Old School Nerds

Old School Nerds

domingo, 10 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2 - Crítica 2

José Padilha monta épico do crime organizado numa colcha de retalhos de fatos verídicos.

Em 2007, a grande sensação do cinema nacional era o filme Tropa de Elite. Cinema entre aspas, pois o filme foi lançado nos cinemas depois de já ter sido assistido pela esmagadora maioria do público por meio da pirataria . Sucesso absoluto, indiscutivelmente, o filme gerou bordões inesquecíveis, personagens contundentes e profundos, e conseguiu mostrar a história da violência urbana de um ponto de vista diferente : o da polícia . Arrasador, todos ficaram extasiados pela quantidade de informações interessantes e de todo um panorama genial que a teia narrativa do filme de José Padilha criava . Mesmo sendo chamado por alguns de fascista, pelos métodos agressivos que os policiais do Bope dispunham , o primeiro Tropa foi abraçado pelo público em geral . Não era por menos - afinal , tudo ali esclarecia o mundo de drogas e violência no Rio de Janeiro, e mostrava suas causas e consequencias, muitas vezes ligadas ao mundo de quem assiste.

Tropa de Elite 2 não faz diferente. Segue a linha de construir uma história que mistura fatos verídicos com personagens ficcionais ( ou quase ficcionais, por referências quase diretas a personas da vida real) . Só que desta vez, em 2010, a história é outra . A estrutura montada e desmontada no primeiro longa de anos atrás era de violência urbana mostrada onde ela acontece - nas ruas, nas perseguições, em tiroteios. Nessa sequencia, a estrutura se modifica, os inimigos se diferem, e tão logo também o modo de se mostrar a história. A narrativa agora abrange mais , muito mais, abraçando tudo e todos, montando um panorama visto de cima, com mais personagens e mais conexões. Tudo isso se deve ao fato do comando dos campos de batalha - as favelas cariocas - ter mudado. Não são mais os traficantes que comandam o morro, e não mais é o tráfico de intorpecentes que gira a engrenagem do crime organizado . São as milícias, comandos de policias veteranos da PM carioca que asseguram o domínio do morro e se ligam no povo que lá habita através de cobrança de várias taxas - desde o ''gatonet'' até a venda de gás de cozinha . E esse esquema de domínio sobre o povo, é claro, não é feito com as mãos limpas , e está a milhas de se tornar algo legal.

E é esse o inimigo que o subtítulo aponta. Nesse cenário se monta a trama do novo filme de Padilha . Depois de pouco mais de10 anos desde os acontecimentos do primeiro filme, Nascimento ( Wagner Moura) não é mais um dos comandantes do Batalhão, e subiu ao posto de que nenhum Caveira jamais havia chegado - virou Sub-secretário de Segurança. De um posto mais alto, Nascimento começa a ter mais visão de tudo o que ocorre de novo no mundo da violência carioca - e precisa agir contra ela. Só isso já bastaria para causar uma rede de problemas suficientemente grande, mas o nosso herói carrega ainda mais fardos. Seu filho , agora já crescido, não tem uma boa relação com ele , e por vezes escancara para o pai que não é violento, como Nascimento. Tal visão do filho sobre o pai se decorre dos eventos mostrados na televisão, onde em alguns deles seu novo padrasto, o ativista dos diretos humanos Fraga (Irandhir Santos) critica o modo violento pelo qual o Bope opera .

Toda a estrutura de narrativa de Tropa de Elite 2 está mais profunda, mais densa e mais geral. Tudo mostra uma grande evolução, uma grande maturidade do novo filme. A observação de Wagner Moura em entrevistas foi muito bem colocada. " Este filme é mais maduro que o primeiro". Afirmativa inegável. No longa, há símbolos que comprovam isso. Se no primeiro filme o calo que era pisado era do playboy maconheiro que finaciava o tráfico, no segundo os alvos das críticas são algum tipo de evolução dos alvos iniciais. Desta vez são políticos corruptos, ativistas que ''protegem'' bandidos e toda a gama de milicianos que se instaura na gerência do crime organizado.

A diferença estrutural básica desse longa para o anterior está na sua amplitude. Se em 2007 se usava tempo de tela para montar toda mecânica da polícia e do Bope, como em um bom Full Metal Jacket brasileiro, agora o Batalhão de Operações Especiais funciona como um dos agentes atuantes em um cenário instaurado pela invasão das milícias nas favelas cariocas. O cenário se amplia, e o roteiro aumenta sua densidade. Cada personagem tem sua função muito bem definida em todo o contexto , tem uma razão de existir, e há tempo de tela sobrando para se desenvolver. Os roteiristas desenrolam a saga de uma maneira que remete a um épico. Um verdadeito épico criminoso, onde o realismo marca presença tão forte, que destinos são traçados pelos realizadores sem medo nem pena, como num digno filme ensemble cast - Como Traffic e Crash .E o mais interessante disso tudo é modo como duas coisas quase imiscíveis se encaixam tão bem nessa franquia . Realidade e ficção . Ora, se o objetivo é contar uma história de uma cidade real, com elementos reais, numa linha cronológica real, como colocar personagens fictícios, e situações por vezes fictícias num roteiro? Pois Padilha e Bráulio Mantovani conseguem arranjar caminhos para encaixar tudo, sem fugir da realidade, mas também sem copiar passagens dignas de ''baseado em fatos''. É genial o modo pelo qual Tropa 2, assim como o 1, respira e vive nesse vai- e- vem entre ficção e realidade. O que nas mãos de alguém com pouco talento podia virar simplesmente um filme-denúncia panfletário, Padilha e Mantovani convertem em material original de primeiríssima linha.

Este longa também é mais bem resolvido quanto ao aspecto da ideologia. Seu predecessor foi atacado veementemente por muitos como um filme extremamente fascista, violento e com métodos extremamente questionáveis . O filme flerta, em seu princípio, com algo parecido, como Direitos Humanos X Pensamento policial . Entretanto, espertamente, essa configuração é apagada ao longo de sua exibição. Fica logicamente prejudicada a discussão, quando um inimigo em comum aparece. É esse o papel da Milícia . Porém, é claro, Padilha e Mantovani , fazem questão de deixar clara suas opiniões a respeito de cada assunto, afinal aquele é o ponto de vista que Nascimento terá, e o personagem não é de desconversar . Tanto não é , que o filme tem a audácia de apontar o rifle da crítica para quem merecer, sem distinção. Certos políticos que assistirem ao filme sairão da sala um tanto quanto agulhados, e sairão agulhados justo numa época de eleição. Sensacional. Outro ponto positivo é a contrução de personagens. Eles são tão profundos e tão realistas - Padilha não os filma e nem os escreve com o mínimo de maniqueísmo - que nos sentimos tocados por eles desde o princípio . De alguns, temos raiva, de outros, adoração. E de alguns, ambos - como o personagem de Irandhir Santos, o deputado Fraga. Todo esse esmero na carpintaria dramática gera uma sensação de tensão constante, desde que o primeiro frame é exibido até o fade-out final.

E o talento de José Padilha na direção ajuda muito o filme . A câmera na mão não cessa, e até em momentos em que a câmera poderia ficar apoiada , Padilha a segura nas mãos. O leve tremer do instrumento que registra a ação gera um tom mais documental , e isto já havia sido testado no primeiro longa. Aqui, ele utiliza desse artifício em larga escala, e o combina com seus closes fechadérrimos, que acabam criando a sensação de claustrofobia necessária . Na ação, que é pontuada na medida exata , o tremer fica maior, e logo o tom de documentário também. De fato, a imersão que tais artifícios geram já foi testada antes, mas aqui funciona ainda melhor .Pode-se dizer, então, que Padilha não inventa moda, mas que seleciona muito bem o estilo que usar, no momento em que usar .

Acoplados a isso, temos os termos técnicos, que falam por si só . É impossível não olhar para a fotografia belíssima de Lula Carvalho e não ficar encantado. Gera sensações variadas e se adequa ao momento do filme sem alterar sua paleta . Em determinados momentos, passa sujeira, em outros, passa um tom árido, e em outros certo tom documental. Fora sua beleza contrastante, que já era chamativa logo nos primeiros trailers. A música de Pedro Bronfman também passa a tensão necessária sem abusar e sem descompassar. Serve como pano de fundo muito bem, se entrelaçando ao filme e não se destacando ou parecendo algo aleatório. E por fim, nem se precisa comentar o show comandado por Daniel Rezende na Montagem. Rápida como em Cidade de Deus, ele não foi indicado ao Oscar a toa.

Para coroar o filme, temos as atuações. Mais uma vez, sem nenhum erro, sem nenhum ator mal escolhido, e com talento de sobra. Destaque óbvio para Wagner Moura, que parece ter absorvido por completo a experiência do filme. O perfil de seu personagem está gravado não só por suas expressões faciais ou falas orgânicas . Sua postura corporal está modificada. O velho Nascimento firme e forte do primeiro filme está um trapo fisicamente, e sua atuação é a personificação perfeita. Os atores Irandhir Santos e Sandro Rocha também são espetaculares em seus papéis, e conseguem passar o filme todo sem derrapar, sem saltar caricaturas e costurar uma tridimensionalidade respeitável. O mesmo também vale para o sempre dedicado Milhem Cortaz. Quem também merece citação rápida aqui é o ator André Mattos. Quem conhece sabe que ele imitou perfeitamente o estilo de Wagner Montes, apresentador do Balanço Geral carioca, capturando seus trejeitos de forma muito verossímil.

De fato, Tropa de Elite 2 supera o seu original. Por ter mais maturidade, maior visão e maior apuro técnico. Uma verdadeira obra-prima do cinema nacional, que não existe por acaso, e que sabe explorar da maneira mais clara o possível os acontecimentos do dia-a-dia do Rio de Janeiro. Mais uma vez, Padilha e Cia jogam na nossa cara a realidade com toques de ficção muito bem caracterizados, passando informação e entretenimento simultaneamente, sem soar panfletário em momento algum. Filmes nacionais desse porte, que conseguem dosar sem exageros elementos variados, merecem ser vistos. E esse novo caminho tortuoso do nosso herói trágico Nascimento merece ser visto e revisto, definitivamente .

5 Estrelas *****

sábado, 9 de outubro de 2010

Tropa de Elite 2 - Crítica 1

José Padilha cria um soberbo filme político, tenso e panorâmico.
Capitão Nascimento. Talvez o maior personagem brasileiro de cinema de todos os tempos. Não apenas em ser reconhecido pelo público e ter suas frases na boca de milhões de brasileiros, mas por causa da espetacular densidade dramática criada por esse personagem único e com pensamento singular, que parece ter todas as responsabilidades possíveis explodindo na sua cabeça. No primeiro filme, depois de cerca de 20 milhões de pessoas terem visto-o(contando as cópias piratas), Nascimento procurava um substituto á sua altura, que pudesse fazer suas funções com a mesma dedicação. Missão dada, missão cumprida, o sucesso do filme fez com que uma sequência fosse anunciada. Como o primeiro filme introduziu uma excelente história, apresentou personagens carismáticos e ainda implantou uma realista discussão moral, uma margem para um segundo era óbvia. Porém, as sequências de sucessos, como Transformers, se demonstraram ser apenas uma colagem de cenas de ação sem sentido apenas pra atrair público e dar diversão desregulada a eles.

Se Tropa de Elite 2 tinha tudo pra seguir esse rumo, como dava pra apontar no primeiro trailer lançado(que mostrava o BOPE resolvendo um problema numa prisão, o que parecia ser algo trivial e clichê, que só acrescentaria ação a uma trama tão rica). Porém, José Padilha e Bráulio Mantovani perceberam que a situação no Rio de Janeiro atual poderia ser utilizada como pano de fundo para um legítimo filme-panorama, mostrando todos os espectros de uma organização muito maior do que aparentava ser no primeiro filme: o Sistema. E, sem deixar se levar pela tendência de elevar a ação, elevar as frases de efeito e elevar tudo para a sequência, os roteiristas criaram uma película inesquecível, com ação pontuada e diálogos excelentes. Portanto, Tropa de Elite 2 pode carregar a imensa qualidade adquirida em Tropa 1, mas pelas suas melhorias técnicas, de atuação e roteiro, é um filme totalmente diferente. Difícil comparar duas obras tão distintas, mas se formos usar um linguajar mais fácil, diria que Tropa 2 supera o original.

A trama, contada de diversos pontos de vista, segue o Capitão(agora Tenente-Coronel) Nascimento(Wagner Moura) em uma cruzada pela justiça no Rio de Janeiro. Apesar de deixar André Matias(André Ramiro) no seu posto, uma pessoa digna em sua avaliação, Nascimento se viu obrigado a continuar chefiando as operações, mesmo que não atue mais nas ruas. O antes tensionado e pilhado Capitão viu a idade chegando, está mais calmo mas continua irredutível em sua filosofia de vida. Após alguns problemas em uma prisão no início do filme, o BOPE ganhou repercussão internacional ao ter que bater de frente com o ativista dos direitos humanos Diogo Braga(Irandhir Santos). Com o apoio do governador, os direitos humanos começam a ser mais avaliados e, apesar do povo estar do lado de Nascimento, o BOPE perde força. Porém, quando Nascimento é chamado(pela pressão pública no governo) a ser subsecretário de segurança, o BOPE volta com força total e acaba inteiramente com o tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Era Nascimento criando uma máquina de guerra, como ele sempre idealizou.

Vendo que os traficantes estavam nas vacas magras, os policiais corruptos arrumaram um novo jeito de arrecadar dinheiro ilegal: A prestação de serviços a comunidade em troca de segurança, as polêmicas milícias. Poderia ser apenas um novo problema para Nascimento, algo a ser resolvido com força e inteligência, mas o buraco é ainda maior. Apoiados secretamente por políticos e gente muito influente, os milicianos mandam e desmandam em vários locais e só crescem com o passar do tempo. Encurralado por todos os lados e com sua pressão afetando até o lado pessoal, em suas relações com o filho(que cresce achando o pai um assassino), Nascimento percebe que o Sistema vai além da polícia corrupta e sua guerrinha com os traficantes. O Sistema tem origem em Brasília.

Nesse poderoso cenário político, que concilia ficção e realidade com uma destreza impecável, Tropa de Elite 2 toma um novo posto de narrativa: a de tabuleiro. Se antes era retratado o cotidiano dos policiais, dos personagens, com um filme que os privilegiava, agora a situação é vista de cima, com inúmeros personagens(prepare-se para cerca de 10 coadjuvantes realmente relevantes). A história do primeiro se focava em Nascimento, Matias e Neto contra a corrupção. Agora, temos todos os lados dessa guerra, com personagens políticos, da polícia, jornalistas, bandidos e até a família de Nascimento. E nisso, talvez o público se decepcione: não há mais frases de efeitos, nem um monte de bandidos sendo mortos. Agora, o que dá as cartas é o drama, é a manipulação de pessoas em prol de alguma coisa. Tropa 2 até toca em quesitos emocionais fortes, como a briga de Nascimento e André, a sua instável relação com o filho e a rivalidade grandiosa entre Braga e o Capitão. E tudo isso é bem realizado pelos roteiristas, que elevam os nossos conhecidos personagens a situações tão extremas que é como se cada minuto do filme fosse uma missa de Requiem para cada um deles.

Fora o núcleo do filme anterior, Tropa 2 ainda apresenta os outros personagens do panorama com bastante felicidade e nenhum didatismo desnecessário. Mais que isso, os inteligentes diálogos criados variam de cenários constantemente, justificando os embasbacantes 16 Milhões que o filme custou. Dividido em diversos atos, passados em cerca de 5 anos, o roteiro alcança um equilíbrio perfeito entre personagens bem construídos e situações críveis e interessantes. Vendo Tropa 2 até parece que Padilha e Mantovani viram muito Traffic, filme de Steven Soderbergh. O que Traffic representou para as drogas, Tropa 2 representará para a política brasileira. Até mesmo semelhanças de personagem acontecem. Nascimento é o Robert Wakefield da vez, o homem responsável por controlar uma força que ele não conhece completamente e começa a repensar tudo quando problemas pessoais o atinge. Como Traffic, Tropa 2 ganha um elogio que não poderia ser melhor: obteve êxito em organizar tantas informações em tão pouco tempo. Outro ponto ótimo é a construção de personagens, que não poderia ser melhor.

Mais uma diferença monstruosa para o primeiro Tropa é seu discurso moral. Antes imparcial, o discurso do filme, legitimado pela precisa narração em off de Nascimento, apresenta variações. Nascimento poderia sim falar tudo o que ele disse da corrupção no Rio(e, na minha visão, está totalmente certo). Porém, quando descobre que o Sistema(nomenclatura para o sistema da corrupção) é muito maior que ele imaginou, Nascimento repensa seu discurso. Sua moral de bandido bom é bandido morto continua intocável, mas seu discurso precisa ser mudado visto que seus inimigos agora não são meros traficantes e playboys que podem ser muito bem mortos. Ganhando evidência no povo e na mídia, agora Nascimento tem que enfrentar de frente os poderosos.

E não basta apenas dar um tiro na cabeça de cada um deles para o problema ser resolvido, afinal, como aprendemos no primeiro filme, o líder muda mas o Sistema continua. O peso que o Capitão carrega é gigantesco e as dúvidas quanto ao mundo que ele vive são tantas que a pressão só piora sua cabeça e ele se vê cada vez mais abatido. Espetacular esse tal Nascimento. Personagem forte, esplêndido, que não se deixa perder e simplesmente levanta e continua. Mesmo sendo pisoteado, ele permanece vivo na cruzada pra salvar o Rio. Essa mudança de postura poderia soar frouxa, mas vendo com mais cuidado, percebemos que tudo aquilo continua intocável e a postura precisa ser abrandada apenas para o panorama funcionar, sem tomar decisões precipitadas. É emocionante ver que ainda temos cineastas talentosos a ponto de construir uma cadeia de eventos diversos, sem julgar ninguém e ainda assim tomar uma posição diante daquilo tudo. E quanto ao Capitão ter se afrouxado, acredite, não poderia soar mais incorreto. Basta vermos o GENIAL discurso final dele no filme para percebermos que ele permanece o mesmo cara, mas o inimigo agora é alguém vulnerável a suas balas.

Se o roteiro é tão espetacular em equilibrar situações políticas e uma tensão gigantesca na ação pontuada durante o filme, temos uma técnica á altura. A direção de José Padilha é de tirar o fôlego, com uma ação coordenada de forma concisa e que é fácil de acompanhar, sem precisar cortar um milhão de vezes e impedir o público de saber o que está acontecendo. O plano sequência não é utilizado, mas os cortes ocorrem de forma natural. Fora isso, os ângulos obtidos nas partes de drama e a constante utilização de mudança de foco de zoom nas cenas só auxiliam o filme a ficar melhor. Juntando isso a planos grandiosos(inéditos no Brasil) e uma genial sequência pré-créditos em que a câmera vai se aproximando, em câmera super lenta, ao Honda Fit metralhado, temos uma direção perfeita. Sem medo de repetir, perfeita mesmo. Mas talvez ela não seria nada sem a edição do indicado ao Oscar Daniel Rezende. Repetindo o excelente ritmo adquirido no primeiro longa, Daniel melhora sua edição e seria facilmente indicado novamente se o filme não tivesse negado a inscrição ao prêmio. Aliando-se a direção, a edição pontua a tensão GIGANTESCA que o filme impõe.

A direção de fotografia de Lula Carvalho melhora ainda mais o tom realista e saturado do primeiro longa, fazendo algo muito profissional e causando inveja tecnicamente a filmes como Se eu Fosse Você ou Olga. Já a trilha de Pedro Bronfman extrapola. Sendo excelente de ouvir separadamente, ela ainda é perfeita pro filme. Criando melodias extraordinárias e que elevam a supra-citada tensão do filme a milésima potência, Bronfman ainda reutiliza alguns acordes do primeiro filme. E não há acordes de violão mais tensos do que os usados pelo compositor. Outros 2 elementos ótimos são os efeitos visuais e a direção de arte, que dão um toque mais bonito e profissional ao filme, de fazer inveja a filme estrangeiro.

As atuações são a cereja do bolo. Wagner Moura mais uma vez atua de forma hipnótica como o Capitão. Entrando no personagem novamente de forma hercúlea, o ator ainda cria novos sentimentos a Nascimento, apresentando um personagem mais humano e maduro, que descobriu esses tais sentimentos que eram desconhecidos por ele até 15 anos atrás. Mesmo só passando 3 anos desde o lançamento de Tropa 1, Wagner faz parecer que se passaram 15. Que profissional invejável. André Ramiro chega também com sua essência de antes e nos faz lembrar e ter novamente os laços afetivos com o personagem, criados em 2007. Irandhir Santos faz o ativista com uma entrega muito boa, dando seus argumentos de forma coesa e quase apaixonada. Mesmo seu personagem começando como "intelectualizinho de esquerda" no filme, ele começa a ganhar uma visão maior e melhor dos fatos, porém cometendo os mesmos erros do início. Tudo isso captado com precisão pelo profissional. Fora os três, o excelentes outros atores fazem seu papel com a mesma precisão.

Sendo assim, Tropa de Elite 2 é vitorioso e, um cru e realista panorama do crime e política no Brasil. Corajoso principalmente, lançado na época das eleições, mostrando verdadeiras facetas de inúmeros políticos. Não tem a tendência de ser chamado de facista como o primeiro foi, mas permanece tendo uma visão particular de todos os fatos ali descritos. Impressionantemente, a ideologia do primeiro continua em menor escala, mas continua, mesmo sendo sufocada pelo panorama ali imposto. Um completo caos, como o panorama descrito pelo filme. Essa é a cabeça de Nascimento, o Rio de Janeiro e o intrigante tabuleiro de ideias e corrupção que é a política no Brasil. Vá com fé ao cinema e tenha uma aula do que está ocorrendo no Brasil atualmente, veja um excelente filme e torça muito pelos personagens que aprendemos a apreciar há 3 anos atrás. Tropa 1 já oferecia uma visão singular das coisas, mas Tropa 2 é superior pelo fato de mostrar isso de cima, do espaço.

Faca na Caveira. Nascimento acredita nisso e continuará acreditando. Mas muitos querem que ele se cale. Resta a nós, como a ele, um grito sufocado.

***** 5 Estrelas

sábado, 25 de setembro de 2010

Wall Street - O Dinheiro Nunca Dorme

Oliver Stone dirige continuação que devia se focar mais no seu título.

Wall Street é um marco dos Anos 80. Não apenas satisfeito em alçar Charlie Sheen ao estrelato, transformar Stanley Weiner em exímio roteirista e colocar Oliver Stone no mapa de maiores diretores da História, o filme ainda criou o genial vilão Gordon Gekko, interpretado por um oscarizado Michael Douglas. Seu "Greed is Good" virou um dos maiores bordões dos icônicos vilões que cercam Hollywood. Agora, depois de 20 anos, Oliver Stone demonstrou não segurar seus clássicos por muito tempo e virou o irregular diretor que é hoje, que alterna projetos bons como W. com excentricidades como seu recente documentário sobre o regime de Hugo Chávez na Venezuela. E é nesse cenário que Stone retoma as câmeras pra continuar a história de seu seminal filme oitentista. E o contexto histórico ajuda, afinal a Crise Econômica de 2008, o período em que se passa o filme, é um prato cheio pra contar histórias sobre a Bolsa de Valores e seu mundo tão peculiar. Deixo bem claro que não assisti ao primeiro filme, logo, essa resenha procurará avaliar a continuação apenas como um filme, sem se deixar levar pela análise-comparação que se tornaria se eu tivesse assistido o longa de 87.

A trama segue um jovem corretor chamado Jacob Moore(Shia LaBeouf), que está em alta no mercado. Ele trabalha para a empresa de Lewis Zabel(Frank Langella) e trabalha com as ações em Wall Street. Jacob pensa em pedir Winnie(Carey Mulligan) em casamento, mas ela não gosta muito disso pois se lembra da relação traumática entre seus pais. Porém, Winnie é obrigada a conviver novamente com seu pai, ninguém menos que o lendário Gordon Gekko(Michael Douglas), quando Jacob começa a se reunir com Gekko, do qual é grande fã, pra pedir conselhos sobre a Bolsa, que está começando a declinar com a falência da companhia de Lewis. Em troca, Jacob ajudará Gekko a se reconciliar com sua filha. Mas quando Lewis tem um destino ruim, Jacob encontra Bretton James(Josh Brolin), o homem responsável pela quebra da empresa e começa a pensar num plano de vingança.

O roteiro escrito por Allan Loeb e Stephen Schiff é competente em apostar no filme de 87 pra trazer um fôlego novo aos filmes de golpe, em demonstrar a agilidade digna dos melhores filmes de roubo, mas falha grandiosamente quando procura solucionar problemas do passado. Jacob precisa de um elo entre ele e Gekko e, por isso é criada sua namorada, filha dele. E criando um personagem que toma tanto tempo de tela apenas por falta de desculpa melhor pra juntar Jacob e Gekko, o filme perde um pouco. Fora que, tentando dar uma profundidade maior ao arrependimento do lendário corretor, a importância de Winnie cresce e ela funciona como o escape dramático do filme. Mas as soluções apresentadas ali são arquetípicas e, algumas vezes, incongruentes. Peguemos por exemplo a cena da festa, a conversa de Winnie e Gekko. O arrependimento do personagem pode até soar verdadeiro, mas o rápido convencimento de Winnie no perdão é estranho e meio deslocado. Assim, a personagem é mais um problema do que um ponto pro filme. Pode até dar um fundo dramático, mas prejudica o filme quando se pensa que ele podia ser mais cínico, mais ácido e menos emotivo.

Mas ainda temos a parte ágil do filme, a ácida, a do mercado das ações. E ela não poderia ser melhor, registrada muito bem pelo diretor e escrita soberbamente. Sem explicar roteiro e tendo diálogos espetaculares e críveis, o filme avança muito nas partes da Bolsa, inclusive na parte final, quando temos uma reviravolta esplêndida. Se focasse apenas nessa inovação que é mostrar o mercado da bolsa de dentro pra fora, numa película, o filme ficaria facilmente entre os melhores do ano. Mas o drama impede isso e Wall Street 2 acaba, no final das contas, tendo um roteiro acima da média, mas que poderia ser melhor.

Se o roteiro fica devendo, tecnicamente o filme é impecável. Oliver Stone parece estar em sua melhor forma, apresentando takes interessantes e, nas passagens da Bolsa de Valores, é espetacular. Apresentando vários cortes ágeis, cortando a tela em dois, três ou até quatro pedaços pra mostrar o caos que é o mundo das ações. Agilidade marcante, com uma fluência impressionante, uma direção soberba. Nas partes de drama, entram os takes bem planejados mas lentos, com calma, sem aquele estiloso panorama corrido. Consegue enquadramentos competentes e uma direção de atores ótima, numa direção interessante, mostrando algo um pouco(apenas um pouco) diferente do que se vê ultimamente nos filmes dramáticos. No geral, a direção equilibra o bom com o espetacular. A fotografia de Rodrigo Prieto faz o feijão com arroz, retratando bem a cidade de Nova York e só. Poderia se sair melhor e verdadeiramente marcante se quisesse, por exemplo, utilizar o filtro de câmera que foi usado no espetacular cartaz. Porém, só conseguimos ver aquela fotografia sombria na conversa de Bretton com Jacob na sala do primeiro.

A edição de David Brenner e Julie Monroe é muito boa, sendo destaque nas anteriormente citadas sequências do mundo das ações. Auxiliando a direção de forma impecável, a edição é um dos destaques. Já a trilha sonora de Craig Armstrong é composta de maneira precisa. Com melodias clássicas no drama e agitadas nas partes dos corretores. O curioso dessa trilha, e que faz ela ser um pouco acima da média, é que Armstrong faz essa agitação com instrumentos clássicos, o que dá um ar novo a tudo aquilo. Fora isso, ainda entra as músicas escolhidas pra produção, que alternam a nostalgia do primeiro filme com a elegância.

As atuações de Wall Street 2 são ótimas, como era de se esperar. Shia LaBeouf demonstra que pode criar um personagem crível e interessante, com carga dramática e se distanciar do seu Sam Whitwicky de Transformers. Claro que não há como não notar a semelhança do biotipo do ator com Joseph Gordon-Levitt, um ator mais competente(e que ficaria melhor no papel). Mas Shia mostra seu talento e faz com que esqueçamos da tal semelhança. Carey Mulligan tem um papel reduzido e, como citei anteriormente, meio dispensável. Mas mesmo assim faz valer sua indicação ao Oscar no ano anterior, sendo uma das atrizes mais completas atualmente. Mesmo sem muita relevância na trama, Carey marca sua presença em cena com dignidade. Se Josh Brolin tem um papel estendido e só faz o caricatual vilão, sem ir muito além disso, temos Frank Langella no outro espectro. Mesmo tendo pouco espaço de tela, Langella engole qualquer um com sua atuação e mostra ter diferentes facetas, ficando irreconhecível se pensarmos que aquele cara era o Nixon.

Mas todos sabem que o mais legal do filme só poderia ser mesmo Michael Douglas. O espetacular ator, com atuações tão marcantes quanto os próprios filmes(Wall Street, Um Dia de Fúria), fica á vontade no papel que rendeu o Oscar a ele. No início do filme, aparece mais retraído, quase sentindo nostalgia de tudo aquilo e sendo um mero coadjuvante de luxo. Porém, quando a trama vai ganhando duração, Douglas aparece mais e mais e seu comportamento vai mudando de forma em que encontramos o bom e velho Gordon Gekko em cena. É interessante acompanhar esse processo pois parece que Douglas foi se reacostumando com o papel, provando a si mesmo que estava enferrujado e precisava voltar com o tempo ao lendário homem. Atuação soberba, que faz valer o ingresso e que deve fazer muita gente que viu o filme de 87 sentir nostalgia, principalmente na virada da trama, próxima do final.

Aliando uma técnica vencedora e um elenco vitorioso, Wall Street 2 era jogo ganho. Mas seu roteiro se autosabota em alguns pontos e isso prejudica o filme de ser algo marcante como o filme de 87. É sempre bom ver Oliver Stone de volta a forma depois de direções insossas como em As Torres Gêmeas e também é bom ver um elenco tão estrelado e competente junto, tendo todos(menos Shia) os principais atores indicados ou vencedores do Oscar. Porém, os rumos dramáticos do filme impediram que a agilidade caótica da Bolsa de Valores ocupasse todo o tempo de duração, resultando em algo marcante e espetacular. E aí entra a personagem de Mulligan e o núcleo da família Gekko. É estranho pensar que sem apelar pro drama arquetípico, o filme poderia ser um dos melhores lançamentos do ano. Apesar de seus erros e percauços, Wall Street 2 vale o ingresso, seja pela nostalgia ou pelos momentos inspirados do mercado financeiro.

*** 3 Estrelas

domingo, 19 de setembro de 2010

Resident Evil 4 - Recomeço - Crítica 2

Paul W.S. Anderson mostra história incompetente, mas 3D estiloso .

Em 2002, começava no cinema a franquia Resident Evil, baseada na série de videogames da empresa japonesa Capcom . O sucesso dos jogos era grande e exponencial, e obviamente Hollywood esperava a mesma coisa nas telonas . Dito e feito, o filme não fez feio nas bilheterias, arrecadando um pouco mais que 100 milhões de dólares, tendo como orçamento um pouco mais de 30 milhões. Paul W.S. estava nesse filme, como diretor , escritor e produtor, e talvez por esse mesmo motivo, a película não se saiu bem nas críticas mundias . Afinal, é um fato e uma constatação quase unânime que W.S. Anderson não possui competencia atrás das câmeras, o que só viria a ser evidenciado nos seus trabalhos seguintes, como a franquia risível Alien Vs. Predador . Infelizmente, o mesmo ocorreu com Resident Evil . Seguiram-se os anos , e foram lançados mais produtos da saga, entre animações, quadrinhos, video-games, e obviamente, mais filmes. Depois das sequencias Apocalypse, em 2004, e Extinção, em 2007, Resident Evil se tornou uma daquelas franquias onde é preciso ser muito fã, e ter muita força de vontade para acompanhar.

Portanto , como o próprio Anderson já disse em entrevistas, era preciso algo novo para se comercializar a franquia novamente nos cinemas . Afinal, repetição após repetição, filme após filme, uma hora os fãs se cansariam . E é aí que a modernidade chega para ajudar o quarto capítulo da série. Nos últimos anos, com a popularização definitiva do 3D , e com o fenômeno tridimensional Avatar, a maioria dos blockbusters passaram a introduzir o 3D nas suas histórias, como método de atrair mais público, e mais dinheiro - já que o ingresso é bem mais caro . Não é diferente o que passou pela cabeça de Anderson, e como diretor,escritor e produtor, novamente, ele tomou a decisão mais esperta para uma estratégia de mercado - colocou a novidade de três dimensões no seu filme, e utilizou a elogiadíssima câmera do ''pioneiro" James Cameron.

E o resultado final é o mesmo que o cineasta queria. Seu plano deu certo, e saiu melhor até do que o esperado. O dinheiro chega, o público se atrai pelo filme, e o 3D funciona. E paremos por aí. Resident Evil 4 -Recomeço , é estranho , pois reúne as melhores e as piores características de seu realizador, e por mais que seja divertido e utilize seus efeitos tridimensionais de maneira muito esperta, também contém o roteiro falho de Anderson.

A trama é quase a mesma de todos os outros filmes. Alice ( Milla Jovovich) continua na sua jornada de procura de sobreviventes do vírus mortal que transforma pessoas em zumbis. Ao mesmo tempo, também busca destruir e se vingar da empresa Umbrella, responsável pela contaminação, que tem como chefe o agente sem emoção Wesker .

Raso desta maneira, o filme se baseia nos pilares básicos dos filmes de terror e de sobreviventes a infestações zumbis. Após chegar ao encontro de um grupo de sobreviventes, Alice tem que levar seus agora companheiros até um local seguro, e lá mater a ''resistencia'' da espécie humana . Desta forma, eles vão enfrentando dezenas de zumbis no seu caminho - inclusive o gigante Executioner - e segue a fórmula de mortes dos filmes de terror , onde um por um morre até que apenas os protagonistas sobrevivam . Não podia se esperar nada além disso num filme desses, mas o roteiro ainda apresenta erros dispensáveis. Flash backs surgem sem necessidade, e acabam irritando. Ora, quem já conhece a série, não precisa deles, e quem não conhece, não fica sabendo de nada, nada se esclarece. Outro problema se dá pela excessiva explicação de roteiro, que se concentra principalmente na parte inicial do filme . Nos momentos onde a protagonista registra suas falas na sua câmera, a explicação de narrativa fica explicitada. Isso também atrapalha o produto, afinal, não peço que o filme seja inteligente , mas que apenas não julgue seu espectador por imbecil. Isso tudo somado aos já clássicos buracos de roteiro que produções assim necessitam para viver, já quebra qualquer estrutura narrativa no meio.

Mas tudo que citei já era de se esperar. A história não era definitivamente o ponto forte do filme, e o seu diferecial é, como todos sabem , o 3D . Utilizando-se das super-câmeras criadas por James Cameron , que permitem registrar o longa já em 3D, Paul W.S.Anderson consegue criar um filme que tem nas cenas de ação qualidade considerável . Com coreografias interessantes e bem executadas, as cenas de ação se saem realmente muito bem, com uma direção que foge do padrão - afinal o cineasta precisa filmar com takes mais longos para que o 3D possa funcionar. A tridimensionalidade em si, é muito bem explorada por Anderson . Existem bons takes, com tons profundidade muito bem utilizados, que conseguem criar uma imersão similar a de Avatar , por exemplo . Os conceitos de chuva e de fumaça também são testados de maneira muito eficiente, e passam uma interatividade praticamente inovadora . Mas é claro que Anderson não deixaria o filme passar sem os seus toques pessoais. Para cada cena de profundidade bem explorada, há duas de objetos voando na tela. Nada que desfavoreça o longa, obviamente, e no geral, a tridimensionalidade entretem de maneira muito eficaz.

O problema para as cenas de ação é, com certeza, o fundo musical . A trilha de Tomandandy( Tom and Andy, mas optaram pela tosqueira do nome conjugado sabe -se lá porque.) é pra lá de estranha e descompassada . Assistir as belas sequencias de ação com as musicas estranhas ao fundo nao é muito agradável, e a trilha só se salva com a música final e a da cena de luta com o Executioner . A fotografia teria méritos principalmente pela cena dentro da Arcadia, onde tudo é branco e muito mais claro. Infortuitamente, fora dali, a fotografia é escura, e com a presença dos óculos 3D tudo fica mais escurecida ainda. Fora isso, a parte que tem o desempenho abaixo da média são os efeitos especiais. Em certos pontos, parece que os efeitos eram maiores do que o orçamento de 60 milhões , o que gera certa queda na qualidade gráfica. Felizmente, isso não prejudica a diversão no cinema .

Num apanhado geral, podemos dizer que nada mudou na franquia Resident Evil como base para história. Seguem-se as mesmas linhas narrativas, os mesmos confrontos, e os mesmos ganchos pra prolongar a franquia. Não parece passar pela cabeça de W.S.Anderson finalizar a série agora. Entretanto, é importante ir começando a pensar nisso, pois daqui a uns anos, o 3D vai ser artifício comum no cinema, e se foi só ele que salvou o Recomeço do fracasso total, o que vai salvar o próximo filme?

2 Estrelas **

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

The Crazies

Refilmagem de clássico do Romero é forte em vários aspectos.

George A. Romero é um dos diretores criativos na indústria do cinema. Apesar de só fazer filmes de zumbis, é nas metáforas políticas de seus filmes que o diretor se distancia consideravelmente dos outros filmes de mortos-vivos. Um grande exemplo disso é que, antes de A Noite dos Mortos-Vivos, filme de terror era algo obscuro, restringindo-se a fantasias toscas com zíper á mostra. Adicionando uma conotação social no meio da suas tramas, Romero criou ali a Bíblia do Zumbi, o que determinaria o que deveria ser feito ou não dali pra frente. Apesar de ser famoso pela Trilogia dos Mortos, os clássicos A Noite dos Mortos-Vivos, O Despertar dos Mortos e O Dia dos Mortos, Romero produziu outros trabalhos interessantíssimos como O Exército do Extermínio(The Crazies), que demonstra os efeitos que uma epidemia catastrófica causaria numa pequena cidade americana. Então, com tantos sucessos, Romero começou a ter seus filmes refilmados pela Hollywood atual. Após o bacana Madrugada dos Mortos, que Zack Snyder filmou em 2004 com um respeito gigantesco pelo legado do mestre, surge agora o remake de The Crazies, com o desnecessário título A Epidemia aqui no Brasil.

E se Madrugada dos Mortos atualizava os elementos típicos de Romero para a ação e sátira atual, The Crazies tem um respeito ainda maior pela obra original, criando um filme de zumbis á moda antiga. Se Snyder criou em 2004 um filme que pegava as sátiras implícitas de Romero e as escancarava e modernizava, o diretor Breck Eisner mantém o modo clássico de fazer a crítica. E aí já temos o primeiro acerto do filme: inovar, mas bebendo da fonte do passado. Em tempos dos zumbis rapidinhos de Extermínio, dos hilariantes raivosos de Zumbilândia e a claustrofobia insana dos possuídos de REC, é esse The Crazies que traz infectados(chamarei de zumbis apenas pra ilustrar, mas não são mortos-vivos em questão) mais críveis e ameaçadores, mais humanos até. Não que a fortíssima metáfora dramática-social de Extermínio entre em questão aqui(até porque o filme de Danny Boyle é melhor), mas no design assustadoramente real dos zumbis, The Crazies é melhor. E essa leve mudança no design explica muito do que o filme representa: um perigo real e incontrolável, angustiante e que emprega tensão o tempo inteiro justamente por poder vir de absolutamente qualquer lugar.

A trama segue a fictícia Ogden Marsh, o arquetipo de cidade americana sulista com tradições antigas. Quando o Xerife David Dutton(Timothy Olyphant) está indo a um jogo de baseball no campo da cidade, ele percebe que há uma pessoa entrando no meio do jogo, com uma shotgun na mão e pronto pra atirar. Entrando no campo para impedir o homem de estragar o jogo, David percebe que aquele dali é um bom homem conhecido seu chamado Rory Hamill. Porém, Rory age estranho e aponta a espingarda pra David, ele se vê sem opção e atira. Então, triste e amargurado por ter matado um amigo(mesmo tendo feito a coisa certa, como disse sua mulher), David segue sua vida. Tudo muda então quando ele descobre que os sinais vitais de Rory estavam normais. Quando começa a achar tudo muito estranho, surgem outros homens com essa anomalia. Após isso, começa a derrocada de Ogden Marsh até o fundo do poço, com David, sua mulher Judy(Radha Mitchell), Becca(Danielle Panabaker) e Russell(Joe Anderson) tentando fugir da tal epidemia do título nacional, que tem explicações tão bizarras quanto a ação do governo na pequena cidadezinha.

A princípio, a trama de The Crazies pode ser vista como trivial(começa com um simples infectado, temos uma ação que desperta sentimento de culpa no protagonista) e pode até ser. Porém, além de ser difícil errar com a estrutura comum a filmes do gênero, The Crazies ainda inova em diversos pontos. Se os novos filmes de infecção buscam novos horizontes pra a estrutura, o roteiro escrito pela dupla Scott Kosar e Ray Wright reescreve O Exército do Extermínio mantendo as características do original e, mesmo assim, tendo liberdade pra criar um produto novo. Algumas soluções do roteiro no filme também são extremamente criativas, como o início. Ao som da excelente We'll Meet Again, tão bem empregada aqui quanto em Dr. Strangelove, um pequeno panorama da lenta e rural Ogden Marsh é realizado. O próprio fato da cidade ser criada, exatamente pra ser uma metonímia do povo rural americano, é inteligente(e não estava no original). Aliando todas essas soluções interessantes que podem ser percebidas com um pouco de atenção ás metáforas totalmente intactas presentes no filme de 1973, temos uma ficção científica de zumbis que se propõem a não só trazer a velha tradição romeriana pro cinema atual como faz pensar.

A construção de personagens é um dos fatores que são anteriormente testados e dão a dose certa de profundidade aos 4 principais. Apesar de não ser tão espetacular quanto a ambientação, a construção é precisa no seu propósito principal(usado em diversos clássicos do gênero): criar o máximo de laços com os personagens com a intenção de potencializar emocionamente o final. Se a dupla não inova ao escrever essas passagens, pelo menos mantém o filme com um ritmo competente. E aí entra outro fator do roteiro que merece uma citação: a proposta de atravessar diversos gêneros. The Crazies é, em sua essência, uma sci-fi de infecção, com certeza. Mas o roteiro, talvez por achar que o drama dos personagens iniciais seria arquetípico, acaba incorporando o Horror pra criar passagens verdadeiramente antológicas, como uma sequência claustrofóbica no lava-jato. A tensão é crua, realista, angustiante. Sinceramente, eu devo exaltar que esse foi o filme que mais me deixou nervoso em uns 2 anos, pelo menos. Terror empregado pra auxiliar a narrativa, sem passagens gratuitas, coisa de quem entende o que faz mesmo. Sem a irritante enrolação de exemplares idiotas de terror, como Atividade Paranormal e O Mistério das Duas Irmãs, The Crazies se sobressai.

Impressionante constatar que, apesar de haver erros em The Crazies(talvez o único que mereça ser citado é a adoção da trivialidade de estrutura, com a fuga de certos personagens), esses são vastamente compensados pelo horror expressivo que o roteiro emprega, assim como o embasamento político que o filme tem. Além de fincar seus pés como um exemplar importante pros filmes de infecção, The Crazies se consolida como um dos mais tensos e mais interessantes terrores modernos, fazendo com que a transição de gênero(já presente na espetacular obra-prima Inception) seja a principal marca e o principal acerto do brilhante roteiro da dupla, que é promissora, Scott Kosar e Ray Wright.

Porém, se The Crazies fosse só um roteiro impressionante, não poderia fazer muita coisa. Nas mãos de um diretor ruim, um roteiro pode ser implodido. Fora que, pra pessoas que pensam em cinema como arte que abre um leque de abertas demonstrações de estilo de um diretor(como eu, que considero o diretor um legítimo Autor), um filme deve, sempre, ter uma direção cuidadosa e nunca seguir "direções de aluguel", em filmes de produtor. Aqui é um caso que alia os dois espectros. O diretor Breck Eisner dirigiu o inexplicável Sahara, um blockbuster comum, mal divulgado, com atuações na média e cacoetes de aventura, um legítimo filme estúpido de produtor, com orçamento gigantesco(veja bem, é crível dar 160 Milhões de orçamento pra um diretor no primeiro filme? Pois é, em Sahara deram). 5 Anos depois, parece que o incrivelmente talentoso diretor aprendeu. E agora com um orçamento 8 vezes menor.

Utilizando uma estética diferente, o Scope, Breck Eisner cria uma atmosfera toda particular a tal metonímia que é Ogden Marsh. Tudo se move lentamente lá, tudo parece que tem um ritmo estranho e sempre parece que algo está errado com o ambiente. Pode haver qualquer coisa em qualquer lugar. Com essa solução inteligente de usar esse tipo de câmera, Eisner cria tensão em absolutamente tudo, fazendo com que essa pequena cidade seja um campo de horrores prestes a ser aberto. Sua direção é consistente, com takes interessantes e uma direção de atores competente. O uso, por exemplo, do zoom é outro acerto marcante nessa direção maravilhosa, que é o melhor fator do filme. O zoom serve aqui para trocar, constantemente, o foco da imagem. Em uma cena particular, em que são apontadas metralhadoras pra câmera, o uso do zoom é incrível, trocando o foco do rosto dos soldados pro cano das armas. Excelente, de encher os olhos. Fora isso, Eisner ainda é criativo em elaborar ângulos de câmera que possibilitam sustos sem apelar pra som subindo ou escuro. Duas dessas cenas, pelo menos, Eisner usa a diferença de perspectiva do foco para mascarar um segundo elemento em tela. Fantástico.

Nas outra características técnicas, temos competência também. A trilha de Mark Isham pode até ser esquematizada, com notas clássicas e conhecidas do grande público do cinema, mas serve pra manter a tensão quando necessário, o que basta em um filme como The Crazies. Não é necessário ser Hans Zimmer ou Clint Mansell pra criar notas que demonstrem transição de cena, o que tem muito aqui. A fotografia é bem utilizada e tem uma tonalidade esbranquiçada e suja, se alternando. A edição também é bem utilizada quando necessária, por exemplo, num momento de susto. Nada além do bom, mas as vezes é o que se basta. Como cereja do bolo, os já citados infectados, que tem uma maquiagem boa e que soa muito convincente, dando um ar de realismo áquelas criaturas que metem bastante medo. Além disso, temos uma ou duas cenas em que efeitos especiais são necessários e eles fazem a parte deles sem comprometer(até muito bem, considerando o baixíssimo custo de 20 Milhões do filme).

As atuações de The Crazies fazem parte do pacote comum de filmes de zumbi. Temos o competente Timothy Olyphant, que já provou que consegue ser um vilão bom de filmes de ação(em Duro de Matar 4.0) e ainda ser um bom herói de ação(sua robótica e marcante atuação no esquecível Hitman). Aqui, ele abre margens pra uma atuação que passa emoção normalmente, naturalmente. Não chega a ser o extremo de filmes como Pi, em que a insanidade do protagonista é latente, mas também não chega a passar uma falta de realismo. Uma atuação competente e precisa, sem extrapolar. Radha Mitchell também segue essa linha, restringindo de uma forma inofensiva o seu enorme talento. Joe Anderson cria um personagem mais difícil, por causa de uma pequena virada de comportamento no meio da película. No início ele segue a linha do casal de protagonista, atuando na medida. Quando há a virada, ele faz uma atuação segura e boa, sem roubar a cena mas também sem soar ridículo. Danielle Panabaker pouco tem pra fazer então apenas atua com naturalidade. Somando tudo isso, temos um belo elenco de filmes de infecção, que não roubam a cena(o que pode tirar o foco da narrativa) mas passam um realismo e apego necessário.

Visto tudo isso, The Crazies é uma coleção de vitórias. Um filme acima da média, que dá um novo fôlego ao explorado gênero de filmes de epidemia. Um exemplo a se seguir. Se espelhando nas regras do passado, Breck Eisner, Scott Kosar e Ray Wright criam um produto extremamente satisfatório, que consegue ter embasamento político interessante e uma crítica a sociedade belicista e até mesmo ao posto de Xerife do Mundo que os Estados Unidos impõe. Com certeza, o mestre George A. Romero deve estar muito feliz agora. Primeiro por ter tido seu filme refilmado num resultado tão satisfatório. Segundo porque, depois de tantos anos tendo que se contentar com seus filmes de Zumbi sendo jogados no mercado direto em vídeo(ou com divulgação ridícula), ele vê sua obra sendo influência pra o cinema atual. A obra de Romero é tão vasta que já provou que pode ser atualizada em Madrugada dos Mortos. Mas é aqui que vemos o quão visionário foi esse legítimo autor. Os elementos que ele utilizou há 40 anos, acreditem, continuam a frente do nosso tempo. The Crazies merece a visita ao cinema, mesmo com alguns pequenos defeitos. Esses são facilmente eclipsados pelos acertos múltiplos.

**** 4 Estrelas

Old School Trailers - Parte 1

The Old School Trailers


Hoje, estreia uma nova coluna no Old School Nerds. Com a quantidade sensacional de novos trailers(alguns, épicos) que vem sendo lançados ultimamente, ainda mais nessa época de filmes 3-D aos montes, Old School Trailers falará sobre os trailers que tem sido lançados recentemente e podem empolgar ou não.
A cada post, falaremos de 6 trailers diversos.

Nessa Parte 1, falaremos dos seguintes trailers:

Black Swan - Novo filme do grande Darren Aronofsky - Análise dos dois editores.

Sucker Punch - O comentado blockbuster de Zack Snyder - Análise de Gabriel.
Tron Legacy - A continuação do sucesso da Disney em 1982 - Análise de Joaquim.

127 Hours - Novo filme do oscarizado Danny Boyle - Análise dos dois editores.

Resident Evil 4 - Continuação da franquia baseada no amado jogo da Konami - Análise de Gabriel

e

A Lenda dos Guardiões - Animação ambiciosa de Zack Snyder - Análise de Joaquim.

Black Swan
Análise Gabriel: O trailer do novo filme de Darren Aronofsky é o melhor do ano, demonstrando a maravilha de película que vem por aí. Temos uma Natalie Portman angustiada numa bela volta do diretor aos dramas de suspenses urbanos e que mexem com a mente do protagonista, como Pi e Requiem Para um Sonho. Pode vir um novo clássico daqui ,naquela que pode ser, tranquilamente, a 5ª Obra-Prima na carreira do gênio.

Nota: 5 Estrelas

Análise Joaquim: O primeiro trailer de Black Swan já deixa bem claro as suas pretensões : Ser mais uma obra-prima de Darren Aronofsky. A trama é praticamente uma mistura de todos os seus filmes , e nos deixa abismado quando acabamos de assistir. O delírio gradativo se apresenta ao som de uma trilha sonora profunda e sombria de Clint Mansell, e a direção de Aronofsky só parece melhorar a cada película . A cena do "Attack it", já é um das mais esperadas do filme.

Nota: 5 Estrelas


Sucker Punch

Análise:
O novo filme de Zack Snyder, o primeiro com uma ideia original do diretor, tem grande potencial. É extremo e psicodélico a níveis estratosféricos e é um trabalho arriscadíssimo, pois tem ação de blockbuster, mas uma identidade enorme, provando que o diretor trabalha melhor com abertas demonstrações de seu próprio estilo. Pode vir um excelente filme, com visuais espetaculares.

Nota: 5 Estrelas







Resident Evil 4 - Recomeço

Análise:
O novo filme da franquia Resident Evil pode ser considerado o meu guilty-pleasure do ano. Os motivos são vários, até porque os capítulos anteriores da franquia só podem ser considerados, no máximo, divertidinhos. Porém, o trailer demonstra que a produção tem tido um cuidado impecável tecnicamente, com uma direção boa, fotografia excelente e uma ambientação com tonalidades brancas que vale a pena conferir. E, claro, tem 3 dos meus pontos fracos: Ambientes Brancos, Chuva e Câmera lenta.

Nota:
3 Estrelas



A Lenda dos Guardiões

Análise:
O próximo filme de Zack Snyder apresenta no seu belo trailer todo o estilo de seu criador , apesar de nem estampar que é o diretor de 300 e Watchmen que dirigirá a animação de aventura. Com belas imagens aéreas e passagens que remetem diretamente a 300, podemos ter certeza que este é mais um filme imperdível. Se na telinha de computador é bom, nos cinemas em 3D só tende a melhorar. Pelo menos no visual - arrojado e realista - este filme já parece ser uma vitória.

Nota: 4 Estrelas


127 Hours

Análise Gabriel:
O trailer do novo de Danny Boyle agrada bastante. A montagem ágil, com tom descontraído e característico do diretor(que tem aptidão pela montagem rápida, como em Slumdog Millionaire), auxiliado pela trilha espetacular fazem desse filme um potencial candidato a obra-prima no ano que vem. James Franco também está fantástico.
Nota: 5 Estrelas

Análise Joaquim:
O primeiro trailer de 127 horas, novo do recém-oscarizado Danny Boyle, é genial e cria expectativa grande. Ágil, tendo como pano de fundo belas paisagens paradisíacas, o filme parece não assumir o tom melodramático que um diretor menos inventivo poderia tentar empregar. Com montagem rápida, um James Franco competente e uma trilha SENSACIONAL e viciante, o vídeo nos deixa num grande aguardo para o que Boyle vai querer apresentar.
Nota: 5 Estrelas


Tron Legacy

Análise: O segundo trailer de Tron Legacy já seria magnânimo apenas por sua direção imponente e trilha grandiosa. Entretanto, a continuação do sucesso de 82 tem mais a mostrar. Com uma história inicial que não dá muita margem para clichês, o vídeo mostra detalhes embasbacantes e efeitos divinos. O Jeff Bridges digital é perfeito, incrível e absolutamente real. A apreensão é alta e justifica o filme ser uma das maiores expectativas do ano. Imagina quando virmos o espetacular jato de luz no cinema? É esperar e desfrutar.


Nota: 5 Estrelas



Até a próxima parte da sessão, trazendo mais trailers.

sábado, 21 de agosto de 2010

Garotas sem Rumo

Stephen Gaghan escreve de forma caricata drama com estética de telefilme.

Stephen Gaghan é um bom escritor, isso é inegável. Ele tem em seu currículo o espetacular filme panorama Traffic e o competente porém mal-explorado Syriana. Um escritor que eu não diria que é irregular, mas um cara competente que cometeu pequenos erros. Porém, quando vemos Garotas sem Rumo, nem reconhecemos Gaghan direito. Afinal, é fácil notar a forma panorâmica e de introdução que vemos no início do filme, mas é difícil perceber algum traço da genial construção de personagens de Syriana e Traffic. Quando Gaghan tenta se aprofundar em algo na película, nada dá muito certo. Talvez dê pra colocar a culpa em Jessica Kaplan, dona do primeiro roteiro que ganhou o tratamento de Gaghan em 2003, ano da morte da garota, num acidente de avião. E aí, tudo até ficaria bem compreensível: Kaplan escreveu o roteiro baseado no que ela via no dia-a-dia, com 14 anos, cometendo falhas de construção de roteiro que só poderiam ser explicadas por um roteiro escrito por uma amadora dessa idade.

Porém, apesar de parecer um filme bem fraco, uma tentativa pior ainda de Aos Treze, o filme tem seus méritos. Algumas cenas, principalmente as iniciais, demonstram uma boa ambientação ao mundo das aparências de Los Angeles e da fútil vidinha rica dos adolescentes de lá. Além disso, situações são demonstradas muito bem, apesar da clara falta de realismo. Mas lá pro minuto 20, aparecem algumas incongruências que fazem o filme derrapar, mas jamais implodir.

A trama segue os adolescentes de Los Angeles e suas emoções, suas insatisfações com a vida e com seus pais, uma espécie de Patricinhas de Beverly Hills pesado e dramático. Encarando um modo de vida alternativo por medo de viver uma realidade desoladora e angustiante(pra eles), um grupo de jovens capitaneados por Allison(Anne Hathaway) e Em(Bijou Phillips) tem uma personalidade que prefere o modo gangster de viver, imitando porto-riquenhos e negros que são os chefes do gangsta way of life nos USA. De seu modo de vestir até seu modo de falar e se comportar, os jovens exageram a ponto de dizer que gostam muito mais de sua personalidade caricata e exagerada de gangster do que sua própria existência como brancos. Porém, quando está saindo com a "gangue", Allison vê que seu namorado Toby(Mike Vogel), quando vai comprar uma droga, acaba sendo ridicularizado pelo gângster porto-riquenho Hector(Freddy Rodriguez). A partir daí, Allison vê que seu mundo é apenas de mentira e que os verdadeiros gângsters estão nas ruas, longe do mundinho rico e restrito da alta Los Angeles. Começa a aproximação de Allison e Em até os porto-riquenhos.

O filme parece seguir por uma linha em que vai mostrar a realidade nua e crua dos mimados adolescentes entediados, condenando esse modo de vida, mas o texto de Gaghan parece estar mais preocupado em humanizar os bandidos do que condenar a ação de Allison e seus amigos. Até aí, tudo bem, afinal o texto se assume no final, quando Hector diz para Allison: "Você não é real, eu sou real, nada em você é real". Trata-se então, claramente, de um filme que quer distanciar os gangsters poser dos de verdade. Porém, a veia do filme-denúncia aparece claramente(e não é só uma vez). No final do filme, é passado novamente o vídeo gravado por Eric(Matt O'Leary), um sinal de que esse cinema quer contar uma história, mas quer conscientizar os mimados da alta roda que querem ir pro gueto. Logo, já soaria meio indecisa essa decisão do filme em atirar pra todos os lados.

A coisa piora quando é constatado que o texto de Gaghan não só atira pra todos os lados, como fica na superfície de todos eles. Temos um caso paradoxal de rico que quer ser bandido, que é exemplificado pela conversa de Allison e Eric. Enquanto Allison parece só discursar como uma vadia mimada que quer apenas um pouco de emoção, Eric tenta alertá-la sobre sua patética vida. A discussão poderia, sim, abrir uma brecha pra um momento de introspecção da personagem, mas corta-se logo isso quando na próxima cena, vemos Allison indo ao gueto, sem ao menos pensar sobre o que diabos ela estaria fazendo. Podendo investir num lado dramático, que se aprofundaria em construção de personagens, o roteiro nega isso por ter uma precária construção e se preocupa mais em ser um GTA poser. Continuando sua empreitada por atirar pra tudo que vê e nada acertar, Gaghan então cria um final para a jornada de Allison e Em. Porém, esse fim depende de um apego prévio aos personagens, pra potencializar o que está ocorrendo na tela, coisa de que o filme carece. Afinal, o final do filme começa com cerca de 50 minutos, o que impede a mínima preocupação com o personagem. O espectador fica, sem dúvida, nem aí pro que vai acontecer com as protagonistas.

Já o lado caricatual que citei no início do texto, é uma constante em Garotas sem Rumo. Gaghan escreve as passagens iniciais, de introdução, com certa destreza, criando uma atmosfera necessária. Porém, é nos personagens que o roteiro volta a escorregar. Criando personagens caricatuais e que não demonstram a mínima empatia, aliado a eles brotarem e sumirem na tela inexplicavelmente quando o filme muda para a discussão moral de Allison e Em, o roteiro falha nesse quesito, apenas entretendo rapidamente com essas passagens que poderiam até chocar, mas são risíveis. A bagunça se intensifica em uma emblemática cena final, que três gangsters ricos miram suas armas pra câmera, falando como bandidos de TV e prometendo vingança com frases de efeito que não colam e SE LEVANDO A SÉRIO. Sim, um filme que escreve o caricato e é atuado de forma séria. Um drama risível, sem focar em um só tema.

Depois de tantos erros, seria difícil apontar um só acerto em Garotas sem Rumo. Mas justamente o fato que tanto prejudica o filme de se tornar marcante é o que torna ele, mesmo forçando a barra e sendo generoso, aceitável. Por fazer várias perguntas e criar uma atmosfera de um legítimo GTA, o roteiro se torna uma experiência que, quando não se leva a sério, diverte de forma quase sádica os cinéfilos que procuravam naquilo TUDO, ABSOLUTAMENTE TUDO, menos um filme caricato sobre um tema tão sério quanto a incursão de pessoas com oportunidade no mundo da criminalidade. Rir pra não chorar é o grande lema pra se assistir Garotas sem Rumo. Umas parcas ceninhas boas não salvariam o filme do ridículo não fosse essa epifania de qualidade ás avessas, uma incursão inconsciente no caricato.

Tecnicamente, o filme apresenta um novo paradoxo. Temos a direção de Barbara Kopple, que alterna de forma estilosa entre o documental de um Traffic e o agressivo de um Escafandro e a Borboleta, criando alguns momentos que são registrados de forma precisa e cinematograficamente satisfatórios. Acompanhando a direção, temos uma edição precisa, que lembra trabalhos consagrados como o de Traffic. Porém, o paradoxo se cria quando temos uma ridícula fotografia que emula vários telefilmes toscos de Los Angeles. Se um Dante Spinotti consegueria tirar nuances espetaculares dessa verdadeira metrópole, nesse filme o máximo que conseguimos é um clima interessante em algumas cenas noturnas, uma fotografia suja e esverdeada que apesar de boa, demonstra a falta de uniformidade na fotografia, alternando entre o OK e o ridículo. Se mudanças bruscas de fotografia geralmente podem ser espetaculares nas mãos de alguns caras competentes, aqui soa imbecil e patético, uma tremenda barbeiragem. Pífia, uma fotografia que extrai uma ou duas boas imagens, mas falha grandiosamente em extrair 85 minutos de pura falta de estética.

Aliada a essa fotografia, temos a trilha sonora. E aqui temos um caso peculiar: O tema do filme estragou grandiosamente o talento do compositor. Cliff Martinez, ótimo compositor dos filmes antigos do Soderbergh, é conhecido por seu talento em criar melodias minimalistas e contemplativas nos filmes de circuito independente, onde ele opera. Logo, são criadas trilhas marcantes e leves como Solaris e Narc. Se Cliff segue uma linha do gênio Clint Mansell na trilha construída, sua escolha de músicas teve de ser restrita. O filme trata sobre a cultura do hip-hop. E é extremamente triste ver tanta música ruim e mal introduzida por um cara tão completo como Martinez, o que soa risível o fato dele estar DESCONFORTÁVEL em seu trabalho. Acho que a dificuldade de um homem estar desconfortável no trabalho que ama é tão grande que isso só poderia ocorrer num festival de bizarrices extremas e contrastantes como Garotas sem Rumo. Se o roteiro já é uma salada que não se decide entre o tosco e o imperdível, a estética do filme só reforça esse lado. Parece até mesmo um trabalho independente e ruim de um Linklater, com direção boa, mas uma fotografia baratíssima.

As atuações de Garotas sem Rumo são, como tudo no filme, um festival que vaga em algum lugar entre dois espectros distintos. Anne Hathaway, aqui recém-saída da "franquia" Diário da Princesa, está em plena ascenção. No mesmo ano de sua atuação boa em Brokeback Mountain, a atriz já prova que tem competência e tem o melhor papel do elenco, mesmo sem passar do aceitável. Algumas cenas, como a do quarto com Em, exigiam uma atuação desmitificadora, uma nova chance que o roteiro dava ao filme de ganhar profundidade em personagens. Porém, o próprio texto não segura a cena e nem Anne consegue fazer muita coisa. O texto tenta tanto, de todas as formas, estragar o filme que Anne começa a cantar uma música de rap em vez de se aprofundar no âmago do personagem. Se pensarmos que aquela ali não é uma profissional competente como Anne Hathaway e é uma atriz qualquer de filmes independentes baratos, poderemos achar genial. Bijou Phillips, egressa dos filmes do diretor Larry Clark e conhecida por seu papel em Hostel Part II, mantém seu padrão. Nada além do normal, mas interessante. Freddy Rodriguez se sai melhor, atuando de forma aceitável como o gângster, passando realismo.

Porém, temos inexplicáveis atuações de Joseph Gordon-Levitt e Channing Tatum. Os dois atores, principalmente o cada vez melhor Levitt, tem competência suficiente pra segurar um papel, por menor que ele seja. Mas aqui, as atuações são tão caricatuais, tão falsas, tão estúpidas, que não dá pra achar nem um pingo de realismo naquilo. Levitt, quando perguntado se gosta de alguma coisa "branca" nele, fala que prefere tudo dos negros, mas só gosta de seu traseiro branco. Nada além de um What the Fock?! pro momento. Se passasse pelo menos com realismo esse seu sentimento, tudo soaria absurdo e realista, o que chocaria. Porém, Levitt parece ter tanta confiança naquele texto estranho e caricato que Gaghan escreveu que acredita de forma debochada naquilo, atuando de forma entre o automático e o bizarramente esdrúxulo. Já Channing Tatum está mais inexplicável ainda, levando em conta o fato de que ele deve aparecer em 5 minutos de filme, sem a menor relevância, servindo como um brucutu que serve de escada pra ridícula cena do quarto de hotel, que envolve Mike Vogel, Tatum e Levitt.

No veredito, é duro aceitar o que Garotas sem Rumo quer passar. Tem atuações burocráticas, uma estética que não se decide entre o elegante e o kitch e um roteiro que mira todos os pontos que pode, mas não se aprofunda em absolutamente nada. Um legítimo filme que fica na superfície. E, que por isso, ganhe alguns pontos. Insinuando um milhão de coisas, Garotas sem Rumo pelo menos entretem. E quando digo isso de um drama que joga com o filme-denúncia e o estudo de personalidade, é bizarro demais. Talvez, por um sentimento sádico e uma extrema boa vontade de minha parte em considerar que a entrada inconsciente no mundo caricatual que o roteiro tem seja plenamente compatível com a situação das protagonistas. Force a barra e considere que todos aqueles personagens estão atuando de forma tosca propositalmente. Apenas assim para considerar Garotas sem Rumo uma experiência digerível.

*** 3 Estrelas