . Como um adolescente com ejaculação precoce , Bertolini inicia a pancadaria sem fim com uns 20 minutos - se muito - de filme . Pelos meus cálculos, tirando créditos , são mais de 95 minutos de pura ação , correria, tiroteio, explosões, etc.

Obviamente, em 20 minutos ele não explora adequadamente os personagens - e pelo o que o filme se propõe, isso nem era necessário - mas faz questão de colocar letreiros com nomes das personas quando elas aparecem - tomando a inteligência do espectador pela burrice que apodera sua mente . E no que se refere a esse espaço de pancadaria que toma conta da maioria do filme, deve-se dizer que , mais uma vez, há o claro exagero . Mesmo aquele que é mais aficionado por ação, achará Batalha de Los Angeles insuportável . Até determinado ponto, a loucura da batalha sem fim parece palatável , mas a partir de um determinado momento - principalmente nos 40 minutos finais - tudo começa a ficar extremamente enfadonho, cansativo, repetitivo e sem a menor graça . Ter sono nessa parte, e se sentir perdido, sem foco e sem atenção, não é difícil .

Tomando exagero e extrapolação como palavras de ordem básicas , Batalha de Los Angeles vai além de qualquer limite que qualquer cineasta ruim já teve . E se vai além no aspecto do absurdo, da ruindade , não tem nem a vergonha na cara de ser escrachado - como Michael Bay e Rolland Emmerich tantas vezes fazem . Não tem aquele ar de descontração dos filmes de Bay, por exemplo . Se leva a sério, e isso culmina com uma sensação perversa, mas verdadeira : a de que estamos assistindo a uma sátira de filmes de guerra , no estilo Trovão Tropical .

Não se espante se não perceber a ofensividade do filme enquanto assiste a ele . O teor exacerbado é tanto, que só adquirimos consciencia de seu ultraje a nossas mentes quando ele se encerra . Catarticamente, percebemos o terror que assistimos de maneira hipnótica . A sensação é de ter sido estuprado, não por um alien, mas por todo um pelotão americano patriótico. Agora, não sou eu que estou exagerando . É só o resultado do crime de Jonathan Liebesman, um verdadeiro violentador de mentes e de qualquer senso de sanidade intelectual.

1 Estrela * - Péssimo

Sem Limites

Neil Burger cria interessante lógica visual em bom roteiro.

Diretor com apreço pelo técnico, Neil Burger realizou em seu trabalho mais famoso, O Ilusionista, um dos mais belos filmes de 2006 em termos técnicos. Indicado ao Oscar por fotografia, com trilha de Philip Glass e direção de arte que cria com precisão o clima antigo da produção, Ilusionista já demonstrava a habilidade de Burger por trás das câmeras. Seu último filme, porém, foi bastante criticado. E sendo o roteiro do próprio Burger, o prudente era assumir apenas a função de diretor. E tendo em mãos o roteiro de Leslie Dixon, de Hairspray, Burger entrou de cabeça na adaptação do livro The Dark Fields, de Alan Glynn. Tendo no elenco Bradley Cooper, Abbie Cornish e Robert de Niro, Burger começou sua produção de 27 Milhões de dólares. Contando a história do escritor Eddie Morra, que ganha uma pílula que ativa 100% da atividade cerebral, Burger alcançou o topo das bilheterias americanas e ainda arrancou elogios da crítica americana.

E a receita desse sucesso é clara. Num filme que mescla boas situações, diálogos ágeis, bom humor e roteiro descomplicado, o resultado raramente dá errado. Nesse circuito ameno, é previsível ver como Sem Limites se tornou um sucesso. Ainda mais competindo com o ousado e contemporâneo Sucker Punch, que foi massacrado pelos críticos conservadores.

O roteiro de Dixon começa interessante. Ao criar um desnecessário, porém eficiente, prólogo, Dixon lança o espectador nos créditos iniciais com um tom de mistério interessante, pensando o que poderia ter levado o protagonista até aquilo tudo. E a primeira sacada vitoriosa de roteiro se reside ali: ao sugerir que o filme siga o caminho clássico, ou seja, conhecer a pílula-ascender na vida-cair do topo(literalmente, no caso), Dixon é esperta em brincar com o conceito do clichê do espectador, visto que quando a cena chega, Eddie já tinha caído, voltado ao topo e ainda continuaria oscilando entre eles até o final. Fugir do previsível se estabeleceu como a grande sacada do filme inteiro, que constrói situações interessantes até culminar no final poderoso em sua simplicidade, apenas por fugir das convenções comuns aos filmes do gênero.

Porém, se essa sacada implícita parece algo realmente memorável, não se espantaria se detectasse que ela é acidental. Ainda que o roteiro tenha um relativo esmero estrutural, os caminhos que levam ás tais situações interessantes são irritantemente esquemáticos. Se a própria insistente narração em off de Eddie já explica desnecessariamente a história, visando descomplicá-la, a carpintaria do roteiro pode soar engenhosa, mas é absurda quando relembrada. Ao criar algumas situações, Dixon as soluciona com desleixo, manipulando fatores apenas por ser uma solução conveniente. Quando Bradley Cooper precisa se livrar de um atirador, usa uma agulha para furar seu olho. O problema é: o homem pode atirar ainda sim com um olho. Então Dixon, se achando muito genial, acha relevante tornar o atirador cego de um olho, afim que Eddie escape com mais facilidade. Da mesma forma, ela torna a solução do problema de saúde que as pílulas causam, que permeia a trama toda, um evento que depende da idiotice de um personagem. Mais: Eddie não é revistado após ser o único na cena de um crime, tornando possível que ele leve as pílulas consigo. Se fossem situações irrelevantes, até daria para se perdoar esse erro. O problema é que todas essas são centrais á trama. E ainda tem mais de onde saíram essas, como o mafioso russo com a solução da pílula na agulha. Esquemático demais.

Mas se esses erros impedem o filme de ser memorável, ao menos não o tornam enfadonho, tampouco irrelevante. A versatilidade do roteiro em atravessar gênero com conforto(do drama ao suspense, humor, ficção e até mesmo duas sequências de ação) é notável e torna o filme uma experiência agradável. A já citada narração em off pode até incomodar o espectador mais atento ao explicar demais a trama, mas nos torna mais próximos do personagem e auxilia algumas passagens de humor. E a parte dramática inicial, refletida pela competente direção de arte no apartamento de Eddie, é sintetizada de maneira eficiente na conversa entre o escritor e sua namorada, que demonstra rapidamente as ambições e peculiaridades da personalidade do primeiro. A transição de gêneros ocorre de maneira fluida também, variando de acordo com o rumo que o personagem ascende.

E é nessa transição queda-ascenção que Neil Burger se engrandece. Se sua direção competente é feita com ângulos firmes, as cenas de delírio adotam a lógica visual esplêndida que Burger realiza aqui em Sem Limites. Os créditos iniciais já demonstram personalidade ao usar um gigantesco zoom que emulará, em uma cena mais á frente, a rapidez excessiva do raciocínio do protagonista, que não consegue acompanhar a própria mente. Mas é em conjunto do diretor de fotografia Jo Willians que Burger realiza a grande sacada visual: o contraste ensolarado-opaco. As cenas dramáticas são cinzentas, frias. A paleta de cores escolhida é opaca e as tomadas externas de Nova York só aumentam essa sensação triste. Já nas partes de ascenção, ágeis e interessantes, a fotografia vira ensolarada, quase dessaturada, com tons amarelados muito bonitos. E a supra-citada transição de gêneros não poderia ser melhor retratada pela fotografia: Quando tudo melhora na vida de Eddie, o primeiro lugar que ele vai é a praia, síntese solar. Não só estimulante visualmente, a fotografia de Willians é crucial á narrativa.

E é no delírio que Burger ganha mais liberdade. Colocando diversos Eddies na tela, afim de retratar passagem temporal, o americano ainda utiliza da paleta de cores distintas do filme para criar a sua própria lógica visual de delírio, quando mescla as cores de forma quase onírica. Profissional meticuloso, Burger ainda extrai boas interpretações de Abbie Cornish e Robert de Niro, além de tirar de Bradley Cooper uma atuação que segura tranquilamente o filme sozinho, demonstrando seu talento já demonstrado em Se Beber Não Case. E para finalizar, o diretor ainda conduz a cena de luta(!!!) que há num metrô de forma segura.

Ao quase se sabotar pelas soluções preguiçosas que escolhe pra resolver alguns entraves da trama, Sem Limites não consegue alcançar voos mais altos, mas se estabelece como um suspense divertido e competente. Seguro e bem-humorado, vale a visita. Engenhoso dentro de suas limitações, o filme de Neil Burger consegue agradar e traz o diretor á boa forma de O Ilusionista. Se escolhesse usar mais sugestões, como a perna manca dos consumidores da NZT, o filme poderia ser melhor. Mas mesmo explicando demais, acaba saindo vivo no meio de tanta besteira em cartaz.

Ao menos em manter o espectador interessado ao abandonar o lugar seguro de um final redentor, Sem Limites é poderoso.

*** 3 Estrelas - Mediano